Já passou da hora da Band perder os direitos de transmissão do concurso de Miss Universo na televisão aberta brasileira


Brincadeiras como a verificada no Jornal da Band deste sábado (25) não podem mais continuar

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Philippe Huguen/AFP/Getty Images/19.03.2017


Desde que comprou os direitos de transmissão do concurso de Miss Universo, em 2003, a Rede Bandeirantes tem brincado de fazer coberturas do concurso de Miss Universo. Neste domingo (26), a Band irá para sua 15ª transmissão de Miss Universo com o menor espaço dado em todas as edições que transmitiu. Em seus telejornais e programas, a emissora destinou apenas três minutos de matérias sobre a viagem e preparação da candidata brasileira, Monalysa Alcântara, 18. Parecia ambiente de velório o que a Band cobriu do Miss Universo 2017. Nem sua emissora do Piauí se submeteria a tamanha omissão.
O grave desinvestimento que a Band tem dado às coberturas do Miss Universo desde 2004 e depois de 2007 e 2011 e 2012 é uma mostra clara de que nem as afiliadas e emissoras próprias da rede da família Saad estão mais interessadas em dar destaque às vencedoras do Miss Brasil em seus Estados. Acabou o Miss Brasil e pronto. Vamos zerar a cota de matérias para o Miss Universo e nos ater ao básico. Essa tem sido a pensata ridicularizante e degradante que a Band tem adotado nas matérias do Miss Universo. Fere até mesmo a principal missão da Miss Universe Organization, a de empoderar as mulheres brasileiras a começar de concursos municipais, rateados entre afiliadas da Record News, SBT, Globo e, em pouquíssimos casos, da própria Band.
Quantas matérias a Band deu sobre os ataques racistas sofridos nas redes sociais por Monalysa quando de sua eleição como Miss Brasil 2017? Nenhuma. Quantas matérias que a Band deu do retorno da Miss Universo 2016, Iris Mittenaere, 24, à França? Nenhuma? Quantas matérias a Band deu sobre a venda da Miss Universe Organization por parte de Donald Trump para a WME/IMG, inclusive em suas plataformas digitais? Nenhuma. É esse comportamento mesquinho e escroto que a Band adota toda vez que se aproxima uma edição de Miss Universo: reduzi-la a uma matéria de um minuto e pouco no Jornal da Band na véspera do concurso, como ocorreu neste sábado (25), e não cobrir a semana que antecede o concurso, como chegou a ser feito na fase do antigo Melhor da Tarde.
Passar as chaves do cofre da Organização Miss Brasil Universo para a Polishop foi a gota d’água para a Band começar a preparar o adeus aos concursos de beleza depois que o contrato com a MUO acabar em 2020. Terceirizar a administração dos interesses do Miss Brasil válido pelo Miss Universo é uma life sentence que está sendo passada de bandeja a todas as 27 coordenações estaduais, inclusive as que assumiram já sob o guarda-chuva da Polishop. Desde a época da Tiazinha e da Cátia Kupsinski, nunca a Band expressara tamanho desprezo e aversão aos concursos de beleza que ela mesma transmite. Quando o SBT tinha os direitos do Miss Universo, era diferente: os telejornais da rede de Sílvio Santos eram constantemente abastecidos de matérias sobre cada edição do certame até o dia de sua realização. Alegando as tais novas mídias, a Band passou a gilete nos espaços jornalísticos de entretenimento para o concurso. arrendou-os para o Deus Mercado Tom Brady que viu sua Gisele Bündchen ser desbancada da capa da Veja, ou pior, Time, Newsweek, o escambau a quatro, pela Kendall Jenner e suas Absurdetes Kardashianas.
O bom senso das normas de mercado mandaria que a WME/IMG, como empresa séria e conceituada que é, mandaria-a oferecer os direitos do Miss Universo na televisão aberta brasileira para a emissora de maior audiência, no caso a Rede Globo de Televisão. A Globo já chegou a ter os direitos do Miss Universo de 1990 a 2002, de forma que o concurso fosse escondido da mídia brasileira, para que ninguém soubesse em 8 de maio de 1992, por exemplo, que a namíbia Michelle McLean vencera a 41ª edição do concurso, realizada em Bangcoc. Esse é o preço que o Brasil paga até hoje por só ter classificado duas semifinalistas do Miss Universo em toda a década de 1990. E ter pago a empresários como Marlene Brito, Paulo Max (pai e filho), Ana Paula Sang e Boanerges Gaeta Jr. para não permitirem a transmissão de seus concursos na televisão. Os vídeos inéditos da eleição de Valéria Peris como Miss Brasil 1994 apenas corroboram essa tese – a de que a Globo pagou a coordenadores do Miss Brasil para não mostrar o Miss Brasil de jeito nenhum. Nem no RJ TV, no SP TV e companhia belíssima das irmãs Letícia e Michele Birkheuer que ainda eram adolescentes no sul. Em miúdos, a Globo comprou o silêncio das famílias Brito, Max e Gaeta para que o Miss Brasil e o Miss Universo permanecessem na obscurantidade durante a época do Plano Real, encampado por FHC e seu Quadrilhão ceifador de sonhos, de direitos trabalhistas, de aposentadorias e de conquistas sociais.
A Band é apenas a quarta emissora de maior audiência do país e detém os direitos do Miss Universo mediante sucessivas renovações assinadas com a MUO desde a era Trump. Foram assinadas renovações com a Gaeta Promoções e Eventos em 2005 e 2008. A Enter só pegou o acordo que ia de 2012 a 2016 e, antes de fechar as portas, em 15 de janeiro de 2016, conseguiu da MUO e da IMG uma renovação das transmissões do Miss Universo na Band até 2020, ou seja, quando a 69ª edição do concurso ocorrer. Os acordos anteriores eram feitos com a Alfred Haber, que perdeu os direitos de comercialização internacional do Miss Universo assim que a WME/IMG assumiu as contas do Miss Universo.
No Planeta Band, Iris Mittenaere não foi eleita Miss Universo 2016 na noite de 29 de janeiro de 2017 e sim ontem à tarde. No Planeta Band, Monalysa Alcântara não foi vítima de racismo na Internet. No Planeta Band, Pia Wurtzbach é apenas jurada do concurso de amanhã e ponto. no Planeta Band, concurso de miss é coisa para infomercial e não gerar fatos, ocupar as manchetes da imprensa. É essa Ilha da Fantasia que o Jornal da Band tenta passar a sua parca audiência. Fora Temer. Fora Band.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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