Band tinha colocado emissoras nas 27 capitais para facilitar a realização e exibição dos concursos estaduais do Miss Brasil


Problemas de logística e oposição interna puseram plano a perder

Da redação TV em Análise

Lillian Suwanrumpha/AFP/Getty Images/17.12.2018
Eleição de Catriona Gray como Miss Universo 2018 foi a primeira que a Band mostrou para todo o país


Antes mesmo da eleição da filipina Catriona Gray como Miss Universo na noite de 14 de dezembro de 2018, a Band já tinha colocado no ar emissoras nas 27 capitais de Estado, inclusive Maceió e Aracaju. De acordo com registros da Anatel, a Band tinha colocado no ar as emissoras das capitais alagoana e sergipana no dia 30 de maio, quatro dias após a realização do Miss Brasil 2018, no Rio de Janeiro. Ambas operam em UHF.
Em março do ano passado, a Band retomou as operações da emissora de Palmas, que fora tirada do ar em 2015. Em 1º de setembro, foi colocada no ar a emissora própria de Cuiabá, para tampar buraco de um encerramento de afiliação. Recentemente, assumiu as operações da TV Metropolitana, em São Luís, denominando-a Band Maranhão. O fez depois de encerrar seu vínculo com o Miss Universo, que viabilizava o Miss Brasil.
O plano de colocação de emissoras da Band nas 27 capitais em nada tinha a ver com o projeto de misses da emissora, que já apresentava sinais de desgaste. Brigas internas fizeram com que a Band fosse se desvinculando da imagem de “sonho de miss” para impor uma linhagem mais retrógrada, ultrapassada, alinhada com o bolsonarismo e com a extrema-direita. Os princípios e valores do Miss Universo, de acordo com a ala mais conservadora da emissora, são encarados como esquerdistas. Eleição de misses Brasil nesse tom, como Monalysa Alcântara, fizeram a rede fechar as portas para as misses.
A Band se livrou dos concursos estaduais do Miss Brasil porque sua logística era limitada em termos de transmissão. Nesse ponto, a Globo leva vantagem para pegar os direitos do Miss Brasil. A desorganização do calendário e de horários forçava a exibição de alguns certames em horários de telejornais locais, para driblar a oposição da cabeça de rede a esse tipo de evento. Diretores de certas emissoras regionais iam ao desespero. No padrão, um concurso estadual do Miss Brasil ocupava o horário nobre, para exibição ao vivo. Não era o que se via na Bahia, Minas Gerais e Piauí, que botavam concursos em horários conflitantes, muitas vezes bagunçados. As mídias sociais serviram de escada para a viabilização das transmissões ao vivo, que paulatinamente perderam a graça.
Desde que comprou a transmissão do Miss Brasil, em 10 de março de 2003, a Band sabia que tinha um problema gravíssimo a resolver com os concursos estaduais. Acabou achando um abacaxi, com coordenadores despreparados e com folha corrida na polícia. Fez sua área jurídica fazer ginástica para fazer a rede se esquivar de responsabilidades, mas a morte da Miss Brasil 2004, Fabiane Niclotti, por suicídio, em junho de 2016, fez a bomba estourar nas mãos da emissora. Duas candidatas municipais na Bahia e no Amazonas morreram desde o ano passado, uma por suicídio e outra por assassinato. No fundo, a Band tenta dissociar sua imagem de uma indústria que produziu dor e tragédia. O sonho de miss acabou nas páginas de obituário e policiais, ao invés das sociais. A Band termina seu ciclo no Miss Brasil com uma mancha gravíssima em sua reputação.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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