A 94 dias do Miss Universo 2016, a quem interessava esconder dos brasileiros o concurso de Miss Universo 1994?


Por morte de Ayrton Senna e eleição de FHC, Globo mandou tirar Valéria Péris e Sushmita Sen dos nossos noticiários

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Miss Universe Organization/Divulgação/20.05.1994

A noite de 19 de maio de 1994 passou em brancas nuvens para os fãs dos concursos de beleza. Para nenhuma emissora brasileira, nada acontecia no Centro Internacional de Convenções das Filipinas, em Pasay (região metropolitana de Manila), cidade que vai acolher daqui a 94 dias a 65ª edição do concurso de Miss Universo. Não estava sendo realizada ali a 43ª edição do concurso de Miss Universo, que tinha a participação de candidatas de 77 países. No Planeta Globo, a indiana Sushmita Sen, então com 18 anos, não era a vencedora do concurso. Também não interessava ao Padrão Globo-PCC-Fintástico-PSDB-MPF-Denarc-CCC-Revoltados Online-MBL de Fraldas saber que a paulista Valéria Péris não se classificara entre as semifinalistas. Ao Planeta Globo interessava apenas a dor pela perda de Ayrton Senna do Brasil, ainda sentida por muitos jornalistas que iriam cobrir a Copa do Mundo de dali a menos de 30 dias, nos Estados Unidos. Àquela altura, o Brasil amargava um jejum de 26 anos sem títulos e não repetira o feito do ano anterior com Leila Schustyer na Cidade do México. Valéria foi a Manila boicotada pelo conjunto de elenco da mídia, orquestrada pela Globo e pelo PMDB.
Na visão estreita do Planeta Globo, Manila não foi escolhida sede do Miss Universo 1994 em 24 de outubro de 1993, de acordo com despacho da agência Reuters que nossos órgãos de imprensa jogaram na lata do lixo. Roberto Marinho (1904-2003) ainda era vivo e já instruía seus filhos, agora comandantes-em-chefes do império de comunicação, a dar ordens para que nenhum jornal, emissora de rádio ou televisão ou revista, inclusive a Manchete de seu amigão Adolpho Bloch (1908-1995), desse uma fotinho sequer ou lauda de texto ou sonora de reportagem. Como resultado da ignorância orquestrada pela Globo e seguida pelos outros grupos de comunicação hegemônicos do país – Bloch, Sílvio Santos, Bandeirantes, Folha, Estado, Jornal do Brasil e Diários Associados, varreu-se o Miss Universo 1994 dos nossos lares em nome de uma “censura branca” imposta também ao Miss Brasil desde 1991. Usar prepostos como Marlene Brito e Paulo Max e seus herdeiros foi a gota d’água para o subdesenvolvimento do Brasil no Miss Universo durante a década de 1990, feito em nome do projeto da fabricação em massa de supermodelos. Mas, e os concursos de misses? Ficariam fora da agenda jornalística e dos programas de entretenimento? Ficariam na ilegalidade assim como ficaram o PCB, o PCdoB e a UNE, União Nacional dos Estudantes, durante o regime militar?
Em meados de abril, as candidatas ao Miss Universo 1994 desembarcaram em Manila e cumpriram quatro semanas de atividades. No meio delas, ocorreu o acidente que ceifaria a curva de Senna na curva Tamborello do autódromo de Imola, na Itália (Imola foi um código usado pela futura ex-fazendeira e pastora Andressa Urach, à época uma criancinha em Ijuí, no interior do Rio Grande do Sul, quando, já na fase adulta, campeava pelo mundo da prostituição de luxo do famigerado Book Rosa). Isso, a imprensa campeada e comprada pela Globo não noticiou. Anunciantes da Globo como Nestlé, Kodak e Hertz financiaram os US$ 5,3 milhões (R$ 16,6 milhões, em valores atualizados e corrigidos pela inflação) necessários à organização do concurso. Era esperado um lucro de US$ 357 mil (R$ 1,1 milhão), de acordo com nota da Agência France Presse do dia 16 de março de 1994, acompanhado da exposição de mídia que só não foi maior porque a imprensa do Brasil boicotou o concurso. Para os cálculos de lucros, foram usados valores em pesos filipinos, que em dólares americanos e reais, puxaram a coisa para baixo.

