Em 1987, Sílvio Santos desistiu dos concursos de misses porque gente do PT, do PCdoB e da Rede Globo agiu ‘em nome das normas padrão da publicidade brasileira’


Foi a primeira tentativa de livrar o SBT “do mal”, “do brega” e da “coisa ruim”

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise
(Atualizado em 31/8/2016 às 13h53)

Reprodução (via Mercado Livre)


Manchete: revista entusiasta de uma causa já perdida

Ao anunciar a contratação do humorista Jô Soares, na primeira quinzena de setembro de 1987, o empresário e apresentador Sílvio Santos, 85, na prática, estava dando início a um plano de desmonte da estrutura organizacional dos concursos de misses que tinha consolidado a partir de 1981, quando assumiu a concessão do Miss Universo para o Brasil. Nos estertores, a contratação de Jô foi uma jogada para que, a médio prazo, o SBT, rede de Sílvio, se livrasse do que lhe era seu evento mais importante e passasse, no futuro, a disputar os direitos de grandes premiações de entretenimento americanas, como o Grammy e o Oscar, estes nas mãos da Rede Globo. E foi exatamente a partir da Globo que partiu o principal petardo para que Sílvio Santos começasse a desinvestir nos concursos.
Instada por setores ligados a deputados federais do PT e PC do B, a Globo fez gestões junto às grandes agências e anunciantes e a entidades que regulam o setor, como o Conar (Conselho Nacional de Auto Regulamentação Publicitária). Parte das agências filiadas à ABAP (Associação Brasileira de Agências de Propaganda) tinha clientes anunciando nos concursos de misses do SBT, o que era visto com maus olhos pelo presidente das Organizações Globo, o jornalista Roberto Marinho (1904-2003), e por seu filho, Roberto Irineu Marinho, vice-presidente da Rede Globo. Nas entranhas, a Globo criou um “plano B” para tirar do SBT a exclusividade do Miss Universo e do Miss Mundo para a televisão aberta brasileira. Nessa época, meios como Internet e serviços de streaming ainda não existiam. A difusão dos certames era feita boca a boca e através de correspondências, no caso dos concursos internacionais. Principal entusiasta da causa dos concursos de misses na mídia impressa, a revista Manchete só jogaria a toalha em 1991, quando o Miss Brasil não teve transmissão televisiva. Já se fazia sentir pelos efeitos maléficos da imposição que a Globo já fizera aos concursos de beleza feminina.
Pouco depois da contratação de Jô Soares, Sílvio Santos gravaria o concurso Miss Mundo Brasil 1987, no início de novembro, no Teatro da Ataliba Leonel, perto da extinta Casa de Detenção de São Paulo. Mal sabia ele que um jornal do Recife – o Jornal do Commercio – vazara o resultado do evento antes mesmo de ir ao ar. Mandou suspender de imediato todas as chamadas. Mesmo assim, o concurso foi ao ar porque todos os espaços comerciais já estavam pagos. Todas as quatro cotas de patrocínio já estavam vendidas. Após uma licença para tratar de um problema nas cordas vocais, Sílvio Santos autorizou a produção dos concursos do ciclo do Miss Brasil 1988. No entanto, sem os concursos estaduais de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, cuja responsabilidade foi toda jogada para as emissoras regionais. O mesmo já valia desde 1983 para os concursos estaduais de emissoras afiliadas. No entanto, a tentativa de padronização proposta por Sílvio não foi bem recebida pelas agências e anunciantes que desejavam anunciar no horário nobre do SBT após a contratação de Jô Soares. Publicitários como Eduardo Fischer, Roberto Justus e Washington Olivetto (este, responsável pelas campanhas impressas do SBT) não teriam gostado do modelo “econômico” de se fazer o Miss Brasil 1988 sem os estaduais no Programa Sílvio Santos. Ao invés de atrair anunciantes, a etapa brasileira do Miss Universo 1988 só fez afugentá-los. E, doente, Sílvio Santos mandou que a coordenadora Marlene Brito fosse atrás de um apresentador da TV Corcovado (atual CNT) chamado Murilo Néri. No dia 7 de abril de 1988, fez-se a gravação do Miss Brasil 88 para ir ao ar na noite seguinte, com um júri mais compacto em relação a anos anteriores e sem a pompa que lhe era usual. A eleição da representante brasileira no Miss Universo 1988, ao invés do sistema de pontos, vigente desde 1981, se fez por votação nominal. O resultado foi extremamente danoso à audiência usual do certame, bastante ofuscada pela estreia, na Globo, do telefilme O Dia Seguinte, que tratava de uma explosão nuclear. À semelhança do Miss Brasil do SBT, só o cenário de apocalipse que já se avistava.

