Band teve mais desvantagens que vantagens ao recolocar os concursos de misses na mídia ao longo dos últimos 15 anos


Em vez de formar Osméis, colocou aprendizes de Palocci, Cunha e Cabral nas coordenações

Da redação TV em Análise

Manoel de Britto/Virgulando/26.04.2003
Gislaine Ferreira foi a primeira Miss Brasil da era Band


Os 15 anos da primeira grande transmissão de concursos de beleza feita pela Rede Bandeirantes, completados no dia 26 de abril, reacenderam um debate sobre a exposição de mídia que os concursos de misses passaram a ter na mídia brasileira desde 2003, com a aquisição dos direitos do Miss Brasil, do Miss Universo e de concursos estaduais. Há coisas a comemorar e outras não. Numa pontam a audiência nacional do certame não acompanhou a evolução das técnicas de medição. Em comparação a 2003, a base de 15 milhões de telespectadores se manteve estável. Isso para o Miss Brasil. Para o Miss Universo, essa é uma caixa preta impossível de se abrir.
Os efeitos Juliana Borges, Casa dos Artistas e Big Brother tiveram lá suas consequências. Ainda em 2001, a mineira Nayla Micherif, eleita Miss Brasil em abril de 1997 numa obscura cerimônia realizada no hotel Rio Poty, em Teresina, assumia cargo de direção na Gaeta Promoções e Eventos. Era o passo inicial da nativa de Ubá em tirar do lodo o principal concurso de beleza do país. Lodo esse causado pela mesma Rede Globo que reacenderia, ainda que por mãos alheias (as da Band) a paixão do brasileiro pelos concursos de beleza. Nayla passou a dividir c comando da Gaeta com Boanerges Gaeta Jr., responsável pelo Miss Beleza Internacional desde 1981 e pelo Miss Mundo no país desde 1999. No meio miss, a década de 1990 foi de mau agouro para o Brasil nos concursos internacionais de beleza. Por ordem da Globo, nenhum meio de comunicação noticiou o terceiro lugar da capixaba Anuska Prado no Miss Mundo 1996. Também por ordem da famíglia Marinho, se esconderam as classificações da gaúcha Leila Schuster no Miss Universo 1993 e da sul-mato-grossense Michela Marchi no Miss Universo 1998. Com o Ministério Público nas mãos, a Globo fez o que pôde para impedir a repercussão da morte da Miss Brasil 1983 Mariza Fully Coelho, em 23 de novembro de 1998. Tratou-a como um acidente comum, sem destaque.
Nayla e Gaeta começaram em setembro de 2001 a caçada por uma emissora de televisão que se dispusesse a transmitir os concursos de Miss Brasil e Miss Universo, já a partir de 2002. Por dar maior ênfase ao caso de Juliana Borges, a Rede TV! acabou levando a preferência para mostrar os dois certames, mas não cumpriu sua parte no Miss Universo. No dia 29 de maio de 2002, dia do concurso, a emissora colocou no ar o Superpop de Luciana Gimenez, tentando informar algo do concurso. Acabou não informando nada. A participação da gaúcha Joseane Oliveira foi apagada dos noticiários e ignorada de forma solene até ela entrar na casa da terceira temporada do Big Brother Brasil, em janeiro de 2003. A partir daí, começaram a se expor, aos poucos, as vísceras apodrecidas daquele que, até 1989, era destaque obrigatório na grande imprensa. O Miss Brasil que credenciava ao Miss Universo estava novamente na berlinda. E na linha de toro dos noticiários mais sórdidos das revistas de entretenimento.
As negociações para a transmissão do concurso Miss Brasil 2003 começaram ainda em fevereiro, logo após o escândalo da certidão de casamento de Joseane. A Globo chegou a ser procurada para transmitir além do Miss Brasil, o Miss Universo, o Miss Mundo e os concursos dos Estados e do Distrito Federal. A emissora carioca não estava pronta para atender essa demanda de eventos: já tinha sob suas mãos os campeonatos estaduais de futebol, o Campeonato Brasileiro e as Copas do Mundo de 2006 em diante. Gaeta queria porque queria que a Globo desse a mesma audiência que o Miss Brasil dava no SBT e penou para ter nas mãos da Record e da Rede TV!, em períodos distintos das décadas de 90 e 2000. A Globo não aceitou as propostas da Gaeta e as considerou “absurdas” para os padrões de mercado. Em condições normais, a Globo até aceitaria um sistema de parceria para a transmissão e também para a manutenção de infraestrutura de comunicações para a organização do Miss Brasil e de suas coordenações estaduais. Jogou a toalha no dia 13 de março de 2003.
