O mesmo Riocentro em que Mayra Dias venceria o Miss Brasil 2018 quase foi palco de uma chacina da MPB em abril de 1981


Tentativa de assassinato de Ivan Lins, Beth Carvalho e outros por militares ocorreu oito anos e cinco meses antes da representante brasileira no MU 2018 nascer em Itacoatiara

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Fotos Miss Brasil/Divulgação/27.05.2018 e Montagem/Sul21


37 anos antes da amazonense Mayra Benita Dias, então com 26 anos, vencer o concurso Miss Brasil 2018, o Riocentro, centro de convenções localizado na zona oeste do Rio de Janeiro, por muito pouco não foi palco de um assassinato em massa de grandes nomes da Música Popular Brasileira. No dia 30 de abril de 1981, a mesma Rede Bandeirantes que transmitiria de lá a etapa brasileira do Miss Universo 2018 transmitira na chincha dos militares o Show do Dia do Trabalhador, roteirizado e dirigido por Chico Buarque. Nas barbas da Censura, chamou Gonzaguinha, Luiz Gonzaga, Cauby Peixoto, João Nogueira, João do Vale, Clara Nunes, Miúcha, Roberto Ribeiro, Dona Ivone Lara e Beth Carvalho. Todos esses nomes foram morrendo com o passar dos anos, mas poderiam ter sido assassinados caso a bomba que estava em um carro Puma GTE de cor cinza e placas OT-0297/RJ explodisse outras, na casa de máquinas e embaixo do palco.
A falha das duas outras bombas fez sobrar a primeira para os ocupantes do Puma, matando o sargento do Exército Guilherme Pereira do Rosário e amputando uma perna do capitão do Exército Wilson Dias Machado. O intento de ambos era provocar uma chacina cultural, a ponto de provocar uma catarse fracassada de comoção nacional infinitamente maior que as mortes recentes dos cantores sertanejos Cristiano Araújo e Gabriel Diniz, vítimas de acidentes rodoviário e aéreo, respectivamente.
O evento foi organizado pelo Cebrade (Centro Brasileiro de Ação Democrática) do Partido Comunista Brasileiro (PCB), presidido pelo arquiteto Oscar Niemeyer, responsável pelo projeto arquitetônico da Brasília que sediaria o Miss Brasil válido pelo concurso Miss Universo entre 1973 e 1980. De acordo com a jornalista Cynara Menezes, o Exército jamais assumiu a culpa pelo atentado e “associou-se à imprensa para tentar jogar a responsabilidade da bomba no colo de organizações de esquerda que nem existiam mais àquela altura”. A desculpa oficialista não colou. Em depoimento ao canal de notícias GloboNews, ligado à Rede Globo, em 2011, quando o crime hediondo cultural fracassado completara 30 anos, Beth, madrinha do samba, morta no dia 30 de abril de 2019, aos 72 anos, eternizou: “A ditadura fez isso, ia matar todos nós, artistas, a maioria da música popular brasileira estava lá e mais de 20 mil pessoas assistindo a gente”.
Além de Beth e dos nomes citados na abertura da matéria, também estavam naquele show Ivan Lins, Alceu Valença, A Cor do Som, Ângela Rõ Rô, As Frenéticas, Céu da Boca, Cristina, Francis Hime, Ney Matogrosso, Novelli, Joanna, Paulinho da Viola, Gal Costa, MPB-4, Moraes Moreira, João Bosco, Simone, Zizi Possi, Elba Ramalho, o próprio Chico e até mesmo um bolsonarista, Fagner, que apoiara na época a luta pela redemocratização. Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade desnudou a farsa montada pelo Inquérito Policial Militar (IPM) do I Exército, irritando a ala militar contrária à então presidenta Dilma Rousseff e simpática a Jair Bolsonaro e seus milicianos associados de extrema-direita, portadores de camisa da Seleção e difusores de notícias falsas nas mídias sociais.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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