Mesmo com Trump no controle do concurso, Globo continuou pagando CBS para impedir brasileiros de ver o Miss Universo


Pagamentos foram feitos em espécie e cheques em paraísos fiscais entre 1996 e 2002

Da redação TV em Análise

Fotos Getty Images e Rede Globo/Divulgação


Em outubro de 1996, o então empresário Donald Trump, 72, comprara da Paramount o controle das operações da Miss Universe Inc. e formou com a CBS uma joint-venture para administrar os concursos de Miss Universo, Miss USA e Miss Teen USA. À época, Trump pagara US$ 13 milhões para comprar 50% da propriedade dos três concursos. No Brasil, a Rede Globo impunha uma espécie de lei da mordaça a todos os órgãos de imprensa e emissoras de rádio e concorrentes de televisão para proibir que as imagens do Miss Universo chegassem aos lares brasileiros. De acordo com investigação do TV em Análise Críticas, a emissora da famíglia Marinho já tinha adiantado US$ 15 milhões à velha Miss Universe Inc. e à terceira maior rede de televisão americana àquela altura para banir a 45ª edição do Miss Universo da mídia brasileira. Só que o tiro saiu pela culatra: a revista Istoé já tinha publicado uma nota sobre o certame, realizado em Las Vegas no dia 17 de maio, com uma foto da vencedora, a venezuelana Alicia Machado. A Veja tinha feito a mesma coisa, como já tinha feito em 1994, na eleição da indiana Sushmita Sen.
A Globo fez os pagamentos à Miss Universe Inc. por meio de empresas de fachada que abriu nas Ilhas Virgens Britânicas para pagar propinas à FIFA e à CBF por direitos de campeonatos de futebol e amistosos da Seleção Brasileira, entre elas a Empire. A emissora fez pagamentos em espécie e cheques administrativos antes de Trump assumir o Miss Universo. Continuou essa prática e a intensificou a partir de 1998, quando passou a deter o monopólio do futebol brasileiro, do verbo e da verba. Para o Grupo Globo, concurso de miss passou a ser assunto proibido nas mídias sob seu controle. E Donald Trump era apenas um investidor americano que salvara o Miss Universo da bancarrota.
Em outubro de 1997, Trump formou a Miss Universe Organization para suceder a Miss Universe Inc. na organização do Miss Universo, Miss USA e Miss Teen USA. A Globo e o resto da mídia brasileira ignoraram o negócio, bem como todos os passos da transação. Em 1998, a Globo fez uma oferta de US$ 16 milhões para impedir o SBT de exibir o VT da 47ª edição do Miss Universo, no dia 16 de junho, mais de um mês após a sua realização, em Honolulu, no dia 12 de maio. Os pagamentos da Globo à MUO continuaram entre 1999 e 2002. Em 9 de fevereiro de 2003, o Fantástico exibiu trechos do Miss Universo 2002 com o crédito de arquivo pessoal, mas esqueceu de dar o crédito à Miss Universe Organization e à CBS. A intenção era mostrar a participação da ex-participante do Big Brother Brasil 3, a Miss Brasil 2002 Joseane Oliveira, seis dias após sua destituição ter sido noticiada no Jornal Nacional, e informar aos brasileiros que a russa Oxana Fedorova também tinha perdido o título de Miss Universo 2002. Jose perdera o título de Miss Brasil 2002 por omitir seu estado civil como casada. Oxana fugiu de suas obrigações junto à Miss Universe Organization, o que facilitou a coroação da panamenha Justine Pasek, em uma coletiva, realizada em 31 de agosto de 2002.
A Globo vinha pagando para impedir a exibição do Miss Universo no Brasil desde 1989 e em 1990 conseguiu barrar a realização do concurso de Miss Brasil e sabotar a realização de concursos estaduais. Aproveitou-se das fragilidades da relação do SBT com a Miss Universe Inc. para praticar as mais sórdidas práticas contra os concursos de beleza. Quando a Band acertou com Marlene Brito transmissões do Miss Mundo, a Globo baixou um pouco a guarda, mas não a tirou em relação ao Miss Universo. Nem mesmo em 1992, quando a namíbia Michelle McLean, quinta colocada no Miss Mundo 1991, em Atlanta, mostrado pela Band, vencera a 41ª edição do Miss Universo, realizada em Bangcoc. Quando a Band assumiu os direitos do Miss Universo, em 15 de março de 2003, a Globo encerrou o pagamento das propinas à Miss Universe Organization e liberou o pedágio de mídia para as futuras coberturas do Miss Universo na mídia brasileira. Àquela altura, a parceria de Trump com a CBS já tinha se encerrado: em 30 de junho de 2002, a MUO anunciou um amplo acordo de transmissão do Miss Universo com a NBC, que durou enquanto Trump controlou o concurso. Menos de dois meses após a sua venda para a IMG, em 14 de setembro de 2015, com Trump já em campanha de pré-candidato do Partido Republicano à Presidência dos Estados Unidos, o Miss Universo e o Miss USA passaram para a FOX. O Miss Teen USA já não vinha sendo televisionado desde 2008.
Procurada pela reportagem do Críticas, a Central Globo de Comunicação negou que a Rede Globo tenha pago qualquer tipo de propina à Miss Universe Organization e enfatizou que a Globo jamais teve qualquer tipo de relação comercial com o concurso de Miss Universo. A CGCom disse que a Rede Globo sempre procurou dar destaque jornalístico ao Miss Universo quando os fatos julgaram necessários, como ocorreu no caso de Joseane no Miss Universo 2002. Em 2007, a emissora fez uma entrevista com a segunda colocada do Miss Universo daquele ano, a mineira Natália Guimarães, para o Fantástico, sem envolvimento direto da Central Globo de Jornalismo. Em janeiro de 2016, no mesmo programa, a CGJ teve participação na entrevista com a segunda colocada do Miss Universo 2015, a colombiana Ariadna Gutiérrez, feita pelo repórter Álvaro Pereira Júnior em Miami, a convite de seus empresários. De acordo com a CGCom, no período elencado pelo Críticas dos ilícitos atribuídos à emissora, a Rede Globo sempre procurou produzir matérias sobre o mundo miss para os diferentes produtos do jornalismo e do entretenimento, sempre de acordo com as suas necessidades. A Globo finaliza a nota enfatizando que não compactua com a censura de mercado e com práticas de corrupção e defende a liberdade de expressão artística, prevista no Artigo 5º da Constituição de 1988, e a ética nas relações de mercado, o que não se verifica na atual direção do Miss Universo no Brasil, sob responsabilidade da Polishop e do Grupo Bandeirantes de Comunicação.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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