Inexperiência e tino esportivo pesaram para a Band abandonar os concursos de Miss Brasil e Miss Universo depois de 17 anos


Emissora fez aventura irresponsável

Da redação TV em Análise

Manoel de Britto/Virgulando/26.04.2003


Em 11 de março de 2003, a Rede Bandeirantes anunciava à imprensa a compra dos direitos dos concursos de Miss Brasil e de Miss Universo, depois da volta do concurso nacional feita no ano anterior pela Rede TV!, porém sem cuidar das obrigações com o concurso internacional. Àquela altura, a Gaeta Promoções e Eventos, empresa sediada no Rio de Janeiro, tinha a coordenação do Miss Universo no país havia quatro anos. Para piorar, o Miss Brasil que a Band passaria a apresentar teria de anunciar as representantes brasileiras no Miss Universo, Miss Mundo e Miss Beleza Internacional. Era uma fórmula confusa aos que estavam acostumados ao modelo exclusivo para o Miss Universo.
Conhecida por transmissões esportivas (e sem boa parte de seus direitos, já comprados em sua maioria pelo Grupo Globo, à exceção do basquete da NBA, que permaneceu na ESPN), a Band encontrou no Miss Brasil e no Miss Universo uma maneira de preencher o vácuo de campeonatos, exceto a IndyCar, que ainda estava em suas mãos. Foi com esse problema para o ciclo olímpico de 2004, aberto com o Pan de Santo Domingo, Amélia Vega, vencedora do primeiro Miss Universo exibido pela emissora, inclusa na cerimônia de encerramento. Tentou se aproveitar da capilaridade de suas emissoras para fazer os concursos estaduais. Encontrou problemas com os franqueados da Gaeta, que podiam negociar até com o Diabo. Aparou essas arestas só depois que o país sediou a 60ª edição do Miss Universo, na noite de 12 de setembro de 2011. Colocou a Gaeta para passear.
Para ilustrar: em 1986, quando Deise Nunes se tornou a primeira negra a representar o Brasil no Miss Universo, a Band era “o canal do esporte”. Para Luciano do Valle (1947-2014), seria inconcebível a emissora investir em concursos de misses. O SBT já estava nesse terreno fazia cinco anos, desde que pegou a licença do Miss Universo na inventariança da Rede Tupi, cassada pelo general Figueiredo (1918-1999). Quando o SBT fez a lambança que jogou abaixo o Miss Brasil 1990, Luciano movimentou as palhas para ter Marlene Brito retomando a tradição dos concursos de misses para a Band. A primeira empreitada, para o Miss Mundo Brasil e para o Miss Mundo 1991, deu errado. Os resultados de audiência ficaram aquém dos que eram registrados no esporte. A resposta comercial foi encarada como filme de comédia mal escrito a mata-borrão.
A Band “surfou” na onda da presença da Miss Brasil de 2002, a gaúcha Joseane Oliveira, que tinha perdido o título havia um mês por desrespeitar o regulamento. Estava casada, o que é proibido. Àquela altura, as curvas de Jose, ex-participante do Big Brother Brasil 3, na Rede Globo, já estavam nas páginas da antiga edição brasileira da Playboy. O que interessava à Globo não era o Miss Brasil e sim os peitos, a bunda e a vagina da Miss Brasil recém-destronada na revista masculina. Àquela altura, a panamenha Justine Pasek reinava como Miss Universo 2002 num reinado iniciado em 29 de setembro de 2002. A destituição da russa Oxana Fedorova também foi citada pelo Fantástico na matéria que tratou da destituição de Joseane como Miss Brasil, exibida em 9 de fevereiro de 2003, cinco dias após a Gaeta efetivar a catarinense Taíza Thomsen na função. Foi Taíza quem passou a faixa e a coroa de Miss Brasil 2003 para a mineira Gislaine Ferreira, aclamada pela Gaeta para representar Tocantins, Estado pelo qual acabou eleita.
O caso de Gislaine acendeu as luzes para outro problema gravíssimo na estrutura do Miss Brasil pós-SBT: a falta de exposição de mídia dada aos concursos estaduais e do Distrito Federal. Faltava profissionalismo. Misses experientes como a própria Deise se prontificaram a ajudar as organizações do Miss Brasil que serviram ao Grupo Bandeirantes no que foi possível. Nenhuma assumiu coordenações estaduais. Todas já estavam nas mãos de colunistas sociais e promotores de eventos, que formavam um verdadeiro cartório, que mais atrapalhava do que ajudava nas participações no Miss Universo. A criação da Enter, em dezembro de 2010, acabou com essa disparidade. O Brasil terminara os anos 2000 com apenas três classificações no Miss Universo. De 30% de aproveitamento, o país pulou para 90% nos anos 2010, com nove classificações.
