As diferenças entre o esquema midiático que impediu o Brasil de ter candidata no Miss Universo 1990 e o olavismo de agora


Entre matrioskas e Natálias

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

George Rose/Getty Images/16.04.1990


Após o ciclo do Miss Universo 1989, o empresário Sílvio Santos decidiu tirar um tempo da apresentação do Miss Brasil. Achava que só isso faria que o SBT parasse de apresentar o concurso. Estava enganado. Havia contrato pendente com a Miss Universe Inc. (atual Miss Universe Organization), recentemente renovado com a CBS. Depois do concurso de Miss Brasil ter ido ao ar no dia 1º de abril de 1989, a área comercial do SBT se desesperou para achar patrocinadores para transmitir a 38º edição do concurso de Miss Universo, que seria realizada no dia 26 de maio, em um hotel de Cancún (costa leste do México). Tudo em vão.
Àquela altura, a bancada feminina do PT na Câmara dos Deputados e movimentos feministas e de direitos humanos tinham agido junto à ABAP (Associação Brasileira de Agências de Propaganda) e ABA (Associação Brasileira de Anunciantes) para, em conluio com a Rede Globo, tirarem os concursos de misses da televisão aberta brasileira. O Brasil que já padecia 21 anos sem vencer título de Miss Universo estava sob reserva de mercado para equipamentos de informática. Estávamos no pior atraso tecnológico. Atraso esse que só viria a ser atenuado para a Eco 92, realizada no mesmo Riocentro em que Mayra Duas venceria o Miss Brasil em 2018. Tratava-se de um teste para sediar eventos de ponta como Copa do Mundo, Olimpíada e até mesmo o concurso de Miss Universo.
Também na esteira da turma petista estava a sanha financeira da TV Manchete, interessada direta em deixar o SBT sem os concursos de misses. Embora fosse entusiasta direto do Miss Brasil e do Miss Universo, o empresário Adolpho Bloch (1908-1995) jamais deixou transpor para a televisão aquilo que a revista já publicava. As fotos das misses nos mais variados desfiles, de trajes típicos, trajes de banho e trajes de gala, não poderiam ser traduzidas em imagens em movimento de transmissões ao vivo. Bloch achava melhor que os direitos do Miss Brasil e do Miss Universo ficassem com o grupo de Sílvio Santos na época da inventariança das emissoras da Rede Tupi, em 1981. Depois do anúncio dos vencedores para explorar os canais da antiga emissora Associada, Bloch avisou a Sílvio que a Manchete não ficaria com as transmissões do Miss Brasil, do Miss Universo e do Miss Mundo. Esse era o filé com fritas dos concursos de beleza. A conta também incluía os concursos estaduais, que eram dos Condomínios Associados de alguns Estados.
Quando o SBT sinalizou que queria parar com os concursos de misses a mando da turma petista de Marta Suplicy, ex-funcionária da Globo, a Manchete agiu de leve, para não melindrar o grupo concorrente. Sua revista impressa já cobria o Miss Brasil e o Miss Universo com alguma ênfase. Sabedor do buraco que o SBT fizera, Bloch mandou uma equipe da revista Manchete ir para Cancún fazer a cobertura impressa do certame. Na TV, os telespectadores ficaram a ver navios. A Manchete não esboçou qualquer movimento para tirar o Miss Brasil, o Miss Universo e o Miss Mundo do SBT. Marlene Brito armou os botes para afastar os concursos do SBT e passá-los a outra rede, a Band.
Presente dia Em 1989, quando houve a conjuração fracassada da Manchete para ter os concursos de misses, Olavo de Carvalho era apenas um repórter de economia do Diário Comércio e Indústria – DCI. Jair Messias Bolsonaro era um capitão recentemente expluso do Exército Brasileiro por, em 1988, tentar implodir a adutora da Cedae no rio Guandu, na Baixada Fluminiense (É aquela mesma contaminada por uma alga não tóxica). Os filhos de “seu Jair”, Carlos, Flávio e Eduardo, eram crianças. A milícia do Escritório do Crime não encontrava terreno nos morros cariocas então dominados por duas facções criminosas – o Comando Vermelho e o Terceiro Comando. A Ilha Grande ainda abrigava um presídio para onde iam os criminosos mais perigosos do Rio de Janeiro.
Por muito pouco, os brasileiros não foram privados de saber que a holandesa Angela Visser vencera a disputa de Miss Universo na cidade mexicana. A Europa faria dobradinha em 1990, com a norueguesa Mona Grudt, em Los Angeles. Qual a diferença? De maio de 1989 a fevereiro de 1990, o SBT não investiu em um esquema de promoção de seus concursos de beleza. Já capitulara ao moddess operandi da cambada petista. Faria o Brasil embarcar em um caminho perigoso de não ter candidata no Miss Universo 1990. Ibrahim Eris, Zélia Cardoso de Mello e Antônio Kandir eram detalhes pequenos. Encontraram para Sílvio Santos uma rua sem saída para o Miss Brasil 1990.
Os agravantes viriam a partir de 1991, quando Lupita Jones Garay passou longe das pautas mondo cane do popularesco Aqui Agora. Logo num SBT que já prestigiara os concursos de misses com tamanha efusividade. O Miss Brasil já estava no caminho da Band. O Miss Universo quase chegou por lá. O Miss Mundo enfrentou burocracia para ir ao ar. A Embratel de Morungaba não tinha o sinal do concurso de Atlanta para passá-lo à emissora paulista. A Band teve de correr para comprar o teipe do Miss Mundo 1991 da emissora inglesa ITV, em troca de um pacote de materiais jornalísticos. A eleição da venezuelana Ninibeth Leal foi ao ar às 21h30 do dia 25 de janeiro de 1992.
Comlurb Em tempos de Carluxo e impropérios verbais, a Band denota um certo desconforto em manter o ativo dos concursos de beleza. A ala olavista da direção da emissora tenta renegar uma biografia que começou a ser construída por Flávio Cavalcanti (1923-1986) no Boa Noite Brasil, com concurso com nome de canção de Benito di Paula (Mulher Brasileira em Primeiro Lugar). Com o Miss Universo na grade desde 2003, a Band tem na franquia de concurso de beleza um importante ativo para manter o Miss Brasil na programação para os próximos anos, apesar da diarreia verbal do vereador carioca.
O Miss Brasil da Band abriu portas para a carreira da atriz Grazi Massafera e pavimentou o caminho para Natália Guimarães tentar ser sua diretora, com mais cinco misses. As “águias” da turma de Evandro Hazzy parecem não se intimidar ante os caprichos ideológicos de uma minoria misógina de covardes, vestais das funções de direção. Com a Gaeta, a Band ensaiou um caminho de transição segura para dar administrações mais sérias e profissionais. O Miss Brasil da nova era sobreviveu às intempéries da recessão de 2014. Agora, em pleno bolsonarismo, tenta jogar o seu próprio futuro. A começar das filhas de algumas ex-candidatas estaduais e municipais ao Miss Brasil país afora.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
Esse post foi publicado em Força da Grana, História, Jóia da coroa, Nossas Venezuelas, Projetos especiais, Todas as Venezuelas do mundo e marcado , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

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