Em 1992, Marlene Brito, ex-SBT, tentou negociar direitos do Miss Brasil e Miss Universo com a Band


A Globo entrou no circuito e não deixou

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Fotos Miss Universe Organization/Dibulgação/05.1992 e Reprodução/Veja
Eles preferiram o “fora Collor” a reconhecer a independência da Namíbia


Após ter emplacado na Rede Bandeirantes a transmissão do concurso de Miss Mundo Brasil e Miss Mundo em 1991, a produtora Marlene Brito, demitida do SBT em março de 1990 como parte do Plano Collor, começava a tentar uma parceria com a emissora da família Saad para as transmissões dos concursos Miss Brasil 1992 e Miss Universo 1992. Encontrou resistências sobretudo do departamento de Esportes, que em tese, não dava a palavra final sobre o que iria ou não ao ar na Band, mas tinha poder de fogo sobre a grade. Formada com o dinheiro da indenização que recebeu do SBT, a Most of Brazilian Beauty, empresa de Marlene que fechou as portas em 1993, não emplacou grandes resultados no período que representou o Miss Universo no Brasil e trouxe apenas uma classificação, em 1993, com a gaúcha Leila Schuster.
Depois da transmissão do Miss Mundo 1991, já em janeiro de 1992, gravado, um mês após sua realização em Atlanta (EUA), a MBB tentou negociar com a Band os direitos de transmissão do Miss Brasil e do Miss Universo 1992, com possível expansão para os concursos estaduais, então cambaleantes e sem nenhuma fonte de financiamento. Diretores da Band, como João Carlos Saad, o Johnny, viam no ramo dos concursos de misses um bom segmento para diversificar a grade de eventos da Band para além do esporte. Mas o diretor do departamento, Luciano do Valle (1947-2014) era contra. A Luciano interessavam as corridas de Fórmula Indy, o futebol e o futebol americano da bola oval, mas não lidar com uma responsabilidade de dirigir uma empresa de eventos esportivos – a Luqui – que lidasse também com voncursos de beleza, à época um ramo em franca decadência pelas manobras cerebrais e políticas que o SBT sofreu a ponto de o país ficar fora do Miss Universo 1990, Com o “não” de Luciano do Valle, a Band desistiu de fazer negócio com Marlene para ter o Miss Brasil e o Miss Universo na grade de 1992. Mas teria na criação da Rede OM Brasil um grande celeiro para a divulgação dos certames a partir de então. A OM foi parceira da organização do Miss Brasil até 1999, quando já se chamava CNT (Central Nacional de Televisão).
A recusa da Band em transmitir o Miss Brasil e o Miss Universo 1992 tinha um componente importante – a parceria com a Rede Globo pela transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol. Foi a Globo, parceira da CBS e da Miss Universe Inc. (atual Miss Universe Organization) quem deu a [última palavra para liberar ou não a exibição do Miss Universo no Brasil naquele ano. Ao invés de ajudar a indústria dos concursos de beleza na primeira metade da década de 1990, a Globo e a Band só atrapalharam. E fizeram com que Marlene Brito jogasse a toalha como diretora do Miss Universo para o Brasil no segundo semestre de 1993. Abandonada, a franquia brasileira do Miss Universo encontrou abrigo em uma associação de colunistas sociais, a Abracos, aliada com Paulo Max (morto em 1996), apresentador do Miss Brasil até 1980, quando estava sob a gestão dos Diários Associados. Passaria o resto da década na penúria e o país terminou os anos 1990 com o pior aproveitamento na história do Miss Universo – 22,22% em nove participações de 1991 a 1999. Nem Paulo Max, tampouco seus herdeiros tiveram capacidade de negociar os direitos de transmissão do Miss Brasil com emissoras de tevê: o concurso permaneceu bloqueado da pauta da mídia até 2001, quando eclodiu o caso Juliana Borges, já na gestão da Gaeta Promoções e Eventos, iniciada em 1999..

Transição dramática

Em 1988, venceu o contrato de dez anos assinado pelo SBT para transmitir o Miss Universo, assinado em 1979, na época em que a rede se chamava “Emissoras Brasileiras”, embrião da atual rede formado então pelas emissoras da Rede Record no Estado de São Paulo (capital, São José do Rio Preto e Franca) e as da TVS no Rio de Janeiro e Nova Friburgo. O acordo cobriu eleições como a das venezuelanas Maritza Sayalero, Irene Sáez e Barbara Palacios e da chilena Cecilia Bolocco. O último Miss Universo transmitido pelo SBT, em 26 de maio de 1988, foi reprisado no domingo de Carnaval de 1989 para tentar se contrapor às coberturas da Globo, Manchete e Band. O então diretor do SBT, Luciano Callegari, costumava dizer a jornais da época que o SBT era opção para quem não gostava de Carnaval – hoje a rede adota outro discurso e cobre o Carnaval de Salvador, apoiado por sua afiliada local, a TV Aratu.
O contrato de transmissão do SBT para transmitir o Miss Universo a partir de 1989 não foi renovado e os coordenadores estaduais ficaram acreditando nas palavras dos diretores de programação, que nada sabiam sobre se haveria ou não o Miss Brasil 1990. A candidatura de Sílvio Santos ao Palácio do Planalto veio e, com ela, o pânico generalizado dos missólogos aturdidos sobre o que iriam fazer. As eleições presidenciais passara, a candidatura de SS foi impugnada e o Miss Universo saiu das mãos da Paramount para as da MSG Entertainment, que não tinha um naco de interesse sequer de negociar com emissoras brasileiras para a exibição do Miss Universo. A MSG ficou no comando do Miss Universo até 1993, quando o controle foi passado à Procter & Gamble. No segundo semestre de 1995, o concurso já estava nos escaninhos de trabalho do empresário Donald Trump, à época com 48 anos, que ainda nem sequer pensava em ser presidente americano, tampouco se meter em política. Preferia mulheres louras e a consolidação de seu império de negócios, que com a formação da Miss Universe Organization, o colocou de vez no spotlight das atenções dos órgãos de imprensa. Após 1996, o Miss Universo, gradativamente, foi voltando à ordem do dia. Mas para os brasileiros, ainda havia muito a fazer. A começar pelas trocas de coordenadores ineptos por outros que tivessem mais entendimento de mídia, E foi essa inépcia que impediu que, na noite de 7 de maio de 1992, os brasileiros assistissem à coroação da namíbia Michelle McLean, segunda africana a levar a coroa. Também se privou os brasileiros de saber o que ocorria no Black May da Tailândia, país sede do concurso pela primeira vez. Privilegiou-se o circo midiático do Fora Collor, liderado por alguns dos petistas presos na Operação Lava Jato, como José Dirceu e Antônio Palocci.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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