As lembranças do Brasil daquele fatídico 28 de maio de 2007


Lula dizia que cassação de RCTV era assunto da Venezuela de Ly Jonaitis

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Fotos Luís Acosta/AFP/Getty Images e Victor Chavez/WireImage/28.05.2007


28 de maio de 2007. Uma data difícil de ser esquecida pelos brasileiros. Era uma segunda-feira. No dia da 56ª edição do Miss Universo, realizada na Cidade do México, o concurso não era manchete de capa de nenhum dos principais jornais do país. No dia seguinte, 29, terça-feira, nada nas capas dos jornais acerca do segundo lugar da brasileira Natália Guimarães, então com 22 anos. Deixou-se para sua volta o grosso das entrevistas. A derrota para a japonesa Riyo Mori, que acabara com um jejum de 48 anos sem títulos para seu país, virou motivo de piada.
Sabedora da importância que teria uma eventual vitória de Natália no Miss Universo 2007, a Rede Globo já estava a postos para negociar a aquisição dos direitos do Miss Universo junto à proprietária de então, a Trump Organization. O vice de Natália não estimulou a Globo a tirar da Rede Bandeirantes o Miss Universo, tampouco o Miss Brasil, título com o qual Natália fora eleita para o Miss Universo. As relações entre a Gaeta Promoções e Eventos, que organizava o Miss Brasil, e a Band eram as melhores possíveis. Tinha contrato expirando. E era nesse contrato que a Globo estava de olho. O acordo da Band com a Gaeta foi renovado para o período de 2008 a 2011. A Globo já tomara o Miss Universo do SBT em 1990, porém não usou o contrato que assinou com a CBS para transmiti-lo.
Os efeitos malévolos da ocultação do Miss Universo feita pela Globo na década de 1990 e início dos anos 2000 se faziam sentir na imprensa brasileira naqueles dias de Miss Universo 2007. A piada de José Simão com Riyo na Folha de S. Paulo de 30 de maio soou agressiva e de mau gosto. Para contornar a lambança, a Gaeta agendou uma bateria de entrevistas de Natália a jornalões do eixo Rio-São Paulo e até mesmo à própria Globo. No Fantástico, com um tal de Diego Alemão do BBB 7, que de alemão não tem nada.
No campo político, o então presidente Lula, em início de segundo mandato, disse que a cassação da emissora Rádio Caracas Televisión (RCTV) “era problema da Venezuela”. Venezuela que tinha Ly Jonaitis, terceira colocada no concurso, cuja final foi no Auditório Nacional da Cidade do México. Apresentadores? Vanessa Lachey ainda assinando como Vanessa Minillo e Mario López, mais tarde conhecido por afundar a edição americana do The X Factor (López fez a extrema unção do programa, na FOX, em dezembro de 2013).
De beleza em beleza, a que chamava atenção dos jornalões não era a de Natália, e sim de uma ex-apresentadora de afiliada da Globo no Mato Grosso, Mônica Veloso, já trabalhando como assessora parlamentar. Mostrou a bunda na capa da Playboy de outubro. Mas as curvas de Mônica só fizeram derrubar o então presidente do Senado, Renan Calheiros (MDB-AL), Na Folha, Natália teve apenas uma página do caderno Cotidiano e um artigo do professor titular da Escola de Comunicações e Artes da USP Teixeira Coelho, curador-chefe do Museu de Arte de São Paulo, que comparou a Miss Universo a Vênus de Milo, deusa da beleza.
No esporte, o Brasil de Natália Guimarães já vivia o clima dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, marcados por denúncias de corrupção nas suas obras. A que mais sofre é a Vila dos Atletas. Os moradores já entraram com inúmeras ações contra a Prefeitura da capital fluminense e o Comitê Olímpico do Brasil pelos danos estruturais. Sérgio Cabral Filho (MDB) já governava o Rio, mas as obras tiveram início no governo de Anthony Garotinho, encerrado em 2002. Benedita da Silva (PT) e Rosinha Garotinho (PR) governaram o Rio enquanto as obras do Pan eram tocadas em esquema parecido ao investigado mais tarde pela Operação Lava Jato, que botou Cabral na cadeia após a Olimpíada de 2016.

Captura de tela/Folha/30.05.2007

Captura de tela?Folha/03.06.2007

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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