Globo e Odebrecht urdiram para que o Miss Brasil e o Miss Universo ficasse fora das tevês brasileiras na década de 1990


Eventos faziam parte do ‘projeto de comunicação’ da empreiteira com a tevê da famíglia Marinho

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Fotos Reprodução/Justiça Federal, Getty Images e Mapio


A Rede Globo e o grupo Odebrecht montaram uma megaoperação em março de 1991 para que os concursos de Miss Brasil e Miss Universo ficassem fora da pauta da mídia brasileira por, pelo menos, 10 anos. A revelação, obtida com exclusividade pela redação do TV em Análise Críticas, veio de um dos 77 diretores e ex-diretores da construtora baiana, que ganhou sucessivas licitações de obras públicas em governos apoiados pela tevê da famíglia Marinho Brasil afora durante os governos de Fernando Collor (1990-92), Itamar Franco (1992-1994) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Foi no último ano do desgoverno FHC que a Globo liberou os direitos de transmissão do Miss Brasil e do Miss Universo para serem comprados por outras emissoras, como SBT, Band e Rede TV!, sucessora das concessões da Rede Manchete, que teve falência decretada em maio de 1999.
De acordo com a delação de Emílio Alves Odebrecht, 72, patriarca e ex-presidente da construtora à Força Tarefa da Operação Lava Jato no Distrito Federal, a Odebrecht e a Globo montaram um projeto de comunicação em Belo Horizonte, em 1993, quando os direitos do Miss Universo no Brasil já estavam sob responsabilidade da emissora carioca. Pelo plano, caberia ao consórcio Globo-Odebrecht gerir, assumir os direitos de transmissão e comercializar os eventos associados ao Miss Brasil nos 26 Estados e no Distrito Federal. Àquela altura, fora a Globo, o SBT era a única rede presente nas 27 capitais do país. E esse requisito era fundamental para que o SBT assumisse os direitos de promoção de todos os concursos estaduais da etapa brasileira do Miss Universo. Quando a 27ª emissora do SBT em capital de Estado entrou no ar, em outubro de 1991, em Maceió, a rede de Sílvio Santos já perdera o Miss Brasil e o Miss Universo para a Globo, que jamais transmitiu os certames, e o Miss Mundo Brasil e o Miss Mundo para a Band, que os transmitiu em 1991.
De acordo com o jornalista Miguel do Rosário, do blog O Cafezinho, Emílio Odebrecht menciona no vídeo de sua delação liberado pelo juiz federal Sérgio Moro, 44, a formação de uma “sociedade privada” entre a Globo e a Odebrecht exatamente para que o SBT ficasse sem os direitos do Miss Brasil, Miss Universo, Miss Mundo Brasil e Miss Mundo. Originalmente, a sociedade entre Globo e Odebrecht era para a privatização do setor de telecomunicações e de petróleo, iniciada por FHC em 1995 e interrompida em 2003 já no governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva (2003-2011). Foi no governo do petista que a Gaeta Promoções e Eventos, detentora dos direitos de comercialização e transmissão dos quatro concursos, recebeu um maior aporte de verbas federais e de governos estaduais aliados para a realização do Miss Brasil – o Rio de Janeiro, sede da empresa, recebeu duas edições da etapa brasileira do Miss Universo no governo de Rosinha Garotinho e uma no de seu sucessor, Sérgio Cabral, preso por comandar o esquema criminoso da Operação Calicute, ligada à Lava Jato, coordenada pelo juiz federal Marcelo Bretas, 47.
Em 8 de março de 1990, a Rede Globo firmou um acordo com a CBS, rede que transmitiu o Miss Universo até 2002, para não transmissão do Miss Universo. Antes, em agosto de 1988, a emissora carioca conseguira pressionar, ao lado de deputados petistas e integrantes da Associação Brasileira de Agências de Propaganda (ABAP) como Washington Olivetto, Eduardo Fischer e Roberto Justus, o SBT a não realizar o Miss Mundo Brasil tampouco transmitir o Miss Mundo para o Brasil. Como resultado da chantagem global, o país ficou dois anos sem competir no Miss Mundo – 1988 e 1989 – e um no Miss Universo – 1990. Entre os que lutaram para que o Brasil ficasse uma década sem ver concursos de miss na televisão estão presos da Lava Jato como o ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci (o “Italiano” das planilhas do Departamento de Operações Estruturadas, aka Departamento de Propinas, da Odebrecht) e o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto.
Procurada pela reportagem do TV em Análise Críticas, a Central Globo de Comunicação desmente ter feito qualquer negócio com a CBS relativo ao Miss Universo, “exceto a cessão de imagens da participante do programa Big Brother Brasil 3, Joseane Oliveira, para efeitos de veiculação no Fintástico, antes de sua destituição como Miss Brasil 2002, noticiada pelo jornal nacional de 4 de fevereiro de 2003″. A Globo ainda ressalta que “sempre manifestou interesse jornalístico no concurso de Miss Universo e qualquer outro, desde que seus direitos não pertençam a terceiros, como a TV Bandeirantes faz hoje com o Miss Universo e a Rede Brasil o faz com o Miss Mundo”. “A Globo ressalta que mantém contratos com a Embratel e com a Associated Press para o fornecimento dos materiais noticiosos inerentes ao Miss Universo e Miss Mundo para uso eventual no canal de notícias Globonews, pertencente ao Grupo Globo e orientado pela Central Globo de Jornalismo, para fins jornalísticos e não de entretenimento”, sustenta a nota.
A Globo também esclareceu que mantém acordos com a Associated Press para publicação da parte factual do Miss Universo apenas nos portais G1 e EGO, ligados s Globo.com, unidade de Internet do grupo.
Entre as misses que a Globo deixou de noticiar na década de 1990 estão Lupita Jones, Michelle McLean, Dayanara Torres, Sushimita Sen, Chelsi Smith, Alicia Machado, Brook Lee, Wendy Fitzwilliam, Mpule Kwelagobe, Lara Dutta e Denise Quiñones. A eleição de Oxana Fedorova, citada na pauta do Show da Morte de 2 de fevereiro de 2003, foi a única citada pelo Jornalismo da Globo no período de reclusão midiática que a rede carioca e o grupo Odebrecht impuseram ao Miss Universo no país. Assim como Joseane caiu por mentir sobre seu estado civil, Fedorova perdeu o título de Miss Universo 2002, mas por outras razões, as quais a Globo esconde até hoje.

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Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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2 respostas para Globo e Odebrecht urdiram para que o Miss Brasil e o Miss Universo ficasse fora das tevês brasileiras na década de 1990

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