Transição dos Associados para o SBT fez década de 1980 ficar heterogênea nos títulos de Miss Brasil para o Miss Universo


Mudanças no formato e no comando do concurso impediram hegemonias de Estados

Da redação TV em Análise

Fotos Folhapress/27.06.1981 e 09.06.1984
Ao fim da década, o Rio de Janeiro tinha mais títulos que São Paulo


A crise que levou à cassação de concessões da Rede Tupi, em 16 de julho de 1980, produziu reflexos significativos na produção do concurso de Miss Brasil e no gerenciamento das concessões dos concursos internacionais que a ele estavam atrelados – Miss Universo, Miss Mundo e Miss Beleza Internacional. Durante o processo de licitação dos canais cassados, Sílvio Santos, 87, se manifestou interessado em assumir a parte do Miss Brasil que pertencia à Tupi. Nessa época, o Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), que operada sob o nome fantasia de TVS, já detinha os direitos de transmissão dos concursos de Miss Universo e Miss Mundo. Eram esses os certames que interessavam a Senor Abravanel, antigo ocupante dos domingos da Rede Globo, que já andava com as próprias pernas no mercado televisivo.
Amizades com os generais da ditadura levaram SS a obter duas concessões. A primeira delas, em outubro de 1975, no governo Geisel, foi a do canal 11 do Rio de Janeiro. Mais tarde, veio a do canal 3 de Nova Friburgo, na região serrana do Rio. Suas ligações com o governo do então presidente João Figueiredo (1918-1999) o fizeram criar um quadro de exaltação no Programa Sílvio Santos chamado Semana do Presidente. Era uma forma de Abravanel se aproximar do círculo de generais no avanço da licitação para os canais 4 de São Paulo, 2 de Belém (hoje 5), 5 de Porto Alegre e 9 do Rio de Janeiro (passado para a Record). Após o anúncio de que os grupos Sílvio Santos e Bloch (Manchete) tinham vencido a licitação, em 19 de março de 1981, Sílvio Santos foi para nova York conversar com o então presidente da Miss Universe Inc. Harold L. Glasser. Assinou o contrato para a representação do Miss Universo no Brasil, não apenas para seus direitos de transmissão. Assumiu ali a obrigação de promover a etapa nacional do concurso pelos próximos dez anos, num contrato que expirou em 1991 e não foi renovado.
O primeiro Miss Brasil já sob a chancela da TVS ocorreu em 27 de junho de 1981. Faltavam dois meses para o contrato de concessão dos canais do futuro SBT ser assinado. O que Sílvio Santos queria era fazer um concurso de transição, usando a TV Record de São Paulo como geradora da rede e a TVS do Rio como mera retransmissora. A “rede Sílvio Santos” fez o Miss Brasil 1981 a seu modo e a seu revés. E sabia que, a partir de 1982, a responsabilidade por gerenciar concursos estaduais, fiscalizar coordenações e agir de acordo com os interesses do Miss Universo seria inteiramente do SBT. A eleição da carioca Adriana Alves de Oliveira marcou o início de um ciclo e o fim de outro. O dos concursos desengonçados e com falta de dinamismo. O dos concursos longos e arrastados demais. O dos desfiles em círculos de ginásios de esportes cada vez mais esvaziados e sua adaptação necessária aos tempos de centros de convenções e auditórios. O Miss Universo já seguia essa tendência desde 1960. Porém,, sem chegar aos exageros que a Tupi cometeu no Miss Brasil. Não mais Maracanãzinho, não mais Nilson Nelson e sim Anhembi ou Ataliba Leonel.

