EXCLUSIVO: Cinco anos após a eleição de Olivia Culpo, novas denúncias de corrupção atingem o concurso de Miss Universo


Esquema começou a operar em 1978, depois que a Paramount assumiu o certame

Da redação TV em Análise

David Becker/Getty Images/19.12.2012


Há exatamente cinco anos, um amplo esquema de propinas liderado pela Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) dava o título de Miss Universo 2012 à norte americana Olivia Frances Culpo, então com 20 anos de idade. Verbas emergenciais para cidades afetadas pelo furacão Sandy foram desviadas para drenar as contas pessoais de jurados que iriam votar em Culpo, como foi o caso do empresário Scott Disick, 34, que foi o maior beneficiado com as propinas da SIP e de seus órgãos associados, entre os quais os jornais brasileiros O Globo e Zero Hora, dos grupos Globo e RBS, as redes de televisão Globo, Bandeirantes e RBS, a organização não governamental Instituto Millenium e os partidos políticos PSDB, Democratas e PPS.
O esquema de corrupção que levou à eleição de Culpo no Miss Universo não é novo. De acordo com denúncias recebidas pela redação do TV em Análise Críticas, a patranha no concurso teve início em 1978, um ano depois de a Gulf+Western Industries, então dona do estúdio de cinema e televisão Paramount, ter assumido a propriedade da então Miss Universe Inc., comprada da Kayser-Roth, dona da marca de maiôs Catalina. De acordo com os denunciantes, que pediram anonimato, apesar da implementação do sistema de pontuação eletrônica, ocorreram trocas de favores ilegais de diretores da G+W com jurados preliminares. Esse foi o método usado por interlocutores da Rede Globo infiltrados entre torcedores de candidatas brasileiras para prejudicá-las no certame. à medida que cada brasileira se classificava entre as 12 semifinalistas do Miss Universo, ia sempre um representante da Globo para interferir junto à Miss Universe Inc.: “não classifica essa candidata, pelo amor de Deus!”, “não prejudique nossa novela”, “a Vera Fischer é melhor que esse canhão” eram os códigos usados para tirar das semifinais candidatas como Suzana Araújo dos Santos, eleita Miss Brasil 1978 pouco mais de um mês antes do Miss Universo 1978, realizado no Centro de Convenções de Acapulco.
Dois anos antes de a G+W vender a Miss Universe Inc. em 1986, o número de semifinalistas do Miss Universo foi reduzido de 12 para 10 no concurso de 1984, realizado em Miami. Era uma manobra da Globo, endossada pelo coordenador do Miss Venezuela, Osmel Sousa, para jogar o Brasil num atoleiro de classificações que só foi removido em 1985 e 1986. Após a Madison Square Garden (MSG) Entertainment assumir os ativos do Miss Universo, que àquela altura já incluíam o concurso de Miss Teen USA, criado em 1983, os esquemas de pressão aos jurados do Miss Universo tinham perdido força com a implementação da pontuação eletrônica também na fase preliminar, iniciada em 1979. Os escores eletrônicos eram um maneira de o Miss Universo barrar práticas de corrupção, que só ganharam forma depois que o presidente americano Donald Trump, 71, comprou os ativos da Miss Universe Inc. em 1996, renomeando-a para Miss Universe Organization.
Até 2002, as pontuações eletrônicas foram usadas no Miss Universo mesmo sob o sistema de 10 semifinalistas. Mesmo com a ampliação do quadro de semifinalistas para 15, em 2003, elas foram postas em desuso até 2006. Assim mesmo, Trump acabou com as pontuações eletrônicas na fase preliminar e a dividiu em dois estágios – um, fechado, e outro com plateia, na presença de jurados preliminares. Eles tinham perdido poder de dar as pontuações eletrônicas. Ao invés disso, apontavam candidatas que nas suas visões pessoais teriam condições de subir para as fases de corte da final televisionada. Foi a partir daí que o instrumento conhecido como Trump Card entrou em ação para prejudicar as candidatas brasileiras. A grana de Trump jogou o país num aproveitamento ridículo de 30% nos anos 2000, o segundo pior por década na história do certame.
O Trump Card escancarou as portas para um amplo esquema de propinas e favorecimento envolvendo coordenações nacionais, jurados preliminares e diretores da MUO. Foi esse procedimento que, no Miss USA 2012, colocou uma candidata sem chances de classificação – Culpo, representante de Rhode Island – em desfavor de outras que estavam na disputa. A D&D Investments começou a operar um esquema de subornos para que a candidata de Rhode Island fosse favorecida no Miss USA 2012 de forma ilícita. Essa denúncia comprova as acusações da candidata da Pensilvânia, Sheena Monnin, feitas após a etapa americana do Miss Universo 2012, realizada em junho, em Las Vegas.
De acordo com as acusações de Monnin, a D&D depositou nas contas de Trump e de diretores da MUO US$ 12,5 milhões (R$ 41,1 milhões, em valores atualizados). Depois que perdeu o título de Miss Pennsylvania USA 2012, Monnin passou a denunciar que Trump estava comprando o seu silêncio em troca de favores pessoais nos contratos de transmissão do Miss Universo e do Miss USA com a NBCUniversal. Como de fato ocorreu.
Procurada pela reportagem do TV em Análise Críticas, a atual controladora do Miss Universo e da Miss Universe Organization, a Endeavor, diz estar trabalhando para combater a corrupção no próprio Miss Universo e em seus concursos nacionais e regionais e condena a prática de propina nesses eventos. A assessoria de imprensa da Casa Branca disse que as denúncias são anteriores à posse de Trump e “são obra de pessoas desesperadas para aparecerem na mídia para desqualificarem a figura do Presidente”, em referência a Sheena Monnin, que perdeu em uma ação movida por Trump.