Foi na figura de Evandro Hazzy, coordenador do Miss Rio Grande do Sul na época de Joseane, que a Band encontrou para dar novos ares ao Miss Brasil a partir de 2011. Consultor informal da Gaeta, Hazzy foi contratado pela Band para coordenar a área de eventos da emissora de Porto Alegre. Foi transferido para São Paulo em 2012, para integrar a nova estrutura do Miss Brasil. Segurou as pontas até 2015, quando eclodiram os primeiros escândalos de corrupção envolvendo os concursos estaduais de franqueados. Houve intervenção nos concursos de Mato Grosso do Sul e Sergipe. Foi nessa época que a Polishop começou a passar da condição de patrocinadora a gestora irresponsável. A Band não soube separar as fronteiras entre anunciante e promotora do Miss Brasil. Assim mesmo, as classificações no Miss Universo se acumularam. A ponto de, em 2017, eleger-se uma piauiense em votação nominal para ir ao concurso internacional. Monalysa Alcântara nunca viajara de avião: o máximo que ela fazia sair do Piauí era atravessar uma das três pontes que ligam a capital do Estado, Teresina, a Timon, no Maranhão. Com o Miss Piauí já nas mãos profissionais da Band, Mona realizou o primeiro de seus sonhos de viajar de avião. Exultante após a vitória em Ilhabela, ela comemorou o fato de também viajar para Dubai, mas não sem antes ir para Las Vegas competir no Miss Universo.
Antes da Band, o Rio Grande do Sul tinha apenas quatro títulos de Miss Brasil. Foi os acumulando entre 1993 e 2002, da aclamação de Leila Schuster à eleição de Jose, em 13 de abril de 2002, numa casa de espetáculos da Barra da Tijuca (zona oeste do Rio de Janeiro), chamada Ribalta. O que já faltava ao Miss Brasil e ao Miss Universo na mídia brasileira àq1uela altura. Nas contas, amealhou oito títulos, empatando com Rio de Janeiro e São Paulo. A eleição de Fabiane Niclotti (1984-2016) em 15 de abril de 2004 fez as contas virarem a favor das gaúchas no Miss Brasil. Nos anos 2000, Rafaela Zanella e Natália Anderle puxaram o acelerador de títulos gaúchos de Miss Brasil para 11. Priscila Machado, Gabriela Markus e Marthina Brandt fizeram essa conta subir para 14 de 2011 a 2015. Minas Gerais se tornou a segunda potência do Miss Brasil em 9 de março de 2019. A eleição da juiz-forama Júlia Horta ampliou um carretel parado com Marisa Fully (1962-1998) em 1983 e completado por Renata Bessa, Nayla Micherif, Natália Guimarães e Débora Lyra. Destas, só Natália obteve classificação no Miss Universo. De quatro, Minas Gerais passou a contar com nove títulos de Miss Brasil. Em Atlanta, Júlia ficou entre as 20 semifinalistas. Na Cidade do México, em 2007, Natália ficou na segunda colocação.
Nos anos da Polishop, a Band passou a adotar tons mais pragmáticos em relação ao futuro do Miss Brasil e do Miss Universo na sua grade. A classificação de Monalysa entre as 10 semifinalistas do Miss Universo 2017 foi um alento. As classificações de Mayra Dias e Júlia, em 2018 e 2019 eram dadas como certas e acabaram consumadas. As duas ficaram entre as 20 semifinalistas no sistema de repescagem continental. Mona se classificou entre as 16 semifinalistas no grupo das Américas para a fase de trajes de banho. Avançou para a fase de trajes de gala, onde parou no top 10. A festa era toda sul-africana naquela noite de 26 de novembro de 2017. Demi-Leigh Nel-Peters encerrara uma seca de 39 anos sem títulos, agravada pela suspensão da África do Sul do Miss Universo devido ao apartheid. A Band se deixou contaminar pelo olavismo mais sórdido para matar o Miss Brasil de sua grade de eventos. Nem o bolsonarismo explícito de João Appolinário ladeado pelo agora ex-superministro Sérgio Moro e a decisão deste de tentar fazer do Miss Brasil um evento mais planejado, assim como os 27 concursos estaduais, fizeram a emissora da família Saad mudar de ideia. Concurso de miss entrou no índex de assuntos proibidos.
Em 10 de março de 2020, exatos 17 anos depois de Leão Lobo (hoje no SBT) ter anunciado a notícia e dois dias após o Dia Internacional da Mulher, a Band agrediu a mulher brasileira ao romper com a Miss Universe Organization e jogar o Miss Brasil 2020 na dúvida. A franquia brasileira do Miss Universo está disponível no mercado. Em tempos de #MeToo e empoderamento feminino, a Band cometeu um grande retrocesso social.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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