Reprodução (via Mercado Livre)


Com Deise Nunes e Jacqueline Meirelles: ataques na Folha e farra do boi

A eleição da catarinense Isabel Cristina Beduschi de forma semi biônica, em pleno palco do Teatro Sílvio Santos, encheu as seções de cartas dos principais jornais do país de comentários raivosos contra a então coreógrafa do certame, Joice Kermann, morta em 2008. Parte deles associava o Estado natal da então Miss Brasil, Santa Catarina, à prática da “farra do boi” bastante criticada por ambientalistas, muitos deles ligados ao PT da ex-presidente Dilma Rousseff. Especulava-se, dentro do SBT, que os ataques a Isabel Cristina não passavam de ardis lançados por artistas da Globo ligados ao PT, PCB e PC do B, partidos de esquerda à época, para desestabilizarem a imagem do concurso, já abalada por outras acusações de manipulação de resultados, nunca tornadas públicas anteriormente. No Miss Universo 1988 realizado em Taipé (Taiwan), Isabel Beduschi não se classificou entre as 10 semifinalistas. Para o ciclo de programação que começaria em agosto, o SBT já tinha decidido jogar a toalha em relação ao Miss Mundo Brasil e ao Miss Mundo. Tudo para não desagradar à cartilha de “etiqueta e boas maneiras” do mercado publicitário que a Globo propunha aos anunciantes que quisessem inserir comerciais de seus grandes clientes também no SBT. Mas não em relação ao Miss Universo: ainda havia um resto de contrato a cumprir, que expiraria apenas em 1991. A produção do ciclo de concursos do Miss Brasil 1989, para não desagradar os “anunciantes exigentes”, foi feita de forma discreta, sem causar maiores alaridos. As afiliadas e emissoras regionais do SBT, mais uma vez, ficaram com o ônus de elegerem ou aclamarem as candidatas dos Estados e do Distrito Federal. Nessa época, o SBT só não tinha afiliadas em Alagoas, Roraima e Tocantins, inauguradas depois que os concursos tinham saído da grade.

Reprodução (via Mercado Livre)


Beduschi ficou fora das semifinais em Taiwan

A última edição do Miss Brasil que o SBT organizou foi realizada no dia 1º de abril de 1989, já em clima de velório para os responsáveis pela produção dos concursos estaduais e do concurso nacional. Sem que o SBT soubesse, a MSG Entertainment (dona do Madison Square Garden de Noba York e de canais pagos regionais de esportes na costa leste americana) comprou da Paramount Communications a integralidade do controle acionário da Miss Universe Inc., entidade que organizava o Miss Universo e também os concursos de Miss USA e Miss Teen USA. Não havia mais qualquer relação do SBT com a Paramount para viabilizar a transmissão do Miss Universo 1989, na noite do dia 23 de maio, em um hotel de Cancún (México). Com a MSG, pior ainda: não existia qualquer relação comercial do SBT com esta empresa. Tentou-se negociar direto com a CBS, geradora do certame, mas faltaram os fundos de patrocínio para que a transmissão fosse viabilizada. Nos estertores, anunciantes ligados à Globo teriam agido para que o SBT jogasse a toalha também em relação ao Miss Brasil e ao Miss Universo. Acabaram conseguindo seu intento ao fazer com que o SBT prejudicasse a produção dos concursos estaduais do Miss Brasil 1990 e o consequente cancelamento do concurso nacional, não por conta do Plano Collor, mas pela corrente do mal traçada pela Rede Globo e seus aliados petralhas, comunistas e midiáticos. Marlene Brito assumiu as concessões do Miss Universo e Miss Mundo para o Brasil em junho de 1990 e exerceu essa função até 1993. Depois do SBT e de Marlene Brito, o Miss Brasil passaria a experimentar uma gangorra de ostracismo midiático e quatro trocas de comando até 2015, quando a empresa de varejo Polishop comprou a marca Miss Brasil, que pertencia ao Grupo Bandeirantes de Comunicação, mantido como detentor dos direitos de TV aberta (desde 2003) e operador da concessão do Miss Universo para o Brasil (desde 2012, em substituição à Gaeta Promoções e Eventos).
Na década de 1990, o concurso de Miss Universo só foi mostrado na televisão brasileira uma única vez, em 16 de junho de 1988, pelo próprio SBT. O mesmo SBT que, por pressão da Globo, jogara fora um dos mais tradicionais eventos do país, perdendo em importância apenas para as Copas do Mundo da FIFA e as Olimpíadas de Verão e de Inverno. No mesmo período, o concurso de Miss Brasil ficou sem emissora. Voltaria às telas apenas em 2002, na Rede TV!. Porém, sem a mesma relevância de antes.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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