Duas sedes do Miss Universo na era Trump estão sob suspeita


Escolhas de São Paulo e Moscou para sediar o concurso em 2011 e 2013 foram frutos de esquemas de corrupção

Da redação TV em Análise

Alexander Nemenov/AFP Photo/09.11.2013


As escolhas das cidades de São Paulo (Brasil) e Moscou (Rússia) para sediar a 60ª e a 62ª edições do concurso de Miss Universo, nos dias 12 de setembro de 2011 e 9 de novembro de 2013 foram operadas por organizações criminosas de direita, que fizeram acordos com o então proprietário do certame, Donald Trump, 70, hoje presidente dos Estados Unidos. Uma série de telefonemas entre Trump e o então prefeito de São Paulo Gilberto Kassab (PSD), travados entre dezembro de 2009 e junho de 2010 comprova que houve negociata para que a capital paulista recebesse o concurso. A denúncia é de um ex-diretor da UniCorp, representante do Miss Universo no Vietnã, que pediu para não ser identificado. Kassab é ministro da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações do governo golpista e sem voto de Michel Temer.
De acordo com a fonte da UniCorp, São Paulo derrotou outras 17 cidades, entre elas Nha Trang, que sediara a 57ª edição do concurso, em 14 de julho de 2008. Há provas de que Kassab pediu favores a Trump para que São Paulo levasse a sede de 2011 ao invés de Santa Cruz de la Sierra (Bolívia). Além de São Paulo, outra sede da era Trump, encerrada em 14 de setembro de 2015, está sob suspeita: de acordo com o jornal inglês The Guardian, há fortes indícios de interferência política do presidente russo Vladimir Putin na escolha de Moscou como sede do Miss Universo 2013.
De acordo com a publicação, a MUO de Trump pagou US$ 20 milhões ao governo russo para realizar o certame na capital russa em troca de um amplo esquema de espionagem cibernética de políticos do Partido Democrata até às eleições de 2016, na qual Trump acabou eleito presidente, derrotando Hillary Clinton. O comprador da MUO, Ari Emanuel, sócio do grupo WME/IMG, foi um dos principais doadores da campanha da candidata democrata derrotada. Após a aquisição da Miss Universe Organization, Emanuel organizou eventos de arrecadação de fundos para Hillary, com a presença de artistas como a recém-contratada jurada da 16ª temporada do American Idol Katy Perry. Nove em cada dez artistas americanos, incluindo modelos e estrelas de realities apoiaram Hillary. Trump estava isolado nos apoios do National Enquirer e de ex-astros do Celebrity Apprentice. Da classe artística, o único apoio veio do ator Dean Cain, jurado da 58ª edição do Miss Universo, realizada em 23 de agosto de 2009 em Nassau, capital das Bahamas.
De acordo com o deputado democrata pela Califórnia Eric Swalwell, a comissão encarregada das investigações na Cãmara Baixa encontrou indícios de irregularidades nos contratos assinados entre Trump e o governo russo para o Miss Universo 2013. O advogado do presidente, John Dowd, se recusou a comentar as novas denúncias que pairam sobre o ex-proprietário do Miss Universo. Já no Brasil, não há qualquer mobilização do Ministério Público Federal e da Polícia Federal para investigar os contratos de Trump com a empresa Enter-Entertainment Experience, que o Grupo Bandeirantes de Comunicação formou apenas para organizar o Miss Universo 2011.
No Brasil, estima-se que Trump tenha pago US$ 17,5 milhões para que São Paulo recebesse o Miss Universo 2011. A Band pagou uma contrapartida de US$ 17 milhões (RS 34 milhões) para organizar o concurso. De acordo com procuradores do MPF, há indícios gravíssimos de subfaturamento de contratos de transporte, direitos de transmissão e de logística. Há também a suspeita de compra de diretores da MUO por parte da Band para que São Paulo derrotasse a cidade boliviana e impedisse que o presidente Evo Morales tirasse proveito do evento. Morales é opositor declarado das políticas de Trump antes mesmo deste ocupar a Casa Branca, no dia 20 de janeiro. A reportagem do TV em Análise Críticas não conseguiu localizar os envolvidos brasileiros na negociação pela sede do Miss Universo 2011 até o fechamento desta matéria.

Cronologia do caso

15 de dezembro de 2009 – Executivos da RedeTV! e Ricardo Bellino, representante dos negócios de Trump no Brasil, tratam de acertar a realização do Miss Universo 2011 em São Paulo.

1º de fevereiro de 2010 – O presidente boliviano Evo Morales apresenta a candidatura formal de Santa Cruz de la Sierra para o Miss Universo 2011. O concurso de 2010 ocorreria em Las Vegas.

14 de março de 2010 – Fracassam as negociações para Santa Cruz sediar o Miss Universo 2011.

24 de fevereiro de 2010 – Mar de Plata apresenta sua candidatura.

15 de maio de 2010 – O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, se reúne com diretores da Rede Bandeirantes e formaliza a proposta da cidade para sediar o Miss Universo 2011.

30 de junho de 2010 – Nha Trang, sede do Miss Universo 2008, apresenta candidatura para sediar o Miss Universo 2011. Na mesma data, São Paulo apresenta seu Caderno de Encargos à MUO.

13 de dezembro de 2010 – Diante de executivos da Band, Trump oficializa São Paulo como sede do Miss Universo 2011 e assina o contrato para a organização do concurso.

12 de setembro de 2011 – A angolana Leila Lopes derrota outras 88 candidatas e vence a 60ª edição do Miss Universo, realizada no Citibank Hall, na capital paulista.

5 de setembro de 2017 – Polícia Federal do Rio de Janeiro deflagra Operação Unfair Play para investigar esquema de compra de votos para a capital fluminense sediar as Olimpíadas de 2016. Há suspeitas de que o esquema do empresário conhecido como “Rei Arthur” também atuou para que São Paulo sediasse o Miss Universo 2011.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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