Miss Brasil 2016 foi derrota política para Collor e Renan e ceifou sonho de miss baseado no caixa 2 de campanhas


Velhas raposas do coronelismo eleitoral alagoano tentaram em vão convencer jurados do projeto que Gabriela Marinho tinha para o Miss Universo 2016: acabar com um atoleiro de 48 anos sem títulos para o país, em um continente hostil às nossas misses

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Lucas Ismael/Organização Miss Brasil Universo/01.10.2016

A desclassificação da modelo Gabriela Marinho, 22, do quadro de três finalistas do concurso Miss Brasil 2016, realizado no sábado (1º), no Citibank Hall, em São Paulo, foi um duro golpe para as oligarquias dos senadores Fernando Collor (PTC) e Renan Calheriros (PMDB), que tentaram usar de sua influência política para tentar “dobrar” os 10 jurados da etapa brasileira do Miss Universo 2016 aos velhos métodos da corrupção eleitoral que ainda campeia na política nordestina, sobretudo nas pequenas cidades do interior, muito antes mesmo do bipartidarismo imposto pelo Golpe Militar de 1964, que reduziu PSD, PSP, PTB e UDN a Arena e MDB. Na Alagoas de Gabriela Marinho, a corrupção eleitoral é um câncer que já derrubou um presidente da República – o próprio Collor, acuado pelas manifestações dos caras-pintadas, de intelectuais e da sociedade civil, respaldadas por órgãos de imprensa e redes de rádio e televisão. Essa praga se arrasta desde a República Velha do Marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892), primeiro presidente do Brasil após a ida da família real de Dom Pedro II para Lisboa, em 1889 e a Proclamação da República.

