Band coloca funcionária na direção da Organização Miss Brasil Universo para dificultar negociações de João Appolinário com a Rede Globo por contratos futuros de transmissão


Karina Ades assume vaga que já pertenceu a ex-ministro do (des)governo FHC

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Lucas Ismael/Organização Miss Brasil Universo/24.09.2016
Maior problema de Ades é com coordenadores estaduais que não aceitam seus métodos de trabalho

A nomeação da diretora de cinema Karina Ades, gerente artística do canal pago Arte 1, para a direção da Organização Miss Brasil Universo levanta um indício cada vez mais forte de interferência do Grupo Bandeirantes de Comunicação nos cargos mais importantes do corpo diretivo da entidade que, desde janeiro, detém a concessão do concurso de Miss Universo para o Brasil. Gerida por um consórcio formado pela empresa de televendas Polishop, pela agência de modelos Ford Models Brasil e pelo grupo norte-americano de entretenimento WME/IMG, a nova estrutura de organização do Miss Brasil chega a seu debute como pessoa jurídica engessada pelas conveniências da ainda contratante dos negócios do Miss Universo para o Brasil, a Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão. Ainda, pelo ponto de vista do contrato renovado na surdina no final de setembro de 2015, na sede da WME/IMG, em Beverly Hills, na presença dos chefes do grupo, Ari Emanuel, 55, e Patrick Whitesell, 51.
De 2003 a 2011, a Band tem transmitido o Miss Brasil e o Miss Universo mediante acordos e aditivos assinados com a Gaeta Promoções e Eventos, que detinha esse direito desde 1999, mas não os repassava a nenhuma emissora a pedido da Rede Globo, detentora na prática à época desses direitos, que usava a Gaeta como preposta. Durante toda a década de 1990, a Globo se assenhorou do Miss Brasil para impedir que qualquer emissora o transmitisse, bem como o Miss Universo e o Miss Mundo, únicos concursos internacionais de beleza televisionados no país, cujos direitos pertenceram ao SBT de 1982 a 1988.
E foi no período da Globo que o Brasil conheceu seus piores resultados no concurso de Miss Universo, obtendo apenas duas classificações entre as semifinalistas. Na década anterior, a de 1980, o país tivera quatro classificações não consecutivas. Com a chegada da Band à organização do Miss Brasil, o país obteve três classificações entre as semifinalistas nos anos 2000 e cinco nos anos 2010, até agora. Parte desses resultados positivos para o país no Miss Universo veio na gestão de Ades em cargos intermediários da extinta Enter e depois, na função atual, iniciada em 1º de novembro de 2015. Na gestão da Gaeta, Ades estava no andar de baixo, no posto de roadie da produção das transmissões do Miss Brasil e de concursos regionais promovidos pela Band desde o ciclo de 2004. Tinha de responder às ordens dos chefes da quadrilha da Gaeta, Boanerges Gaeta Jr. e Nayla Micherif, coordenadores da masmorra brasileira no Miss Universo a qual só acabaria em casa, com o terceiro lugar da gaúcha Priscila Machado, em 12 de setembro de 2011.
Com a chegada da Enter e da Band à coordenação nacional do Miss Universo, em 25 de setembro de 2011, Karina Ades foi promovida de posto. De produtora, passou a diretora geral das transmissões inerentes ao Projeto Miss, inclusive as de emissoras afiliadas, que, na prática, não tinham poder nenhum para produzir nada. Tinham de se submeter às vontades do esquema da Gaeta, que nomeava afiliadas do SBT, Globo, Rede TV! e até mesmo algumas TVs educativas para transmitir os concursos estaduais, fazendo um verdadeiro assalto aos cofres públicos. Com a Enter/Band na coordenação do Miss Brasil, as bandalheiras das coordenações estaduais com o “esquema Globo” acabaram. Todas tiveram que aceitar a agenda da Band ou não teriam concurso estadual transmitido de maneira alguma. É o que acontece desde 2011 com o concurso de Miss Piauí, cujo coordenador, Nelito Marques, 72, espera pela implantação da emissora própria da Band em Teresina para poder colocar seu concurso de volta à tela da TV, depois de seis anos. Caso a Band Piauí saia do papel, o Miss Piauí 2017 poderá ter transmissão garantida.