Ver também
*‘Donaldo’ Trump e Ari Emanuel selaram a impunidade dos envolvidos na corrupção do ‘propinoduto da Olivia Culpo’ (3/1/2017)

Esquemas impedem Brasil de vencer concurso

De acordo com as novas denúncias, fica claro que o intento das organizações que sucederam à Kayser-Roth no comando do Miss Universo a partir de 1977 tem sido o de sempre prejudicar as candidatas brasileiras que participam do concurso desde 1968, quando a baiana Martha Vasconcellos nos trouxe o último título. Desde então, se passaram 18.051 dias que uma brasileira não vence o título de Miss Universo. Em 49 anos de jejum de títulos, o país teve 23 classificações entre as semifinalistas ou finalistas em 48 participações, o que equivale a um aproveitamento de 47,91%. Percentual esse maior que os aproveitamentos de potências como Suécia (46,03%, três títulos e 29 semifinalistas em 63 participações) e Índia (40,74%, dois títulos e 22 semifinalistas em 54 participações).
No período da Gulf+Western, o Brasil teve cinco classificações em dez participações, o que equivale a 50% de aproveitamento. Durante o período em que a MSG tocou o Miss Universo, o país teve apenas uma classificação em oito participações (12,5%). Na gestão Trump, foram oito classificações em 19 participações, o que equivale a 42,10%. Desde que a Endeavor assumiu o Miss Universo em 2015, o Brasil teve três classificações consecutivas, que representam 100% de aproveitamento.
Apesar de ter sob suas asas modelos do porte de Alessandra Ambrosio, o que a IMG Universe tem contra o Brasil no Miss Universo? Na hora em que classificou Marthina Brandt, Raíssa Santana e Monalysa Alcântara entre as 15, 13 ou 16 semifinalistas, a presidência de Paula Shugart na MUO mostrou um discurso para o merecimento. Mas na hora de escolher os jurados das três últimas finais televisionadas, tem optado pelas escolhas mais erradas. O Brasil aos olhos da MUO de Shugart em carreira solo tem se mostrado aquele Brasil que classificava candidatas nas décadas de 1950 e 1960. Mas na hora do lobby, seus coordenadores se recolhem à concha. Fingem cobrir o Miss Universo quando estão no ar refrigerado de seus gabinetes, seja na Band ou na Polishop. Bancam o Macunaíma, o herói sem caráter, na hora de “exercer” jornalismo de misses.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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