Estadão Conteúdio/17.12.1989

A corrupção eleitoral dessas raposas (Collor e Renan), aliadas ao jogo sujo do caixa 2 de campanhas eleitorais para prefeitos e vereadores da cidade natal da Miss Alagoas 2016, a capital do Estado, Maceió, contaminou as chances de Gabriela Marinho ser Miss Brasil 2016 logo nas duas mesas destinadas aos jurados, montadas no Citibank Hall. Fiscais da KPMG, empresa de auditoria contratada pela Organização Miss Brasil Universo, descobriram uma série de bilhetes emitidos por políticos ligados a Collor e Calheiros, aliados de primeira hora quando da eleição do primeiro para o Palácio dos Martírios, sede do Governo alagoano, em 15 de novembro de 1986, pedindo votos para Gabriela em troca de dinheiro e favores para os candidatos que viessem a apoiar em segundo turno – Rui Palmeira (PSDB) e Cícero Almeida (PMDB) disputarão os votos dos eleitores de Maceió no domingo (30). Collor e Renan vão apoiar Cícero Almeida, cuja situação já não é nada boa, de acordo com a empresa Paraná Pesquisa, a vantagem é de 54,8% a 29,1% das intenções de voto a favor do candidato do PSDB, de acordo com pesquisa divulgada nesta quarta-feira (12), registrada no Tribunal Regional Eleitoral.
Na história do Miss Brasil, este é o primeiro caso público demonstrado de corrupção eleitoral em troca de votos para tentar instar a candidata de um determinado Estado – no caso, Alagoas – a ser eleita Miss Brasil de um ano eleitoral, no caso, 2016. Em anos eleitorais anteriores, era comum a Miss Brasil ser eleita até no máximo uma semana antes da eleição fosse ela municipal ou geral (presidente, governadores, senadores e deputados federais e deputados estaduais ou distritais). Na ditadura militar, era comum os coronéis aliados da Arena, partido de sustentação do autoritarismo, pedirem votos aos jurados do Miss Brasil e a diretores dos Diários Associados em troca de concessões de televisão do grupo para seus Estados. A Rede Tupi foi fechada no segundo ano do governo do general João Figueiredo (1918-1999), logo, os coronéis nordestinos foram se socorrer ao animador Sílvio Santos, que levara um dos lotes de emissoras, para classificar candidatas de seus Estados pelo mesmo método. Na medida que Maranhão, Piauí, Ceará, Alagoas e outros fossem se classificando no Miss Brasil, o Ministério das Comunicações dava concessões de emissoras do SBT (Sistema Brasileiro de Televisão) para esses Estados. A de Maceió, infelizmente, só entrou no ar depois que o SBT perdera os direitos do Miss Brasil e do Miss Universo para a Globo, em 1991.
À diferença do SBT, a Bandeirantes, atual detentora dos direitos dos dois concursos, já era uma rede estabelecida em 2003, quando começou a exibi-los. Porém, com os buracos que foram se formando com a saída de emissoras em Maceió (2005 para o SBT) e Palmas (2015, emissora própria fechada por contenção de despesas), a Band começou a perder força para organizar as 27 etapas estaduais do Miss Brasil. Passou as licenças da Miss Universe Organization no Brasil para a Polishop em 31 de outubro de 2015 e fechou sua empresa de eventos, a Enter, no dia 12 de janeiro de 2016. Os funcionários da Band que trabalhavam para o Miss Universo foram transferidos para uma empresa criada pela Polishop e pela Ford Models, em associação com o grupo americano WME/IMG, apenas para gerir os interesses do Miss Brasil e do Miss Universo no Brasil.
A falta de presença física da Band em parte dos Estados que compete no Miss Brasil, incluindo Alagoas, contribuiu para agravar bastante as práticas coronelistas de corrupção eleitoral, suborno, voto de cabresto, tráfico de influência e troca de favores no seio das respectivas coordenações estaduais. O sergipano Deivide Barbosa caiu em maio de 2015 depois que uma dessas denúncias explodiu no colo dfa coordenação do concurso de Miss Sergipe. Márcio Mattos perdeu a carteira de coordenador do Miss Alagoas em novembro de 2015. A concessão do certame, a exemplo do que já acontece em Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e Tocantins é tutelada pelo consórcio da Polishop.
Além de Deivide e Márcio, também caiu a coordenadora do Mato Grosso do Sul, Melissa Tamaciro, acusada de cancelar o concurso Miss Mato Grosso do Sul 2013 para atender a interesses eleitorais de um prefeito do PSDB. Ela renunciou ao cargo em 28 de maio de 2015. Para o Miss Brasil 2015, Mato Grosso do Sul contou com uma seletiva promovida pela Band, a única de sua história. Para o ciclo do Miss Brasil 2016, a reforma das coordenações estaduais fez com que o mato-grossense Warner Willion, responsável por três títulos de Miss Brasil para o Mato Grosso ao norte, assumisse também as chaves do Miss Mato Grosso do Sul, uma das mais importantes concessões estaduais do Miss Brasil desde sua criação, em 1979.

Lucas Ismael/Organização Miss Brasil Universo/01.10.2016

Ironicamente, a pergunta formulada à candidata alagoana pela jurada Leila Schuster, 43, aclamada Miss Brasil em 1993 e semifinalista do Miss Universo do mesmo ano na Cidade do México, versava sobre a seca de títulos para o Brasil no Miss Universo. Na resposta, Gabriela Marinho escondeu que o verdadeiro intento com uma eventual vitória brasileira no Miss Universo será uma ampla moralização nas 18 coordenações estaduais franqueadas do Miss Brasil. Acabou fazendo uma lavação em cima do nome de João Appolinário, atual coronel do Miss Universo para o Brasil, com o respaldo de João Dória Júnior, Geraldo Alckmin, Fernando Henrique Cardoso, Fernando Holiday, Janaína Pascoal, Kim Kataguiri, Marcello Reis, Paulo Demchuk, Rogério Chequer e Alexandre Frota, que quer acabar com a Educação Física como disciplina obrigatória nas escolas, violando a carta de compromissos do Brasil junto ao Comitê Olímpico Internacional, como parte do legado deixado pela Olimpíada do Rio de Janeiro, em agosto último.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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