Em 2003, Band pagou à Gaeta para ter concurso Miss Universo


Acordo era parte da transmissão do Miss Brasil, que ocorrera em 26 de abril

Da redação TV em Análise

Teresita Chavarria/AFP via Getty Images/03.06.2003


Durante toda a década de 1990, o concurso de Miss Universo ficou sem exibição nas emissoras brasileiras. A constante troca de empresas organizadoras do concurso nacional, o Miss Brasil, travou essa disputa de direitos. O jogo de empurra começou a ter um fim em 1999, quando a Gaeta Promoções e Eventos assumiu a representação do Miss Universo no país. A empresa de Boanerges Gaeta começou sua fase do Miss Brasil com um evento pequeno, no Copacabana Palace, na zona sul do Rio de Janeiro. A partir de 2000, o evento cresceu, a ponto de em 2002 ir para uma casa de espetáculos. A volta para a televisão não era mais questão de tempo: era uma obrigação.
A breve experiência com a Rede TV! fez a Gaeta aprender com o erro que cometera: a inabilidade em negociar os direitos de transmissão dos concursos internacionais. A Globo trancava até então as transmissões do Miss Universo e do Miss Mundo, as quais a Gaeta queria vender à emissora dos sócios Amilcare Dallevo e Marcelo de Carvalho. Se o Miss Brasil, o Miss Universo não passassem na Globo, não era notícia. O foi de 1999 a 2001, quando estourou o caso das plásticas da candidata gaúcha Juliana Borges. A Gaeta teve de armar uma campanha de reconstrução da imagem do Miss Brasil, reforçada com o episódio da participação de Joseane Oliveira no Big Brother Brasil 3.
A bênção para a Gaeta viria em novembro de 2002, quando a Miss Universe Organization conseguiu um acordo de distribuição internacional do Miss Universo com a Alfred Haber. Antes disso, os direitos do Miss Universo eram negociados diretamente com a antiga geradora americana, a CBS. A ida para a NBC obrigou o então coproprietário Donald Trump a adotar outro rumo. A NBC exigiu esse acordo para que o Miss Universo tivesse maior audiência global e não ficasse restrita a 40 ou 5o países. Hoje, o concurso, nas mãos da Endeavor desde 2015, é visto em 213 países e territórios.
Após a eliminação de Jose do BBB 3, no início de fevereiro, e sua consequente deposição do título de Miss Brasil 2002, começou uma guerra de mídia pela disputa dos direitos do Miss Brasil e do Miss Universo. Três redes manifestaram interesse: Globo, SBT e, por fora, a Bandeirantes. A Band levou o pacote do Miss Brasil/Miss Universo porque precisava de eventos que suprissem a carência de eventos esportivos cujos direitos foram parar nas mãos de emissoras concorrentes e até de programadoras de TV por assinatura. Devolver a visibilidade ao principal concurso de beleza do país se tornou uma obrigação.
O negócio da Band com o Miss Universo foi avalizado pela Gaeta, que tinha a concessão do Miss Brasil. Depois de oito anos, em 2011, a Band assumiu a responsabilidade direta pelos interesses do Miss Universo no Brasil, além dos direitos de transmissão em TV aberta. Meteu-se em uma aventura na qual não entendia: a de fazer concursos estaduais.
A Band produziu a transmissão do Miss Brasil 2003 para ir ao ar no dia 26 de abril. Nada de evento gravado. O concurso seria transmitido ao vivo, como os padrões da band requeriam. Chamou-se uma tropa de apresentadores para se revezar no palco. No anúncio final, jurados se revezavam para anunciar as cinco primeiras colocadas. A Band também assumiu a obrigação de exibir, mas com atraso, a 52ª edição do Miss Universo, realizada no dia 3 de junho, na Cidade do Panamá. Ciente da barrigada, no ano seguinte a então diretora artística Marlene Mattos determinou que o Miss Universo passasse a ser exibido ao vivo. Em anos posteriores, poucas foram as vezes que o Miss Universo foi ao ar gravado na Band. Nos anos 2010, isso ocorreu em 2010, 2013, 2015, 2017 e 2019.
À época, a Gaeta pagou US$ 3 milhões pelos direitos de transmissão do Miss Universo, que não foram usados de 1999 a 2002. O montante só foi usado efetivamente quando a Band entrou na parada pelos direitos do Miss Brasil. Ter o Miss Universo na TV aberta significa um grande incremento de ações sociais e de marketing. Era nesse ponto que a Gaeta enxergava um plano de lobby para classificar candidatas brasileiras na disputa internacional. A empresa se sentia anã diante dos lobbies formados pelas coordenações da Colômbia, Porto Rico e Venezuela, as grandes tranqueiras latinas. Mesmo com Nayla Micherif, miss Brasil de 1997 no seu quadro diretivo, tal problema persistia. Nayla colocou a cara para bater na apresentação do concurso na Band de 2004 a 2011. Foi alvo de críticas desde o primeiro momento, muitas delas prematuras. O tempo foi mostrando quem Nayla Micherif efetivamente era: comandante de uma tropa e mestra de uma ópera bufa.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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