Importância de se eleger candidata brasileira ao Miss Universo é tão capital quanto fazer a organização do concurso nacional


A história mostra

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Acervo Última Hora/Folhapress/29.06.1954
Martha Rocha foi produto da Folha que teria Dimenstein, Bérgamo e Zé Simão


A pressão para que alguém comprasse a franquia do Miss Universo no Brasil foi intensa desde o momento em que a Band decidiu jogar a toalha para a transmissão do Miss Brasil 2020. A emissora devolveu a licença para a Endeavor, empresa americana que controla o concurso, no dia 10 de março, mas já tinha a decisão tomada desde abril do ano passado, um mês após a mineira Júlia Horta vencer o Miss Brasil 2019. Júlia ficou atordoada, mas a ex-patrocinadora do Miss Brasil cumpriu com os compromissos de arcar com as despesas de inscrição e envio para a 68ª edição do concurso internacional, realizada em dezembro, em Atlanta. A Polishop pagou a conta, mas o último Miss Universo que a Band mostrou ficou sem patrocinadores. Ficou um ambiente de velório para Renata Fan apresentar.
A entrada do cubano Osmel Sousa no circuito para interceder em favor da ex-miss Minas Gerais Iara Jereissati (no nome de inscrição no Miss Brasil 2004 era Iara Coelho) movimentou os ânimos da comunidade missológica na última semana. Ânimos esses que caminhavam para a depressão, ainda mais em meio à pandemia do novo coronavírus, que emperrou várias coordenações nacionais, forçando aclamações de segundas colocadas nas etapas nacionais do Miss Universo 2019. Não parece ser o caso do Brasil.
A única vez em que o Brasil perdeu uma edição de Miss Universo ocorreu em 15 de abril de 1990. O SBT, que detinha a concessão do Miss Universo para o país à época, perdeu todos os prazos dados pela Miss Universe Organization para enviar a segunda colocada do Miss Brasil 1989, a paulista Adriana Colin. A emissora de Sílvio Santos se armou em um circo de irresponsabilidades, inclusive políticas. O país estava em meio ao primeiro Plano Collor quando Colin foi impedida de ir ao Miss Universo. Ela já fazia carreira de modelo, mas nada a impedia de disputar o título internacional. A acomodação deixou lições.
Desde Martha Rocha, ter o Brasil no Miss Universo virou sinônimo de obrigação. De marchinha de carnaval a memes de mídias sociais, o Miss Brasil sobreviveu à evolução dos meios de comunicação. No SBT, não ingressou na automação devido à reserva de mercado a produtos de informática e ao olho grande do dono do Baú. Senor Abravanel detestava firmas de auditoria. Não queria a Ernst & Young (que já tinha filial no Brasil) fazendo o que já fazia no Miss Universo e no Miss USA. Pontuação eletrônica era assunto proibido. Os jurados tinham de preencher as planilhas de notas a caneta, sem direito a processamento. Assim mesmo, a grita contra certos resultados era inevitável. Em 1985, por exemplo, um jornal chegou a acusar o então governador de Mato Grosso de interceder em favor da candidata do Estado, uma modelo carioca chamada Márcia Gabrielle. Eram denúncias de corrupção que surgiam em tempos de redemocratização.
O Miss Brasil e o Miss Universo continuaram na década de 1990, porém sem televisão. Os organizadores que se revezaram no controle do concurso nacional< à exceção de Marlene Brito, eram inábeis e incompetentes em negociar sua exibição em televisão. Quando Paulo Max fez negócio com a Globo, em 1994, recebeu apenas reportagens no Vídeo Show. Em 1995, pancadas no Fantástico. Foi aí que resolveu dar um basta e mandar o Miss Brasil de 1996 para a Record do bispo Edir Macedo. Max morreria sem ver uma candidata sua classificada no Miss Universo. Seus filhos quase afundaram o concurso nacional numa decadência que se arrastou entre 1997 e 1998. Boanerges Gaeta Jr. entrou em ação para ficar com a franquia do Miss Universo a partir de 1999 e fazer o Miss Brasil ao velho modo, mandando candidatas também ao Miss Mundo e ao Miss Beleza Internacional. Era assim que o concurso era feito antes da concordata dos Diários Associados, em 1980.
O Grupo Folha fez a primeira edição do Miss Brasil, respaldado por patrocinadores ligados ao Miss Universo, à época realizado em Long Beach. Em 1955, os Associados assumiram a guarda do Miss Brasil e do Miss Universo. Assis Chateaubriand (1892-1968) tinha mais poder de influência que Octávio Frias de Oliveira (1912-2007), dono de quatro jornalecos de São Paulo – Folha da Manhã, Folha da Tarde, Folha da Noite e Última Hora. O império de Chatô, àquela altura já com duas emissoras de televisão em atividade e se valendo do poder de suas rádios, jornais e revistas, foi decisivo para que o Miss Brasil sobrevivesse às ondas da Embratel, a partir de 1970. Foi quando a Rede Tupi passou a mostrar o Miss Brasil ao vivo para todo o país, apesar do poderio da Rede Globo, mais influente junto à então estatal de telecomunicações para montar retransmissoras.
Martha Rocha foi eleita em um Miss Brasil organizado pela Folha. Mas foram as páginas de O Cruzeiro e da Manchete, de editores concorrentes, que disputavam a tapa as atenções das misses Brasil que se sucederam até 1973. Com a falência das revistas associadas, em 1974, Adolpho Bloch (1908-1995) passou a deter o monopólio, via Manchete e Fatos e Fotos, da cobertura impressa do Miss Brasil e do Miss Universo. Em 1989, quando o SBT não transmitiu o concurso, a Manchete deu uma longa reportagem fotográfica em cores sobre a 38ª edição do Miss Universo, realizada em Cancún (México).
A mesma Folha que elegeu e fabricou as polegadas excedentes de Martha Rocha é a mesma, já como Folha de S. Paulo, que deu capas para nossas duas únicas vitórias no Miss Universo – Ieda Vergas, em 1963, e Martha Vasconcellos, em 1968. A Folha da campanha das Diretas Já. A Folha que atacou sucessivos presidentes após a redemocratização. A Folha que define em seu Manual de Redação que “jornais não existem para fazer caridade”. A Folha que demitiu um colunista que escreveu que “o povo urina nos heróis de pedestal”. A Folha que teve Clovis Rossi e Gilberto Dimenstein e ainda conta com Mônica Bérgamo e José Simão. A Folha que levou um “cala a boca!” de Jair Bolsonaro.
Para o bem ou para o mal, o Miss Brasil só sobrevive com mídia. Com uma emissora de televisão que o coloque nas nossas casas. Com um grupo de comunicação que faça a mesma coisa. Com mídia que dê atenção à vencedora, mesmo que esta não renda manchetes. É o caso de Júlia Horta, escanteada da mídia após a ruptura da Band com a Miss Universe Organization, controlada da Endeavor. A presença do Brasil no Miss Universo 2020 é crucial, há concursos estaduais em andamento, coordenadores angustiados. Os “boatos de que Iara Jereissati vai comprar o Miss Brasil”, com o amparo da Globo, parecem ganhar cada vez mais corpo de verdade. O tempo dirá.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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