Coordenadores devem se acostumar à vida do Miss Brasil fora da Band e da aura sacra fames da Polishop já a partir de 2020


Emissora encerrou parceria de 16 anos com a Miss Universe Orgamization

Da redação TV em Análise

Instagram/Júlia Horta/23.03.2019


A partir de agora, as mais de 300 coordenações municipais e as 27 coordenações estaduais do Miss Brasil terão de conviver com um drama para a viabilização do concurso de 2020, com a saída oficializada da Rede Bandeirantes do quadro de coordenações nacionais e de emissoras parceiras do concurso de Miss Universo. Nesta quinta-feira, a emissora rompeu o contrato de organização do concurso de Miss Brasil, dos concursos estaduais e dos concursos municipais, que estava vigente até 2020. A emissora alegou que parte de uma dívida de R$ 1,2 bilhão com bancos, fornecedores e distribuidoras de conteúdo foi decisiva para o fim do concurso na casa.
Com a retirada do apoio da Band para a transmissão dos concursos estaduais e da cobertura dos concursos municipais, as coordenações tem recorrido às redes sociais para salvar os certames, mas nem esse empuxe é suficiente: a ausência de apoio da mídia prejudica por completo o andamento do processo de preparação da sucessora da mineira Júlia Horta, 25, e de suas 26 concorrentes no Miss Brasil 2019 nos Estados e no Distrito Federal. Apenas Santa Catarina e Sergipe, que já marcaram concursos, estão adiantados para um Miss Brasil 2020 que ainda está no buraco no campo televisivo. Estima-se que os direitos de transmissão valham entre R$ 7 milhões e R$ 8 milhões, fora as obrigações com a Miss Universe Organization. Para mandar as candidatas brasileiras ao Miss Universo desde 2003, a Band pagava entre US$ 100 mil e US$ 150 mil de taxa de franquia, fora o valor que era pago pela transmissão anual do Miss Universo, que vinha decrescendo com a crise econômica de 2014 e a entrada da Polishop para destruir o sonho de miss do Grupo Bandeirantes de Comunicação. Até hoje, a Band ainda acumula dívidas resultantes da organização e transmissão da 60ª edição do Miss Universo, em setembro de 2011.
O presidente do Grupo Bandeirantes, João Carlos Saad, o Johnny, 67, ao contrário de Sílvio Santos, 88, nunca foi um grande entusiasta de concursos de beleza, nem mesmo no tempo em que seu pai, João Jorge Saad (1919-1999), era vivo. Depois que “seu João” mandou embora o apresentador Flávio Cavalcanti (1923-1986), a Band só se arriscou no campo das misses entre 1991 e 1992, com os eventos da família do Miss Mundo, da ex-produtora do Miss Brasil no SBT, Marlene Brito. A oposição de Luciano do Valle (1937-2014), então diretor de esportes e programação, aos concursos de misses foi decisiva para que a Band não transmitisse nem o Miss Brasil, tampouco o Miss Universo 1992. As tevês brasileiras já tinham perdido o Miss Universo entre 1989 e 1991.
No início dos anos 2000, a febre dos realities de confinamento e o caso das plásticas da Miss Brasil 2001, Juliana Borges, reacenderam o interesse das emissoras pelos produtos Miss Brasil e Miss Universo. Entre 2002 e 2019, o Miss Brasil teve 17 edições televisionadas (uma pela Rede TV!  e o resto pela Band) e o Miss Universo, 15, entre 2003 e 2018. A de 2019 será a última do contrato da Band com a Endeavor, que agora corre contra o tempo para achar outra emissora para exibir o Miss Universo a partir de 2020 e manter a representação brasileira no concurso, com um novo franqueado.
Desde que começou a participar do Miss Universo, em 1954, o Brasil só ficou fora do concurso em 1990, em função da crise causada pelo Plano Collor I e pela candidatura fracassada de Sílvio à Presidência da República pelo minúsculo PMB (Partido Municipalista Brasileiro). Esses eventos prejudicaram o planejamento dos estaduais do Miss Brasil 1990, à época carente dos recursos de comunicação hoje existentes. Coordenadores estaduais e a direção do SBT não falavam mais a mesma língua, enquanto nos estertores a Rede Globo agia para tirar o Miss Universo da vida dos brasileiros. A tevê da famíglia Marinho operava uma lavagem cerebral, até hoje corroborada por missólogos. Em 1990, a 39ª edição do Miss Universo ocorreu em Los Angeles, no dia 15 de abril.
A Endeavor Group, controladora da Miss Universe Organization desde 14 de setembro de 2015, é uma das credoras da Band. A emissora tem com a dona do Miss Universo uma dívida estimada em US$ 12,5 milhões (R$ 46,8 milhões) relativas a obrigações de coordenações estaduais e municipais desde que assumiu a concessão do concurso para o país, em 30 de setembro de 2011. Essas coordenações deviam à Enter, empresa de eventos do Grupo Bandeirantes, formada para promover o Miss Brasil. Em relação aos direitos de transmissão do Miss Universo, a Band diz ter quitado todos os valores pagos à MUO com os recursos vindos das vendas de patrocínios entre 2004 e 2018.
Entre as coordenações estaduais que eram ligadas à Polishop para promover o Miss Brasil nos Estados e municípios, o clima é de apreensão. Com a saída da Band, Amazonas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Minas Gerais, Piauí, Rio Grande do Sul e São Paulo ficaram sem coordenação para os estaduais do Miss Brasil 2020. Juntas, elas somam 41 dos 65 títulos de Miss Brasil conquistados entre 1954 e 2019 (63,07% do total). Outras 19 coordenações estão nas mãos de franqueados, que agora terão de ir atrás de seus direitos para assegurarem a presença brasileira no Miss Universo 2020, seja a que preço for. Entre 2016 e 2019, a Polishop gastou R$ 35 milhões com a estrutura do Miss Brasil e jogou para a Band a conta do envio das candidatas brasileiras ao Miss Universo. Agora, Globo, Record e SBT estão de olho no filão que corre o risco de ficar órfão na virada de década. Da parte da Globo, a pauta para o Miss Brasil será uma ampla revitalização, ao lado da IMG Models e da Endeavor, que pretendem colocar o concurso nos moldes do Miss USA, com calendário definido com bastante antecedência de concursos estaduais. Esse é o segredo que faz dos Estados Unidos o país com o maior número de títulos de Miss Universo – oito. Potências como Venezuela (sete) e Porto Rico (cinco) estão logo atrás. O dinheiro que vai deixar de ser investido pela Band e pela Polishop vai fazer falta às coordenações estaduais. Deve também afetar cerca de 10 mil empregos indiretos que os concursos de beleza geram no país, da fabricante de biquínis ao preparador de passarela. Com a Globo no mercado, se valendo da estrutura profissional que já trabalha para festivais de rock, o Miss Brasil poderá ter novo ânimo de mídia. Com a Record, o concurso corre o risco de virar penduricalho da Igreja Universal. Caso o SBT assuma as operações do Miss Brasil, corre-se o risco de colocá-lo nas cinzas do Museu Histórico Nacional.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
Esse post foi publicado em Força da Grana, Jóia da coroa, Nossas Venezuelas, Projetos especiais, Todas as Venezuelas do mundo e marcado , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

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