A principal função de Karina Ades na direção do Miss Brasil não é fiscalizar as etapas estaduais, mas a advogar pelos interesses da Band junto aos coordenadores estaduais. Alguns, como o paraense Herculano Silva, tem se mostrado reticentes em permitir a transmissão de seus eventos a despeito dos pedidos de Ades para que certames como o Miss Pará sejam televisionados. Muitos coordenadores culpam a não transmissão de seus eventos devido ao calendário imposto pela Band, que exige a realização dos certames locais aos sábados, o que os coordenadores fora do eixo São Paulo-Rio Grande do Sul não aceitam. Bahia, Ceará, Goiás, Paraná, Pernambuco e Rio Grande do Norte realizaram seus certames em dias úteis, mas não conseguiram permissão da Band para transmiti-los ao vivo na data de sua organização. Por causa de uma prova da IndyCar, o Miss Santa Catarina 2016 foi gravado para ir ao ar após a corrida do Texas, realizada no dia 27 de agosto.
Se Karina Ades tivesse agido mais fundo nos bastidores para apartar as insatisfações de certos coordenadores estaduais, como os do Pará e do Amazonas, o ciclo do Miss Brasil 2016 teria chegado a 12 concursos estaduais transmitidos local ou nacionalmente. Não chegou a essa meta. Muitos coordenadores já estão se queixando dos métodos de trabalho impostos por Ades às afiliadas da Band, muitas delas sem equipamentos de transmissão externa ao vivo em alta definição (720×1080 ou 16:9). As emissoras que tem esse tipo de equipamento só possuem material na definição padrão (480×720 ou 4:3). É exatamente por conta do zelo técnico exigido que o empresário João Appolinário, 51, quer tirar o Miss Brasil da Rede Bandeirantes após a conclusão do contrato com a Miss Universe Organization e a WME/IMG, em 2020. A meta do CEO da Polishop é colocar os 27 concursos estaduais em HD antes de 2019, mas tal meta não será possível: muitos coordenadores estaduais sequer possuem pessoas jurídicas formadas para a promoção de seus certames, o que dificulta a entrada das afiliadas da Band no negócio da maioria dos concursos estaduais, sobretudo nas regiões norte, nordeste (salvo exceções) e centro-oeste. No sudeste, apenas o concurso de São Paulo foi televisionado no ciclo de 2016. Todos os da região sul foram transmitidos.
Levar os concursos estaduais para grupos regionais poderosos como Anhanguera, RBS, Rede Mato-grossense de Televisão e Rede Amazônica, apenas para citar os grupos de afiliadas da Rede Globo com presença em mais de uma capital de Estado, não será uma tarefa nada fácil para Appolinário, que como gestor da Organização Miss Brasil Universo, terá de se submeter por mais mais quatro anos às humilhações impostas pela Band aos coordenadores regionais. Parte deles já ameaça abandonar o ramo após o Miss Brasil 2016, independentemente do resultado do concurso de daqui a cinco dias, no Citibank Hall paulistano. Colocar os certames de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Distrito Federal e Pernambuco nas mãos das emissoras próprias da Globo será outro processo ainda mais dramático. Vai envolver conversações doloridas com coordenadores municipais, parte deles reticente em ceder seus certames ao modus operandi da família Marinho, o qual já derrubou ministros, presidentes, governadores de Estado e até técnicos da Seleção Brasileira de Futebol masculino e dinamitou a Seleção Permanente de Futebol Feminino, bem como os campeonatos de futebol feminino, o Brasileirão das divisões inferiores (B, C e D), bem como os campeonatos estaduais de futebol das divisões de acesso.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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