Candidatura de SS tirou Brasil do concurso Miss Universo 1990


Entre 1988 e 1989, SBT desinvestiu em concursos de misses e gastou recursos do Miss Brasil em campanhas eleitorais

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

George Rose/AFP/Getty Images/16.04.1990


A aventura política irresponsável do empresário e animador Senor Abravanel, melhor conhecido como Sílvio Santos, fez o Brasil se isolar dos principais concursos internacionais de beleza entre o final da década de 1980 e o começo da década de 1990. Sua filiação ao PFL, Partido da Frente Liberal, anunciada com estardalhaço em março de 1988, foi a sentença de morte para os projetos Miss Brasil/Miss Universo e Miss Mundo Brasil, que vinham sendo tocados com êxito de público pelas emissoras do Grupo Sílvio Santos desde 1979. Jornais da época apontavam a intenção do “rei dos domingos” abdicar de sua carreira de apresentador, tal qual o americano Donald Trump já o faz e o italiano Silvio Berlusconi já o fez, para entrar num terreno pantanoso – o de administrador público.
As estratégias de programação que a empresa mãe do grupo, o SBT (Sistema Brasileiro de Televisão), adotou a partir de agosto de 1988, fizeram sua primeira vítima no ramo dos concursos de misses. Depois de cinco anos, os concursos de Miss Mundo Brasil e Miss Mundo foram sumariamente riscados da grade de eventos especiais da emissora. Mesmo assim, Sílvio Santos desistiu da primeira disputa política na qual se meteria, a da Prefeitura de São Paulo, que acabaria vencida pela petista Luíza Erundina, hoje no PSOL. Com as mudanças impostas pelo “homem do Baú”, o Brasil ficou fora do Miss Mundo 1988, realizado em 17 de novembro no Royal Albert Hall de Londres, dois dias depois de Erundina levar a prefeitura mais importante do país para o PT. O mesmo ocorreu em 22 de novembro de 1989, quando a candidatura de Sílvio Santos à Presidência da República pelo minúsculo Partido Muncicipalista Brasileiro (PMB) já tinha ido para o vinagre. Naquele ano, o Miss Mundo ocorreu em Hong Kong, então colônia inglesa na China comunista, no Centro de Convenções e Exibições de Hong Kong.

Reprodução/Yotrube

A consequência mais danosa da candidatura de Sílvio Santos ao Planalto viria para cima dos principais produto do SBT na área de concursos de beleza – os concursos estaduais, que deveriam ter começado em janeiro de 1990, o Miss Brasil, que nem chegou a ser realizado, e o Miss Universo, cujos direitos de transmissão o SBT trancou por pressão de anunciantes ligados à Rede Globo, feministas e deputadas da bancada feminina ligadas ao PT de Lula, José Dirceu, João Vaccari Neto e Antônio Palocci, os três últimos presos pela Operação Lava Jato, que desvendou esquemas de corrupção na Petrobras. As coordenações estaduais ligadas às afiliadas do SBT nos Estados pararam de trabalhar e a incerteza só piorou depois que presidente recém-empossado, Fernando Collor, confiscou fundos das cadernetas de poupança no dia 16 de março. Com isso, os coordenadores estaduais e até mesmo diretores do SBT que cuidavam do projeto Miss Brasil/Miss Universo se viram sem garantias financeiras para que a emissora honrasse seus compromissos junto à Miss Universe Inc., à época pertencente ao grupo MSG Entertainment. No dia seguinte à eleição da norueguesa Mona Grudt, em 15 de abril no extinto Shubert Theatre, o SBT mandou embora 324 funcionários, incluindo os que trabalhavam na produção do Miss Brasil/Miss Universo/Miss Mundo Brasil. Com o dinheiro da multa rescisória, a produtora Marlene Brito montou uma empresa para gerenciar os concursos que faziam parte do projeto de misses do SBT.
Em 1991, a Most of Brazilian Beauty, empresa de Marlene, assinou acordo com a Rede Bandeirantes para transmissão, promoção e representação do Miss Brasil, Miss Universo, Miss Mundo Brasil e Miss Mundo. Só os dois últimos concursos foram transmitidos.

Reprodução/Flickr/12.02.2010

Nos anos em que o SBT começou a desinvestir nos concursos de misses – 1988, 1989 e 1990, a emissora redirecionou os recursos do projeto Miss Brasil/Miss Universo para ampliar sua cobertura eleitoral e contratar jornalistas da Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo para “limpeza ideológica” da programação e “descontaminação” da parte artística. Por “descontaminação”, entenda-se, tirar do ar os concursos de beleza, para atender às demandas da Globo, do PT, da bancada feminina e de publicitários como Roberto Justus e Washington Olivetto. Detalhe: Olivetto, dono da W/Brasil, agência que fazia as campanhas impressas do SBT, é casado com uma ex-miss, Patrícia Viotti, terceira colocada no Miss Brasil 1977 promovido pelos Diários Associados.
No período elencado, o SBT também redirecionou os investimentos nos concursos de misses para drenar campanhas eleitorais de seus afiliados locais através da Liderança Capitalização, dona da Tele Sena. Procurada pela reportagem do TV em Análise Críticas, a assessoria de imprensa do SBT não retornou os pedidos de pergunta até o fechamento desta reportagem.

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Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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