EXCLUSIVO; Ex-auditor da KPMG confirma que eleição de Raíssa Santana como Miss Brasil 2016 foi fraudada


Sozinha, Polishop teria recebido mais de R$ 8 milhões de um esquema de propinas que pode ser o maior da história do certame

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Lucas Ismael/Organização Miss Brasil Universo/Divulgação/01.10.2016
Vitória de baiana que competiu pelo Paraná teria ocorrido através de Race Card formulado por produtores ligados ao PSDB e movimentos pró-impeachment

Um auditor recentemente demitido pela firma de auditoria KPMG procurou o TV em Análise Críticas para denunciar um esquema de corrupção envolvendo funcionários da empresa de varejo Polishop e até mesmo o presidente da companhia, João Appolinário, que manobrou o resultado final do concurso Miss Brasil 2016 para prejudicar candidatas da região Nordeste e favorecer candidatas da região Sul. De acordo com o funcionário, que pediu para não ter identificado, papeletas com dinheiro em espécie e cheques teriam circulado entre os jurados do concurso, realizado no sábado (1º), na casa de espetáculos Citibank Hall, na zona oeste de São Paulo.
Pelo resultado que determinou as cinco finalistas do concurso que escolheu a representante brasileira no Miss Universo 2016, estavam classificadas as candidatas de Alagoas, Gabriela Marinho, do Paraná, Raíssa Santana, do Maranhão, Deise D’anne, do Rio Grande do Norte, Danielle Marion, e do Ceará, Morgana Carlos. De acordo com o ex-funcionário da KPMG, produtores do concurso a serviço da Polishop, com credenciais da Rede Bandeirantes, carregavam bilhetes com recomendações de Appolinário pedindo “encarecidamente” aos jurados que não classificassem Gabriela, Deise ou Danielle entre as três finalistas reservadas ao anúncio do resultado final. Ao lado de cada bilhete, estavam quantias em espécie que variavam de R$ 150 mil a R$ 375 mil e cheques ao portador estimados em R$ 25 mil cada. Somado, todo o esquema de propinas do Miss Brasil 2016 teria rendido à Polishop cerca de R$ 8,5 milhões, de acordo com a denúncia.
“Somente o fato de terem colocado duas negras entre as cinco finalistas do Miss Brasil 2016 já denotava um ambiente que já configurava fabricação de factoides por parte da grande imprensa na segunda-feira seguinte ao concurso, portanto, o primeiro dia útil após o concurso Miss Brasil 2016”, assinala o auditor, que diz ter provas de ter recebido comprovantes de pagamento da Polishop como “gratificação pelos serviços prestados”. Gratificação, entenda-se, agradecimento por ter participado da maior fraude da história do Miss Brasil em seus 62 anos de existência. “Martha Rocha e galinheiro de puteiro perdem diante disso”, arrematou.
A empresa americana KPMG esteve em seu primeiro ano de auditoria do Miss Brasil e seu trabalho chegou a ser elogiado pela Organização Miss Brasil Universo, joint venture formada pela Polishop, WME/IMG, Ford Models Brasil e Grupo Bandeirantes de Comunicação, durante o processo de realização dos concursos estaduais válidos pelo Miss Brasil 2016. Agora, todo esse elogio está posto à prova com a denúncia do auditor que chamaremos de “Fonte Milagrosa”.
Entre 2005 e 2016, de acordo com a revista Exame, a KPMG participou de esquemas de fraude contábil envolvendo companhias como a Portugal Telecom, Xerox e o banco brasileiro BVA, que fechou as portas em 2014. Em 28 de junho, a empresa de auditoria do Miss Brasil foi alvo da Operação Boca Livre, da Polícia Federal, que apura fraudes na Lei Rouanet de incentivo à cultura, criada em 1991 no governo do hoje senador Fernando Collor (PTC-AL), apontado, ao lado do também senador e presidente do Congresso Nacional, Renan Calheiros (PMDB-AL), como financiador de uma possível eleição de Gabriela Marinho como Miss Brasil 2016, o que acabou não acontecendo.