Miss Universe Organization/Divulgação/20.05.1994

Miss Universe Organization/Divulgação/20.05.1994

Até o concurso de 1989, realizado em Cancún (costa leste do México), o Brasil era um dos mercados que mais consumia informações relativas ao Miss Universo e gerava lucro à sua organização, à época sediada em Los Angeles. O acordo com o SBT, “preso” pelos anunciantes da Globo e pela pressão de entidades feministas e deputados ligadas a partidos de esquerda como PT, PSB e PCdoB, que na época tinham alas radicais contrárias aos concursos de beleza, bases fundadoras dos atuais PCO, PSTU, PSOL e Rede Sustentabilidade, fez o país se afastar dos holofotes do certame de forma gradativa. O contrato do SBT com a Miss Universe Inc. expirou em abril de 1991, na mesma época que a emissora anunciava em nota às afiliadas o cancelamento do concurso Miss Brasil 1981. Também jogou-se fora a oportunidade de transmitir o Miss Universo 1991, no dia 17 de maio, direto de Las Vegas. E assim o foi feito de 1992 a 1997 e 1999 a 2002. Se o próprio SBT não incorresse na infantilidade de não transmitir o Miss Universo 1994, o caixa da organização filipina do concurso poderia ter sido maior. O agravante estava no Miss Brasil, já jogado às ratazanas pelos prepostos da Globo e impedido de ser televisionado por pressão dos filhos de Roberto Marinho, que àquela altura, já mandavam na Globo, na verba e no verbo dos brasileiros.
Ironicamente, o Miss Universo 1994 esteve sob ataque de um movimento ligado ao PCdoB filipino, um tal de Movimento Nacionalista das Novas Mulheres, ligado à Frente Nacional Democrática. Deputados criticaram os gastos do Estado com a organização do certame, a despeito de ter o apoio do presidente Fidel Ramos, 88. Esta foi outra história que os meios de comunicação arregimentados pela Globo e suas marionetes no Congresso Nacional empesteado de ladrões não deixaram que viessem a entrar nos nossos noticiários.
Para o final de semana do certame, havia preocupação com blecautes, fato esse também solenemente ignorado por nossa mídia. Na véspera do Miss Universo 1994, uma bomba caseira explodiu, sem causar maiores danos. Mais de 3 mil policiais e dezenas de policiais femininas foram destacados para proteger as candidatas. No mesmo mês, ocorreram denúncias da Comissão de Direitos Humanos de ações policiais violentas para tirar meninos de rua durante o período do certame. A ação foi entendida como uma forma de “limpar” a imagem de Manila durante a realização do concurso. A candidata da Tailândia, Areeya Sirisopha Chumsai, criticou a ação, preocupada com fatos que ocorreram em seu país durante o Miss Universo 1992.
Também passou ao largo da mídia nativa brasileira a estreia da Rússia já como país independente, destacado da extinta União Soviética e da Comunidade de Estados Independentes. Inna Zobova, primeira candidata do país a participar do certame, então com 17 anos, foi detida por 15 horas no aeroporto de Bangcoc e trancada numa sala sem janela porque não tinha visto de trânsito. Muitas outras controvérsias cercando a organização do Miss Universo 1994 foram ignoradas pela mídia nativa, como o pedido de desculpas da candidata da Malásia, Liza Koh, pela prisão de 1.200 noivas filipinas em Kuala Lumpur. O episódio fez com que o Ministério das Relações Exteriores do país advertisse a candidata para não que não fizesse declarações de cunho político.
Para o Planeta Globo, que durante a realização do Miss Universo 1994 já procurava “milagres” para canonizar Senna, nada do que acontecia com as misses em Manila era objeto de pauta, nota coberta, nota pelada, matéria, sonora ou o que fosse para seus telejornais e radiojornais. Nem mesmo a consagração indiana de Sushmita no concurso interessou ao consórcio de órgãos de imprensa àquela altura interessados mais na eleição do senhor Fernando Henrique Cardoso (PSDB) como presidente da República do que em apoiar nossas representantes no Miss Universo, principal vitrina dos concursos de beleza já satanizados por uma mídia corporativista e terrorista.
No vídeo abaixo, o concurso que a Globo mandou censurar:

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
Esse post foi publicado em Globelezação, Jóia da coroa, Nossas Venezuelas, Poderes ocultos, Podres poderes, Projetos especiais, Todas as Venezuelas do mundo e marcado , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para A 94 dias do Miss Universo 2016, a quem interessava esconder dos brasileiros o concurso de Miss Universo 1994?

  1. Pingback: Audiência americana do concurso Miss Universo 1994 foi a segunda menor da década de 1990 | TV em Análise Críticas

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s