Antes de assinar com a Band, a Gaeta também procurou o SBT para que retomasse a transmissão do Miss Brasil do Miss Universo, do Miss Mundo e dos concursos estaduais, mas em moldes diferentes dos que eram aditados de 1981 a 1989. Diferentemente da época de Marlene Brito, a tevê de Sílvio Santos não teria poder nenhum sobre sua promoção. Apenas pagaria à Gaeta os direitos de transmissão. Sílvio Santos bateu o pé: não transmitiria o Miss Brasil e o Miss Universo de jeito nenhum. Gaeta tentou convencer os diretores do SBT da importância de um produto que a emissora ajudou a consolidar. Queria que o Miss Brasil fosse ao vivo e não mais gravado, como na primeira época de Sílvio Santos. Nem esse argumento colou. Tentou-se então a renovação com a Rede TV!, até que representantes da Band procuraram a Gaeta para pegar o que vinham tentando desde 1992. Num primeiro momento, se assinou o acordo para o Miss Brasil. Após o concurso de 2003, a Band assinou acordo com a Alfrted Haber Distribution para transmitir o concurso de Miss Universo, mediante aval da Gaeta. Mais tarde, assinou-se outro, para a transmissão do Miss Mundo. O concurso só ‘ficou na Band até 2006. Em 2004, a Band assinaria acordo separado para transmitir a etapa nacional do Miss Terra, com dois dias de atraso.
A volta do Miss Brasil à televisão acabou refletindo no desempenho das representantes brasileiras no Miss Universo. De um aproveitamento desastroso de 22,22% na década de 1990, subiu-se para 30% nos anos 2000 e 70% nos anos 2010, até o Miss Universo 2017. O país voltou a ter candidata classificada entre as finalistas depois de 26 anos. Na era petista, conseguiu a sede da 60ª edição do Miss Universo, sem financiamentos estatais. Os patrocinadores batiam à porta desesperados para anunciar. A cada início de ano, o pacote do que a Band passou a chamar de Projeto Miss já estava todo vendido. Somente capitais ou cidades das regiões Norte e Centro-Oeste ainda não receberam edições do Miss Brasil na era Band. Desde 2003, o concurso passou por São Paulo, Ilhabela, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Fortaleza. A capital paulista recebeu o Miss Brasil oito vezes, contra três do Rio, duas de Fortaleza e uma de Belo Horizonte e uma de Ilhabela. O cálculo não inclui o Miss Brasil 2018, realizado na capital fluminense em 26 de maio.
Se de um lado os resultados brasileiros no Miss Universo voltaram a aparecer, por outro a Band experimentou a agrura de administrar o Miss Brasil sozinha. De 2012 a 2015, a Enter deu prejuízo de US$ 100 milhões com a realização dos concursos de misses. Não tinha estrutura suficiente para fiscalizar 27 concursos estaduais e mais de 300 concursos municipais franqueados. Apesar de experiência piloto no Rio Grande do Sul, onde as candidatas municipais passaram a ser agrupadas em coordenações regionais, menos em cidades importantes, parte de outros estaduais do Miss Brasil se viu em meio a denúncias de corrupção, manipulação de resultados, assédio sexual, exploração de menores e racismo. Com isso, caíram as cabeças de Deivide Barbosa em Sergipe e Nelito Marques, no Piauí, e se assentou a cova de Cloves Nunes, no Distrito Federal. Os patrocinadores começaram a fugir do Miss Brasil da Band logo após o caso de corrupção no Miss Sergipe 2015. Em setembro daquele ano, todas as 27 candidatas estaduais estavam eleitas. De última hora, a Polishop entrou com socorro financeiro para que a Band fizesse o Miss Brasil 2015. Após o concurso, assumiu os ativos da Band na área de concursos de beleza e deu outra história.
Ao longo de 15 anos, a Band fez sangrar ao invés de evoluir a indústria de concursos de misses no Brasil. Fabricou missólogos de araque e picaretas profissionais. Pensou que Evandro Hazzy era o “Osmel dos Pampas” até a Enter entrar em desgraça. O colapso da Enter deu lições importantes para que as coordenações dos Estados e do Distrito Federal aprendessem que Gaeta, Hazzy, Nelito e Deivide eram a mesma coisa que Palocci, Cabral, Lula e Eduardo Cunha na Operação Lava Jato. De forma aparente, a Polishop iniciou uma moralização em todo o processo do Miss Brasil, a começar dos Estados. O ciclo do Miss Brasil 2019 já começa com esse sinal claro à Band, caso queira continuar com os concursos após 2020, quando acaba o contrato que tem com a Miss Universe Organization.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
Esse post foi publicado em História, Nossas Venezuelas, Projetos especiais, Todas as Venezuelas do mundo e marcado , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s