Com a Band fora, as cobranças para a realização do Miss Brasil 2020 (e por uma nova emissora para transmití-lo) irão aumentar


Não podemos repetir os erros de 1990

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Montagem sobre foto Mister Shadow


A decisão da Rede Bandeirantes de devolver a representação do Miss Universo no Brasil à Endeavor Group abriu forte caminho para uma série de cobranças que devem ser feitas a partir de agora. Cobranças que devem começar das coordenações municipais e estaduais, que estão gastando tempo e dinheiro para organizar seus concursos. Muitas delas, do próprio bolso, a ponto de candidatas organizarem vaquinhas virtuais para participarem das disputas, a ponto de sacrificarem as economias de suas famílias.
Em todo o país, estão ativas 21 coordenações estaduais (de um total de 27) e 356 coordenações municipais ou regionais, de acordo com dados da Miss Universe Organization, controlada da Endeavor. Estão sem coordenações para o Miss Brasil válido pelo Miss Universo os Estados do Ceará, Minas Gerais, Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e São Paulo. É essa conta que a MUO terá de passar ao novo franqueado do Miss Universo no país e à emissora de televisão que assumir sua transmissão.
Júlia Horta foi eleita Miss Brasil 2019 há 373 dias. Flávia Cavalcante foi Miss Brasil 1989 por 756 dias. Teve reinado de 1º de abril de 1989 a 27 de abril de 1991, graças ao cancelamento do Miss Brasil 1990, devido à submissão da emissora responsável de então à agenda ditada pelo monopólio da Rede Globo, a mesma emissora que quer assumir agora os direitos do Miss Brasil, do Miss Universo e dos concursos estaduais. Júlia está com a faixa e a coroa de Miss Brasil desde 9 de março de 2019. Ela própria não quer que se repita a lambança que fez Flávia Miss Brasil 1989 por tanto tempo. Reinado de Miss Brasil tem prazo de validade e com a ingenuidade das pessoas não se deve brincar.
O Miss Brasil começou em 1954 como uma reunião de intelectuais, patrocinada pela Empresa Folha da Manhã, em Petrópolis (região serrana do Rio de Janeiro). Com o impacto do segundo lugar da baiana Martha Rocha no Miss Universo daquele ano, os Diários Associados pegaram a promoção do concurso em 1955. À medida que o alcance da televisão ia aumentando, o Miss Brasil e o Miss Universo iam ganhando espaços nobres na TV Tupi do Rio de Janeiro, antes mesmo da rede nacional ser criada, em 1972. Concursos de outros Estados e do Distrito Federal passaram a ter a chancela associada. Tinham nos veículos do grupo o tíner de sua exposição midiática. Fora dele, apenas a Manchete dava destaque entre as revistas impressas. Na Realidade, da Abril, só pauladas e pedradas.
Quando Martha Vasconcellos nos deu nosso último título de Miss Universo, há 51 anos, oito meses e dois dias, a baiana nos deu uma mostra do tíner que ainda viria, mesmo anos após terminado seu reinado. No coma, a revista O Cruzeiro deu-lhe capa do nascimento de seu primeiro filho, em 1973. O Cruzeiro de tantas edições do Miss Brasil cerraria as rotativas em 1974, abrindo terreno para que a Rede Tupi assumisse papel definitivo na promoção do Miss Brasil, na transmissão do Miss Universo e dos concursos estaduais. Herança essa que foi incluída na partilha de suas concessões, em 18 de julho de 1980. Na licitação do Ministério das Comunicações, Adoplho Bloch (1908-1995) não queria que a TV Manchete replicasse o Miss Brasil já coberto pela revista Manchete. Passou a tarefa para Sílvio Santos, que levou o bloco de emissoras da TV Tupi de São Pualo. Bloch derrotou os empresários Roberto Medina, da Artplan, que trouxera Frank Sinatra (1915-1998) a um Maracanã lotado, e Manuel Francisco do Nascimento Brito (1922-2003), do Jornal do Brasil, na disputa do bloco liderado pela Tupi do Rio.
Flávia foi a última Miss Brasil do período do SBT, rede que Sílvio formara a partir dos despojos também das TVs Marajoara e Piratini, mas as TVS do Rio de Janeiro e Nova Friburgo, que já operavam. Em 27 de junho de 1981, uma co transmissão da TVS do Rio com a TV Record de São Paulo dava início a uma nova era do Miss Brasil. O SBT só assumiria a posse plena do concurso a partir de 1982, menos de um ano depois de ter entrado no ar, com a assinatura de sias concessões, em Brasília.
Júlia Horta não quer que se repita com ela o estigma que assombrou o reinado de Flávia Cavalcante, mantida como Miss Brasil sem uma única função durante todo o ano de 1990. Só voltou à cena para coroar a paulista Patrícia Godói como sua sucessora. Espera-se que não se preguem em Júlia as mesmas maldições que assombraram a baiana Flávia. Maldições essas que começaram no Bolo de Noiva da transição de Collor e se consumaram com o confisco das cadernetas de poupança e dos sonhos de nossas misses até 2002.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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