Ditadura de Pinochet fez Chile ser potência no Miss Universo


Durante os anos da repressão, país teve seis classificações no concurso

Da redação TV em Análise

Fotos Movimento Pinochet Siempre Eterno e AFP/Getty Images


Há exatos 45 anos, um golpe de Estado arquitetado pelos Estados Unidos derrubou o presidente do Chile Salvador Allende, assassinado aos 65 anos a mando da junta militar da qual fazia parte o general Augusto Pinochet (1915-2006). O braço de ferro que Pinochet impunha a seus opositores, ordenando execuções em massa no Estádio Nacional de Santiago foi o mesmo que com os “Chicago Boys” moldou a ascensão meteórica do Chile no concurso de Miss Universo. Na medida em que se agravava a repressão aos movimentos sociais e a perseguição a líderes políticos, o Chile passou a experimentar uma ascensão sem precedentes na história do concurso.
Após a posse oficial de Pinochet na presidência do Chile,  em 17 de dezembro de 1974, o país andino passou a ter mais classificações no Miss Universo que nos anos pré-ditatoriais. Se a Operação Condor começava a mostrar suas garras em outros países da América do Sul como Brasil, Paraguai e Uruguai, por exemplo, no Chile, a engrenagem de usar o concurso local do Miss Universo demorou a tomar forma. Entre 1975 e 1979, o país teve apenas duas classificações no Miss Universo. A primeira delas veio em 1976, em Hong Kong, quando Verónica Sommers ficou entre as 12 semifinalistas. Mesma situação ocorreu em 1978, em Acapulco, com Marianne Müller.
Nas década de 1980, a repressão se intensificava ainda mais no Chile. Na medida em que os noticiários das agências internacionais de notícias e a Anistia Internacional denunciavam os abisos nas masmorras do regime de Pinochet, o governo do general se valia da TVN, emissora pública, para inflar a audiência do concurso de Miss Chile, etapa local do Miss Universo. 1985, 1986 e 1987 foram anos terríveis para a democracia chilena, tirada a mãos de ferro por um ditador assassino e sanguinário. As classificações de Claudia Van Sint Jan em Miami e Mariana Villasante na Cidade do Panamá não eram suficientes. Com o agravamento da repressão aos movimentos estudantis, Pinochet tentou produzir com a vitória de Cecília Bolocco, em Cingapura, na manhã local de 27 de maio de 1987, um ambiente propício para criar uma cortina de fumaça sobre a Anistia Internacional e outras entidades internacionais de direitos humanos. Bolocco era a joia da coroa Sarah Coventry que o autoritarismo de Pinochet tanto cultuou. Quando Verónica Romero ficou fora do quadro de semifinalistas, na manhã de 24 de maio de 1988, em Taipé, já estava desenhado o ambiente para tirar Pinochet do poder de alguma forma. Naquele ano, foi organizado um referendo que pedia à população que respondesse se Pinochet deveria permanecer sim ou não no Palácio de La Moneda, palco do assassinato de Allende, 15 anos antes.
Fora o Chile, o Brasil foi o único país sul-americano a vencer um título de Miss Universo durante a vigência de um regime militar autoritário. Quando Martha Vasconcellos levou a Sarah Coventry em 13 de julho de 1968, o país já estava havia quatro anos nas mãos de governos militares. Cassaram-se direitos políticos, o direito do povo de votar para presidente, governadores e prefeitos de capitais e concessões de canais de televisão que não eram simpáticos aos presidentes de plantão. Fez-se uma lei duríssima que calou os políticos no horário eleitoral gratuito no rádio e televisão, a Lei Falcão. Fechou-se o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Instalaram-se nas cortes superiores os “jurilas”, juízes “gorilas” nomeados pelo general que tocava a tropa e o terror nas ruas contra a população. Jornalistas e políticos de oposição foram assassinados. O Brasil de Martha como Miss Universo 1968 foi igual ao Chile de Cecilia como Miss Universo 1987. Vendeu uma louça à Miss Universe Inc., que na prática escondia vícios de fabricação. Os vícios da repressão estudantil. Os vícios da repressão sanguinária a opositores. O Não Chores Mais do Gilberto Gil, traduzido a partir de No Woman No Cry, do jamaicano Bob Marley (1945-1981).
Antes da redemocratização, o Chile teve um último sopro de alegria no Miss Universo. Em 23 de maio de 1989, Macarena Mina se classificou entre as 10 semifinalistas, em Cancún. A volta da democracia ao Chile significou a agonia do país no Miss Universo. Uranía Haltenhoff, em 1990, em Los Angeles, e Gabriela Barros, em 2004, em Quito, foram as únicas chilenas a conseguir classificação no Miss Universo para um Chile que passou 17 anos sob a agrura de um regime militar que cerceou a liberdade de expressão, matou opositores até no exterior e marcou a imagem de Bolocco, estigmatizada por ser associada a um regime déspota, assassino e genocida. Cansada do Chile, se casou com o ex-presidente argentino Carlos Menem, 88, que afundou seu país numa crise econômica dramática. Deixou Menem por amor a seus fãs, que a idolatram três décadas depois de seu feito.
Durante a ditadura de Pinochet, o Chile teve seis classificações em 15 participações consecutivas no Miss Universo, que equivaleram a um aproveitamento de 40%. No mesmo período, o Brasil teve a mesma quantidade e percentual de classificações. Se considerado o período de governos militares, o país teve apenas quatro classificações (aproveitamento de 40%). Em 21 anos de ditadura militar, o Brasil teve 12 classificações em 21 participações consecutivas no Miss Universo, o que equivale a um aproveitamento de 57,14%.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
Esse post foi publicado em Jóia da coroa, Outras Venezuelas, Poderes ocultos, Podres poderes, Projetos especiais, Todas as Venezuelas do mundo e marcado , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s