Fim da transmissão de TV aberta do Miss Brasil para 2020 deixa consequências na cadeia econômica que fatura com concurso


Cerca de 10 mil empregos deixarão de ser gerados nas áreas de entretenimento, tecelagem, modelos, cosméticos e comunicação

Da redação TV em Análise

Miss Brasil Be Emotion/Divulgação/09.03.2019


A decisão da Rede Bandeirantes de rescindir o contrato que tinha com a Miss Universe Organization para transmitir os concursos de Miss Brasil e Miss Universo foi um duro golpe em pelo menos cinco setores da economia – entretenimento, tecelagem, agenciamento de modelos, indústria de cosméticos e serviços de comunicação. Anualmente, as transmissões dos concursos da família do Miss Brasil e do Miss Universo movimentavam entre R$ 20 e R$ 40 milhões, de acordo com consultores ouvidos pelo TV em Análise Críticas. Grande parte desse faturamento vinha da exposição de marcas nas transmissões fossem de concursos municipais ou estaduais, fosse do Miss Brasil, fosse do Miss Universo. A Band jogou fora boa parte do legado que construiu após realizar a 60ª edição do Miss Universo, em 12 de setembro de 2011.
A exposição de mídia que o Miss Brasil voltou a ter em 2002, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), começou a movimentar uma indústria que era incipiente. Profissionais de maquiagem e penteado foram sendo formados com o passar dos anos. A indústria da tecelagem ganhou um novo impulso a ponto de se fabricarem biquínis até para o Miss USA. Pequenas indústrias de fundo de quintal ganharam notoriedade internacional. Mas as feridas causadas pelas 62 fases da Operação Lava Jato, deflagrada em março de 2014 para investigar esquemas de corrupção na Petrobras, causaram nódulos irreversíveis na relação da Band com a direção do Miss Universo. A emissora em nada capitalizou com as grandes classificações obtidas em 2007 e 2011 a 2013. Em meio ao escândalo, a emissora vendeu a propriedade do Miss Brasil à Polishop. Assinou com João Appolinário a pena de morte para o concurso.
Em televisão, o Miss Brasil só começou a ganhar vida depois que saiu de Petrópolis, na região serrana do Rio, e foi para a capital fluminense, em 1958. Passou a ter exibição na Tupi a partir de 1960, à medida que o Maracanãzinho se empanturrava de gente para assistir aos desfiles de garbo patrocinados por grandes marcas da época. O império dos Diários Associados apostou até à última moeda para fazer o Miss Brasil importante, mas o crescimento da Rede Globo, na década de 1970, foi fatal para o concurso e sua emissora. No saldo de liquidação da Tupi, Sílvio Santos, 88, animador que já saíra da Globo, ganhou mais três concessões de televisão para se somar às que tinha no Rio de Janeiro e Nova Friburgo. Com o SBT, formou as bases para um Miss Brasil mais forte em tempos de uma televisão via satélite da qual a famíglia Marinho tinha o monopólio.
Com o SBT, o Miss Brasil e o Miss Universo ganharam alcance 100% nacional. Em 1986, os concursos já apareciam nas parabólicas. Com os concursos estaduais, no entanto, havia um tratamento diferenciado: enquanto os concursos de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul eram quadros de programa de auditório, os demais certames ficavam à própria sorte, sofrendo com limitações tecnológicas. Tal agravante veio a público em 1990, logo após o Plano Collor I. O SBT mandou a equipe do Miss Brasil embora e Marlene Brito pegou o dinheiro da rescisão para montar uma empresa de organização de concursos de beleza. Instalava-se ali um verdadeiro ninho de cobras.
Marlene tampou o buraco que o Brasil teve no Miss Universo em 1990 para preparar o ciclo de 1991. Se envolveu em trativas com a MUO para tomar a franquia inoperante do SBT, que a colocou para fora. Ofereceu o Miss Brasil à Band, mas Luciano do Valle (1947-2014) se opôs à colocação de mais um concurso para a emissora, fora o Miss Mundo Brasil de 1991. Ter o Miss Brasil e o Miss Universo 1992 na emissora do Morumbi era questão de honra para Marlene. O máximo que conseguiu foram matérias dos concursos no programa de Amaury Jr., sem nenhum destaque ou repercussão.
Em 1994, o comando do Miss Brasil voltou ao Rio de Janeiro, assim como a direção nacional do Miss Universo. Saiu do estágio moribundo em março de 2001, após a publicação de matérias sobre as 17 plásticas da candidata gaúcha ao Miss Brasil daquele ano. Juliana Borges. A pancada para cima de Juliana fez seu então coordenador, Boanerges Gaeta Jr., acionar uma célula de crise para mudar a imagem do concurso, manchada pelo episódio. Contratou Nayla Micherif, Miss Brasil de 1997, para exercer funções administrativas na organização do Miss Brasil. A passagem da Rede TV! para a Band após o episódio Joseane Oliveira, em março de 2003, abriu um novo capítulo. Fez a mídia que se alimentava de realities ter nos concursos de misses seu estio.
As transmissões do Miss Brasil e do Miss Universo tiveram seu apogeu comercial nos governos petistas de Lula e Dilma Rousseff. Só no Miss Universo 2011, a Band faturou R$ 51 milhões com a venda de cotas de patrocínio. O festão dos 50 anos do concurso nacional, em 2004, estimulou a área comercial da Band a planejar os concursos de misses da mesma forma que se planeja um pacote de futebol ou uma olimpíada. Os efeitos da Lava Jato, admitidos pelo presidente do Grupo Bandeirantes, Johnny Saad, 67, fizeram a emissora recorrer à besteira de arrendar o Miss Brasil com a condição de a Polishop não vendê-lo a nenhuma outra emissora, inclusive a Globo, sonho de missólogos. Para 2020, o Miss Universo procura interessados na concessão brasileira, que custa R$ 10 milhões para um contrato de cinco anos. Quer Júlia Horta vença ou não, sua sucessão terá um preço.
A cadeia de concursos do Miss Brasil e do Miss Universo proporcionava a geração de 10 mil empregos indiretos, entre informais e os com carteira assinada. Movimentava desde o cabeleireiro da divisa entre Minas Gerais e Bahia ao preparador de modelos da zona sul paulistana. Os patrocínios que a Band vendia expunha as marcas das empresas que anunciavam nos certames, fosse em rede nacional, fosse em nível local. A decisão da Band de parar os concursos de misses em pleno período de recuperação econômica soa como um tiro no pé, um atentado às biografias de Martha Rocha, Ieda Vargas, Martha Vasconcellos e Natália Guimarães. Trata-se de uma decisão mais política que artística.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
Esse post foi publicado em Força da Grana, Jóia da coroa, Nossas Venezuelas, Poderes ocultos, Podres poderes, Projetos especiais, Todas as Venezuelas do mundo e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

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