Band perde direitos de comercialização do concurso Miss Brasil a partir de 2017 e vê concessão do Miss Universo para o país cada vez mais longe


Com irregularidades herdadas da antiga administração, brasileiros poderão ser obrigados a torcer por Raíssa Santana apenas na TV paga

Da redação TV em Análise

Lucas Ismael/Organização Miss Brasil Universo/Divulgação/01.10.2016
Prejuízos deixados pela Enter chegam a R$ 44 milhões, aponta auditoria da KPMG

Responsável por fazer do concurso de Miss Brasil uma de suas principais fontes de faturamento, o Grupo Bandeirantes de Comunicação sofreu um duro golpe na tarde desta quinta-feira (27): num memorando interno, a Organização Miss Brasil Universo informou aos 27 coordenadores estaduais que o conglomerado de mídia da família Saad não é mais o responsável por nenhuma ação de comercialização da marca Miss Brasil a partir de agora. A medida começa a surtir efeito para o ciclo de concursos do projeto do Miss Brasil 2017, que ainda não tem data definida.
Detentor dos direitos de transmissão em TV aberta do Miss Brasil e do Miss Universo desde 2003, o Grupo Band só assumiu as rédeas de comercialização de espaços dos concursos do que chamou de Projeto Miss a partir de 2005. À ocasião, a TV Band vendeu cotas de patrocínio para empresas como Casas Bahia, Colgate-Palmolive, Coca-Cola (divisão de sucos) e Ambev. O restante das cotas era de empresas que prestavam apoio à então organizadora do concurso, a Gaeta Promoções e Eventos. Até 2011, vários anunciantes, inclusive órgãos federais como o Banco do Brasil, serviram de patrocinadores dos eventos do Miss Brasil e até mesmo de edições do Miss Universo que a Band transmitiu. Só no ciclo de 2011, a emissora faturou R$ 51 milhões com a venda de espaços publicitários durante quatro meses consecutivos. Era o período da bonança da realização da 60ª edição do Miss Universo no país, na cidade de São Paulo. Órgãos estaduais como a Sabesp também pagaram cotas à Band.
Funcionários da Organização Miss Brasil Universo, joint venture da empresa de varejo Polishop com a agência Ford Models Brasil e o grupo americano de entretenimento WME/IMG, dono do Miss Universo, encontraram uma série de irregularidades nos balanços contábeis que a Band fazia do faturamento de cada edição do Miss Brasil entre 2003 e 2014, ano anterior à chegada da nova gestão. De acordo com dados da empresa de auditoria KPMG, contratada pelo Miss Brasil, a Band falsificou uma série de dados como prejuízos financeiros obtidos com a não transmissão de concursos estaduais, que eram convertidos em lucros por funcionários da área comercial da casa. Os integrantes da “rapa das misses” eram funcionários da extinta Enter, empresa de eventos que o Grupo Band manteve de dezembro de 2010 a janeiro de 2016. Para tentar organizar o Miss Universo 2014 na cidade de Fortaleza, o esquema da Enter falsificou documentos forjando a realização no Centro de Eventos do Ceará, sem ter pago um centavo de franquia à Miss Universe Organization. Um jantar com diretores da entidade e autoridades locais chegou a ser organizado em um restaurante chique da capital cearense, com recursos desviados de programas de educação e saúde.
De acordo com a auditoria interna da KPMG para a Organização Miss Brasil, a Band simulou operações de faturamento dos concursos que transmitia para disfarçar prejuízos com a audiência – de 7 pontos, em 2003, o Miss Brasil desabou para 2,9 em 2014 de acordo com a mediçãop domiciliar da Kantar Ibope Media realizada na Grande São Paulo. No último ano do Miss Brasil sob a bandeira da Enter, a média tinha caído para 2,2, dada a rejeição do público ao formato de desfile de moda. A alteração causou protestos nas redes sociais meses após a gaúcha Marthina Brandt, eleita Miss Brasil ainda pela Band, ter parado entre as 15 semifinalistas de traje de banho do Miss Universo 2015, realizado em Las Vegas. No primeiro ano do Miss Brasil inteiramente administrado pela nova corporação, a média domiciliar subiu para 2,4 na capital paulista, com reflexos no Painel Nacional de Televisão, onde fechou com média de 2,5.

Antares Martins/Organização Miss Brasil Universo/23.07.2016
Miss Rio Grande do Sul foi o único concurso do Projeto Miss 2016 que a Band conseguiu vender cotas

Interlocutores do CEO da Polishop, João Appolinário, estudam uma ação da companhia contra a Band por perdas de danos morais decorrentes da fraude contábil nos anos da Enter. Os detalhes da possível ação não são revelados por estarem sob segredo de Justiça. Estima-se que a quadrilha da Enter tenha deixado ao Miss Brasil um rombo de R$ 44 milhões só no ano de 2015, inviabilizando a escolha da cidade-sede, o que vinha sendo feito desde 2012. Nos dois primeiros anos do Miss Brasil sob o comando parcial ou total da Polishop, o certame foi realizado em São Paulo, para conter gastos da antiga gestão. O caso já foi denunciado ao comando da Miss Universe Organization, em Nova York, que já estuda sanções contra a Band, inclusive a de cancelar o contrato de transmissão em TV aberta do concurso Miss Universo 2016, previsto para daqui a 93 dias, em Pasay (região metropolitana de Manila).

Outro lado

Procurada pela reportagem do TV em Análise Críticas, a direção da Polishop confirmou que está “tomando as medidas judiciais cabíveis para ressarcir a seus cofres o montante subtraído pela antiga gestão do Miss Brasil”. Por outro lado, a direção da Band nega que tenha ocorrido desfalques financeiros na organização do Miss Brasil no período citado na matéria. De acordo com a assessoria jurídica da emissora, “ocorreu um erro grotesco de contabilidade cometido por alguns colaboradores”, que foram “desligados durante reestruturação interna promovida pela empresa, que culminou no encerramento das atividades da Enter”. A KPMG preferiu não se manifestar sobre o caso.
Caso a Band perca o contrato para transmitir o Miss |Universo 2016, a única opção para os torcedores da baiana Raíssa Santana, 21, eleita Miss Brasil pelo Paraná da Operação Lava Jato que mandou para cadeia Eduardo Cunha e outros cânceres do PP, PT e PMDB, poderá ser assistir o certame pela TV por assinatura. A TNT transmite o certame a partir das 18h (horário de Brasília, 17h, horário de Itaberaba).
Entre 2003 e 2004, a Band transmitiu o Miss Brasil com patrocinadores impostos pela Gaeta, que perdeu a concessão do Miss Universo em 25 de setembro de 2011 para a Enter. A Band só pôde comercializar cotas para o Miss Universo a partir de 2004 e exerceu essa função até o concurso de 2014, realizado em 25 de janeiro de 2015. No Miss Universo 2015, a Band já tinha perdido o direito de comercializar espaços.
Dos concursos do Projeto Miss 2016, a Band só conseguiu vender cotas de patrocínio para um único concurso estadual. No Miss Rio Grande do Sul, realizado em 23 de julho, a emissora vendeu espaço para a loja de decoração Etna, ao preço de R$ 125 mil.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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