Delatores da Lava Jato confirmam a existência de esquema de propinas para classificar brasileiras no concurso Miss Universo


Esquema foi operado pela Band de 2003 a 2019 e continuou no primeiro ano do governo Bolsonaro

Da redação TV em Análise

Miss Universe Organization/Divulgação/12.09.2011
Aos olhos da Odebrecht, Priscila Machado era “carne fraca” para Angola


Um amplo esquema de propinas foi operado pela Rede Bandeirantes e empresas parceiras para comprar votos de candidatas brasileiras ao título de Miss Universo entre os anos de 2003 e 2019, com a intenção de classificá-las entre as semifinalistas e até mesmo as finalistas. A revelação foi feita com exclusividade ao TV em Análise Críticas por integrantes da Força-Tarefa da Operação Lava Jato, sediada em Curitiba, que já obteve depoimentos de 35 testemunhas ligadas a empresas patrocinadoras do Miss Brasil, concurso que elege a candidata do país à disputa internacional, que a Band promoveu de 2003 a 2019. Os relatos incluem também pagamentos de propinas a jurados do concurso de Miss Universo, que se arrastavam desde a época em que Donald Trump, 73, atual presidente dos Estados Unidos, era coproprietário do evento,
De acordo com um dos delatores, foram pagos R$ 35 mil de propinas a cada jurado da 60ª edição do concurso de Miss Universo, realizada no dia 12 de setembro de 2011, em uma casa de espetáculos de São Paulo. A Odebrecht teria pago R$ 67 mil à Miss Universe Organization para que a candidata de Angola, Leila Luiliana Lopes, fosse eleita ao invés da anfitriã, a gaúcha Priscila Machado. Segundo o delator, Priscila era “carne fraca” para levar o título, “pois não interessava para vender a imagem da Odebrecht e de nossos parceiros, que incluem anunciantes da Rede Globo e políticos petistas”. A então presidenta da República, Dilma Rousseff, nada teria feito para que atividades do Miss Universo 2011 acontecessem também em Brasília, atendendo pedidos da Globo.
Leila Lopes acabou eleita Miss Universo 2011 em troca da promoção da imagem de Angola, país africano que recebeu muitas obras da empreiteira baiana. Parte das obras da Odebrecht em Angola foi financiada com recursos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Priscila Machado acabou em terceiro lugar.
O esquema de corrupção brasileira no Miss Universo continuou no governo de Michel Temer (MDB) e no primeiro ano de Jair Bolsonaro (ex-PSL), amparado pela empresa de televendas Polishop. A companhia pagou R$ 73 mil de propinas a jurados do Miss Universo entre dezembro de 2016 e dezembro de 2019. Só a Ambev pagou R$ 624 mil em propinas a jurados do Miss Universo em 2006 e 2007, para classificar Rafaela Zanella e Natália Guimarães. No caso da mineira, a ação foi mais agressiva: envolveu jurados da final televisionada como o músico Dave Navarro e a Miss Universo de 1993, Dayanara Torres. Os advogados de ambos desconhecem os pagamentos de tais propinas.
Para operar a franquia do Miss Universo no Brasil, a Band contou com três empresas: a Gaeta Promoções e Eventos, que já detinha a franquia desde 1999, a Enter, constituída pela própria Band em 20 de dezembro de 2010 e fechada em 16 de janeiro de 2016 e a Polishop, que ficou com os ativos do Miss Brasil de 2016 a 2019. Elas serviram como dutos para escoar a propina dos patrocinadores do Projeto Miss, de coordenadores estaduais, membros da ABAP (Associação Brasileira de Agências de Publicidade) e da ABA (Associação Brasileira de Anunciantes). A troca de comando na Miss Universe Organization, em 14 de setembro de 2015, diminuiu o poder de fogo da Band na operação dos esquemas de corrupção para classificar brasileiras no Miss Universo. Desde então, a IMG Models tem adotado políticas severas de combate a corrupção no certame.
Outro lado Procurada pela reportagem do Críticas, a Band informou que encerrou seu contrato com a Miss Universe Organization e não representa mais os interesses do Miss Universo no Brasil. A emissora esclareceu que está disposta a colaborar com as autoridades na investigação dos delitos do período em que transmitiu o Miss Brasil e representou os interesses do Miss Universo. A Odebrecht informou que também está colaborando com as autoridades e esclareceu que a citação no caso do concurso de Miss Universo 2011 “é fantasiosa”. O Partido dos Trabalhadores informou que o envolvimento de seus membros nas denúncias de corrupção que classificaram brasileiras na disputa do título de Miss Universo nos anos citados na matéria “resulta de denúncias fabricadas com o intuito de dar benefícios de progressão de pena a notórios caluniadores”.
A reportagem do Críticas não conseguiu localizar diretores da Gaeta e da Polishop. A Ambev disse estar à disposição das autoridades “para os devidos esclarecimentos relativos aos anos em que foi parceira do Miss Brasil/Miss Universo”. A Hypera (antiga Hypermarcas) disse que repudia o envolvimento do grupo em esquemas de corrupção e se mostrou interessada em “colaborar com os esclarecimentos para a devida elucidação”. A Via Varejo, dona das Casas Bahia, se disse “estupefata” com as acusações e demonstrou “interesse na elucidação dos fatos relativos a malfeitos no Miss Brasil e na classificação de nossas representantes no Miss Universo no período elencado pela matéria”. O Palácio do Planalto informou que não vai comentar sobre o caso.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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