André Gonçalves/Gazeta do Povo/18.02.2014
Álvaro Dias vs Gleisi Hoffman: apesar das diferenças ideológicas no impeachment, na hora de comemorar o título de Miss Brasil para seu Estado, PT saudações

Antes da KPMG, outras firmas como a BDO e a Ernst&Young trabalharam para a organização do Miss Brasil desde 2003, ano em que a Band comprou junto da Gaeta Promoções e Eventos e da Rede Globo os direitos tanto do concurso nacional quanto do Miss Universo, prestando serviços de auditoria, com o intuito de combater a indústria da compra de resultados, que existia desde a época em que os Diários e Emissoras Associados coordenavam o concurso. Entre 1955 e 1989 (ano em que o Miss Brasil já estava no SBT), era comum políticos sobretudo da região Nordeste obterem favores para beneficiar suas candidatas em troca de votos para seus currais eleitorais. Na região sul, Raíssa Santana, apesar de nascida em Itaberaba (289 km a oeste de Salvador), competiu pelo Paraná dos senadores Álvaro Dias (PV) e Gleisi Hoffmann (PT), que, a despeito das diferenças ideológicas sobretudo no impedimento da ex-presidenta Dilma Rousseff, usaram seus perfis de Facebook para saudar sua eleição no concurso nacional. Das três finalistas do Miss Brasil 2016, duas eram da região Nordeste – Deise D’anne do Maranhão pós-Sarney e Danielle Marion do Rio Grande do Norte de José Agripino Maia, Garibaldi Alves e quadrilha, que detém, além do poder patriarcal, concessões de rádio e televisão que ditam o verbo e a verba dos potiguares, determinando o que eles devem ou não saber.

Outro lado

Procurada pela reportagem do Críticas, a KPMG diz estar adotando uma política antifraudes nos eventos dos quais audita, como é o caso do Miss Brasil e de alguns concursos estaduais a ele ligados e assegura “a correção dos resultados apurados junto aos jurados da final nacional de 1º de outubro de 2016”. As direções da Polishop e da Band não foram encontradas para comentar o caso.

Tentativa de Race Card

De acordo com a “Fonte Milagrosa”, diretores da Band ligados ao PSDB e a movimentos de extrema direita que apoiaram o impeachment tentaram em vão impedir que Raíssa Santana e Deise D’anne fossem classificadas entre as três finalistas. “Esse pessoal da Band, ligado ao MBL, ao Vem Pra Rua e ao Revoltados Online, esse povo do golpe, do impeachment da Dilma, queria a todo custo implantar nas mentes dos jurados a ideia de que a Gabriela Marinho deveria ser a Miss Brasil 2016 e não essa negrada. Tinha uns dois ou três diretores da Band, ligados ao PSDB, que queriam a torto e a direito que a Sabrina de Paiva, candidata de São Paulo, fosse eleita, mas ela acabou caindo na fase de trajes de banho (do maiô, ela não avançou para a parte de biquíni, a mais importante para mensuração de nota nos padrões do Miss Universo). Como a Sabrina caiu fora, fizeram uma espécie de Race Card, desses da época do O.J. Simpson sendo julgado, tentando ver quais negras (eram seis no total) conseguiriam continuar até chegar ao top 3. E foi o que acabou acontecendo”, relata o auditor.
Segundo a “Fonte”, diretores da Band e da Polishop se desentenderam feio nos bastidores do Miss Brasil 2016 após a classificação de Raíssa e Deise entre as cinco finalistas e depois entre as três, com trocas mútuas de acusações e ofensas, inclusive com palavras mais pesadas de baixíssimo calão. “Houve uma gritaria terrível entre coordenadores estaduais que acusavam a Band e a Polishop de fraude, com gritos de ‘ladrão, ladrão, ladrão, ladrão!’ dirigidos ao Appolinário depois que a Gabriela Marinho caiu fora. Esses artistas da Globo (Cássio Reis e Daniele Suzuki) que foram apresentar o certame ficaram com cara de paisagem. E o concurso seguiu normalmente depois disso e não vi mai ninguém detratando nem a Band, tampouco a Polishop. E o que se viu no dia seguinte? Um montão de matérias elogiosas à Raíssa Santana, todas pagas pelo complô da KPMG com os organizadores”, arremata. Pano ultra rápido.

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Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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