Apesar das bravatas da mídia velhaca e do fracasso de 2016, Venezuela segue muito viva no Miss Universo. História de classificações é maior que a tirania de governantes de plantão


Eleição de Maritza Sayalero, por exemplo, passou na Record cujos repórteres foram presos por investigar caso Odebrecht

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Fotos Getty Images e Miss Universe Organization


Uma história de 41 classificações entre as semifinalistas do Miss Universo em 63 participações não se constrói da noite para o dia: é fruto de anos de planejamento e aprimoramento dos parâmetros de seu concurso nacional. Ó case de sucesso do Miss Venezuela, tido como exemplo para as coordenações nacionais do Miss Universo mais atrasadas, inclusive a do Brasil, que trocou de roupa seis vezes desde 1983. É esse o período em que o cubano Osmel Sousa, 70, coordena a mais bem sucedida etapa do Miss Universo fora os Estados Unidos, país criador do certame. No período em que Osmel coordena o Miss Venezuela, o país registrou 30 das 41 classificações obtidas em toda a história do certame. Em igual período, o Brasil registrou apenas 13 classificações.
Nem mesmo a convulsão social recente será capaz de derrubar abaixo uma biografia de vitórias atrás de vitórias e classificação atrás de classificação. Osmel conviveu com todos os presidentes venezuelanos do saudoso Carlos Andrés Perez (1922-2010) ao comandante Hugo Chávez, cuja morte completará quatro anos no dia 5 de março. Chávez se foi sem ver Maria Gabriela Isler trazer para a Venezuela a sétima coroa de Miss Universo, mas seu sucessor, Nicolás Maduro, 54, estava lá no seu gabinete, no Palácio de Miraflores, para postar mensagem em redes sociais, felicitando-a pelo feito. Depois de Gaby Isler, a Venezuela de sete misses Universo entrou numa crise econômica que fez faltar até silicone para os peitos das candidatas, carne para o McDonald’s produzir os tradicionais Big Macs e açúcar para a Coca Cola local continuar a produzir o refrigerante.

Fotos Time, Twitter e Odebrecht/Divulgação

Piada à parte, o que preocupa neste momento é o desespero de Maduro com a não classificação de Mariam Habach, 21, entre as 13 semifinalistas da 65ª edição do concurso Miss Universo, realizada há três semanas, em Pasay (região metropolitana de Manila). A fúria de Maduro com o fato resultou em medidas mais duras. Na primeira delas, para descontar na brasileira Raíssa Santana, 21, mandou prender dois jornalistas da Rede Record que estavam no país para fazer reportagens sobre o alcance internacional do caso de corrupção da construtora Norberto Odebrecht, metida até à raiz do cabelo não apenas nas denúncias da Operação Lava Jato, mas em outros esquemas de corrupção em contratos feitos nas Américas Central e do Sul e na África. Nem a clemência de página inteira dos jornalões amansou Maduro, que botou o repórter Leandro Stoliar e um cinegrafista na cadeia para serem deportados. A Record, que tem histórico de três transmissões de Miss Universo (1979 a 1981), informou que manterá a produção das matérias sobre o caso Odebrecht. Entidades de defesa como a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) se solidarizaram.
Em outra mostra de desespero por não aceitar os resultados do júri preliminar do concurso de beleza, Maduro mandou cortar das operadoras venezuelanas de TV por assinatura o sinal da CNN en Español. Oficialmente, a motivação seria por uma série de matérias sobre a venda de passaportes venezuelanos na embaixada do país em Bagdá, capital do Iraque. Mentira. Maduro mandou tirar a CNN hispânica de seu país em resposta às decisões de diretores da Miss Universe Organization que teriam desfavorecido Habach. Elas se somaram aos votos dos jurados preliminares que identificaram em Mariam não uma candidata competitiva, mas uma palhaça, ávida para aparecer nos holofotes e obter registros nas agências internacionais. Pesou também contra a Venezuela no Miss Universo 2016 a fanfarronice de Osmel, que deu entrevista à Telemundo confiante de que iria pegar a vaga no top 13. Não é assim que se trabalha.

Ted Alibe/AFP/Getty Images/26.01.2017

Desde a desclassificação de Mariam Habach no Miss Universo 2016, Nicolás Maduro, ex-caminhoneiro empossado no dia 19 de abril de 2013, passou a enxergar nos Estados Unidos da América do Norte o Capeta, o Lúcifer, o Satanás, a Genitália do Boi, enfim, tudo que remetesse ao que ele entende como Demônio e Diabo em termos do que imagina ser “capitalismo selvagem”. Imaturo, Maduro esquece que o Miss Universo é uma competição. Valer-se do cargo presidencial para descontar ódio em brasileiros e americanos é uma coisa que passa do ponto para as mentes mais sensatas. É uma agressão à boa convivência de governantes com coordenadores nacionais. Na mesma linha de autoconfiança excessiva e egocentrismo irresponsável foi a porto-riquenha Desireé Lowry, que não conseguiu emplacar Brenda Jiménez nas semifinais.

Anúncios

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
Esse post foi publicado em Outras Venezuelas, Podres poderes, Projetos especiais, Todas as Venezuelas do mundo e marcado , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s