Pela primeira vez em 66 anos, a franquia brasileira do concurso de Miss Universo está oficialmente vaga. Briga de interessados


Após ter revelado Marthas e atrizes, versão específica do Miss Brasil agoniza sem rede de televisão e sem patrocinadores

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Acervo Última Hora/Folhapress/29.06.1954


Quando o Brasil ficou fora do Miss Universo pela primeira vez, em 15 de abril de 1990, a franquia do concurso no país por contrato pertencia ao SBT, que a herdou do espólio da Rede Tupi, após a cassação das emissoras associadas, dez anos antes, pelo governo do general João Figueiredo (1918-1999). Para ensaiar sua candidatura presidencial, Sílvio Santos, que tinha uma vasta equipe de coordenação encabeçada por Marlene Brito, encenou a saída do SBT do ramo de concursos de beleza. Fez do Miss Brasil 1989 o prego no caixão de um projeto que tinha futuro, se os executivos da emissora à época tomassem vergonha e aprendessem com Roberto Medina, que para a Globo promoveu o show histórico de Frank Sinatra no Maracanã e antes de Márcia Gabrielle ser Miss Brasil organizara a primeira edição de um Rock in Rio num terreno vizinho ao Riocentro, como fazer do produto miss uma coisa que atraísse público, mesmo segmentado.
Era óbvio que as misses Brasil daquele período atraíam tanta mídia quanto as predecessoras, que vinham na esteira de um cometa baiano chamado Martha Rocha. Em 1954, a soteropolitana escreveu com as famosas duas polegadas excedentes o início da história brasileira no Miss Universo. Miriam Stevenson, norte-americana que pegou a coroa, virou letra cifrada de marchinha de carnaval. O primeiro Miss Brasil foi promovido pelo jornal Folha da Manhã, que em 1960 se juntaria a outras duas publicações para formar a Folha de S. Paulo. Foi a nova FSP quem estampou na primeira página as vitórias brasileiras de Ieda Vargas, em 1963, e Martha Vasconcellos, em 1968. Em 2007, o vice de Natália Guiimarães foi reduzido a uma crônica de José Simão. A juiz-forana ganhou matéria de edição de domingo, para não falar de outras tantas, inclusive no Fantástico.
O Miss Brasil de Natália em nada lembrava aqueles anos áureos na Tupi, no SBT e nas páginas impressas das revistas O Cruzeiro e Manchete, cujo dono, Adolplho Bloch (1908-1995), ganhou um bloco de concessões da Tupi, sediado no Rio de Janeiro. Sílvio ficou com a fatia paulista de concessões da Tupi, que formariam o SBT. Antes mesmo da crise da Tupi se agravar, Sílvio entrou em ação em junho de 1979 para comprar os direitos do Miss Universo. A Tupi já tinha dívidas com a Embratel relativas a transmissões internacionais e cedeu esses direitos aos Estúdios Sílvio Santos, base do futuro SBT. Nessa época, a Rede Globo tentou agir para pegar o concurso pela primeira vez. Acabou contida pela oferta de Sílvio à Miss Universe Inc. e à CBS. Era o início de um namoro que evoluiria para um casamento de duas décadas, encerrado nesse ponto em 1998.
Grazi Massafera, Rayana Carvalho, Rayanne Morais Rejane Vieira e Suzy Rêgo foram algumas das atrizes que o Miss Brasil projetou tanto nas transmissões da Tupi quanto nas do SBT e da Band, entre 1970 e 2019. O concurso deu escadas para algumas delas fazerem carreiras nas emissoras que transmitiam o concurso. Exceção? Ingrid Budag tinha sido figurante numa Supermanoela em preto e branco na Globo. Foi descoberta por olheiros do Miss Brasil na Tupi. Venceu os concursos de miss de Blumenau, sua cidade natal, e de Santa Catarina, antes de conquistar o passaporte para o Miss Universo 1975, no Ginásio Nilson Nelson, em Brasília. Encontrou uma San Salvador sob o rastro de uma guerra civil sangrenta, que incluiria decapitações nos anos que se seguiram. A América Central continental só voltaria a receber uma edição do Miss Universo em 1986.
Vera Fischer foi produto de um Miss Brasil que, em 1969, ainda sobrevivia das capas de jornais e revistas e do boca a boca. A primeira blumenauense a vencer o Miss Brasil teve carreata em sua homenagem. As misses Brasil de duas gerações posteriores tiveram essa honraria, mas não foi o que se viu com a florianopolitana Carina Beduschi, em 2005, nem com Isabel Beduschi, em 1988, na primeira tentativa de eutanásia midiática do Miss Brasil. Naquela época, a imagem de Santa Catarina estava manchada pela Farra do Boi, cujas imagens revoltaram ambientalistas e mancharam a imagem do país em Taipé. Nem Isabel, tampouco Carina Beduschi se classificaram em suas edições do Miss Universo.
Superfêmea de pornochanchada, Jocasta, Helena, Vera Fischer foi consequência de uma televisão brasileira que cresceu nas micro-ondas da Embratel. Em nada lembrava a Miss Brasil exceto na imaginação de certos missólogos. Tentaram fazer o mesmo com Luma de Oliveira, Magda Cotrofe e outras menos votadas, mas o homo sacer não deixava.
O Miss Brasil que Júlia Horta tenta entregar para a sua sucessora simplesmente não existe. A franquia brasileira do Miss Universo está vaga pela primeira vez desde 1954. E isso a Endeavor Group finge que nada está acontecendo. Trata-se de um acinte. O que ocorreu em 1990 foi um lapso de incompetência que não pôde ser consertado. A roda de coordenadores girou durante toda a década de 1990. Televisão? Só em 2002. Com a crise do coronavírus, a tendência é essa novela se arrastar para o país levar a pior.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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