Arquivo pessoal (cia Cesar Papini)/26.06.1982

O sucesso de audiência do Miss Brasil 1981 com a Record virou um ônus para o SBT a partir de 1982. Viu sua audiência despencar e os resultados no Miss Universo se transformarem em decepção. Do quarto lugar de Adriana em Nova York, a paraense Celice Marques ficou entre as 12 semifinalistas em 26 de julho de 1982, em Lima, duas semanas após a Copa do Mundo FIFA da Espanha ter acabado nas mãos do árbitro brasileiro Arnaldo César Coelho. Saía uma bola, entrava a outra, a do título máximo da beleza internacional. Nesse campo, a mesma Itália que desgraçara o Brasil no fatídico Estádio Sarriá, saía da capital peruana com um terceiro lugar obtido por Cinzia Fiordeponti. No final, a canadense Karen Baldwin derrotara a guamense Pattry Cheong Kerkos no voto dos jurados. Das cinco finalistas do Miss Universo 1982, apenas duas – a norte americana Terri Utley (5ª colocada) e a grega Tina Roussou (4ª) – tentavam quebrar jejuns de títulos. O mais longo, o da Grécia, vinha desde 1964. Desde a eleição de Corinna Tsopei, a Grécia amarga um jejum de 64 anos sem títulos.
1983 foi um ano decisivo para o SBT no Miss Brasil. Além do Miss Universo, a emissora assinou com Eric Morley, em Londres, o contrato de representação do Miss Mundo para o país. Foi em frente com a parceria até 1987. Em cinco anos de Miss Mundo no SBT, o Brasil teve um aproveitamento de 80%. Foram três classificações consecutivas. Decisões erradas da área de programação e sua locupletação de tirar artistas da Globo, como Jô Soares, fizeram a emissora fazer o Miss Brasil apenas por obrigação junto à Miss Universe Inc. entre 1988 e 1999. A candidatura de Sílvio Santos à Presidência da República colocou por terra os planos de organização do Miss Brasil 1990 e de seus concursos estaduais. Já estava na era das supermodelos e o SBT tinha uma batata queimando nas mãos. Nos anos em que realizou o Miss Brasil, o SBT conseguiu emplacar poucas candidatas com potencial de classificação no Miss Universo. No Miss Mundo Brasil 1984, uma carioca chamada Márcia Giagio Canavezes de Oliveira, que assinava artisticamente como Márcia Gabrielle, era a joia da coroa que faltava para brecar os fracassos que o país tivera em 1983, em Saint Louis, com a mineira Mariza Fully, e 1984, com a paulista Ana Elisa Flores. Márcia venceu o Miss Brasil 1985 e, no dia 15 de julho, em Miami, aliviou a barra dos brasileiros. Ficou entre as 10 semifinalistas da 34ª edição do Miss Universo. Sua sucessora, uma negra gaúcha chamada Deise Nunes de Sousa, repetiu o feito na 35ª edição do concurso, em 21 de julho de 1986, na Cidade do Panamá. Nos anos que se seguiram, o SBT foi pouco a pouco tentando renegar esse legado.
Nos palcos do Miss Brasil, coordenado por Marlene Brito, a heterogeneidade de resultados na definição das vencedoras passava pelo olho clínico de Sílvio Santos. Ele próprio fazia questão de checar as notas, que iam de 1 a 10. Assim o foi em 1987, com a candidata do Distrito Federal, Jacqueline Meirelles, agraciada com prêmio de traje típico em Cingapura. Sílvio era avesso a firmas de auditoria – o Miss Universo já trabalhava com a Ernst & Young. Ele próprio era a auditoria do Miss Brasil do SBT. Advogados eram mero detalhe em questões inerentes a concursos estaduais. Na medida que a rede do SBT crescia, o Miss Brasil penava para acompanhar essa tendência. Não teve poder para fiscalizar concursos como os do Piauí e de Pernambuco, por exemplo. Com a catarinense Isabel Beduschi, em 1988, o caos já estava instalado. Recorreu-se a uma votação nominal, na falta de SS, doente das cordas vocais. Chamou-se um apresentador de emergência. Flávia Cavalcante, modelo baiana residente em Fortaleza, encerrou esse capítulo em 1º de abril de 1989.

Totos Miss Universe Organization e Arquivo pessoal/Deise Nunes

Ao longo da década de 1980, o Brasil teve quatro classificações no Miss Universo, o que equivale a um aproveitamento de 40%. No período do SBT, esse aproveitamento foi de 44,44%. No período dos Diários Associados, foram 19 classificações em 26 participações, o que equivale a um aproveitamento de 73,07%, incluindo os dois títulos conquistados em 1963, pela gaúcha Ieda Vargas, e em 1968, pela baiana Martha Vasconcellos. Tradução: ao aceitar se submeter à agenda da Rede Globo e dos petistas presos pela Operação Lava Jato, o SBT iniciou um processo de afundamento do Brasil no Miss Universo.
Após o ciclo do SBT, o Rio de Janeiro passou a ser o Estado com maior número de títulos de Miss Brasil – oito, contra seis de São Paulo, quatro de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, três de Santa Catarina e dois do Ceará. A hegemonia fluminense no Miss Brasil cairia ao longo das décadas de 1990 (quando São Paulo conquistou mais dois títulos) e 2000 (quando, na “era Evandro Hazzy”, o Rio Grande do Sul virou a máquina de fazer títulos de Miss Brasil. Hoje as gaúchas tem 13 títulos de Miss Brasil e 14 participações no Miss Universo, inclusive a da miss de 2002, Joseane Oliveira, destronada por ser casada). Na década de 1980, o Rio teve dois títulos de Miss Brasil. Outros Estados e o Distrito Federal, que venceram ao longo da década, tiveram apenas um título cada. Politicagem? Manipulação de jurados? Compra de votos? Arranjos eleitorais? Essas questões ficam para quem, de fato, vivenciou de perto esse fenômeno de massas que o Miss Brasil foi abraçado pelo SBT. E após ele penou para recuperar a audiência que perdeu. Seus reflexos nas participações brasileiras no Miss Universo são uma história a ser contada à parte.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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