E lá se vão 48 anos de mentiras, desilusões, megalomanias, tragédias, picaretagem, pilantragem e roubalheira desde que Martha Vasconcellos venceu o Miss Universo 1968


Do AI-5 à Boate Kiss, de Vlado a Amarildo, de Lutfalla a Eduardo Cunha, do CCC aos Revoltados Online e da Transamazônica ao “legado da Copa”

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

O Cruzeiro/13.07.1968


Como será amanhã? Responda quem puder

“Em nome da minha Chapada Diamantina e da minha família eu voto não!”. A catarse do presidente da Comissão de Ética e Decoro parlamentar da Câmara dos Deputados, José Carlos Araújo, 71, contra o Golpe arquitetado a partir da Câmara dos Deputados para apear do poder a presidenta Dilma Rousseff, 68, parece servir bem para refletir a palhaçada hipócrita que cerca o Brasil de Eduardo Cunha e de Martha Vasconcellos, 48 anos de sua coroação como Miss Universo 1968 completados na quarta-feira (13). Em 48 anos, o Brasil regrediu em diversos aspectos, a começar de sua indústria de concursos de beleza. Então concentrada nas mãos de um único grupo econômico – os Diários e Emissoras associadas, a indústria dos concursos de beleza começou a se aspergir como as bombas do Riocentro a partir de 1981, quando grandes nomes da MPB poderiam ter sido assassinados, ma maior hecatombe que o governo militar poderia ter construído para a cultura brasileira. Nos dias atuais, a simples morte por acidente de um cantor sertanejo goiano em ascensão é transformada em “hecatombe cultural” pelo conjunto dos órgãos de imprensa.
Sei que nada será como antes como diria a música de Milton Nascimento e do saudoso Fernando Brant, do Clube da Esquina, mas o ano de Martha Vasconcellos como Miss Universo (e os que se sucederam) assistiram a uma verdadeira transformação nos meios de comunicação de massa. Antes irradiado pelo rádio, o concurso de Miss Universo no Brasil teve de ceder ao poderio da televisão em 1971. Antes confinados nas páginas de revistas como Manchete e O Cruzeiro, os concursos de misses tiveram de acompanhar a transição para a televisão em cores a partir de 1972. Mas não acompanharam a ascensão de audiência da Rede Globo, atual interessada em assumir o espólio daquele que outrora foi o maior evento de massas do Brasil, atrás apenas de Copa do Mundo da FIFA, Fórmula 1 e Olimpíadas. A Globo quase teve a mão no Miss Brasil e no Miss Universo em 1990, mas a usou para jogar ambos os certames para as gavetas do arquivo morto de sua sede do Jardim Botânico, na rua Von Martius.
Da mesma forma agiram revistas semanais de informação ditas “de vanguarda” como Veja (lançada durante o reinado de Martha como Miss Universo 1968), Istoé (cabedal peemedebista lançado pela Editora Três em 1976) e Época (press-release da Rede Globo lançado em 1998). Deram mais atenção a tragédias e desgraças como os incêndios dos edifícios Andraus e Joelma e da Boate Kiss (neste último caso, para ofender a honra e a dignidade de Dilma). Blindaram militares em escândalos de corrupção como Coroa-Brastel, Bemoreira-Ducal, Lutfalla, Baumgarten e Capemi. E escancararam seus ódios esquerdistas em casos como o do mensalão petista, Petrolão, Máfia das Ambulâncias, Carlinhos Cachoeira, apenas para citar alguns casos. Fabricaram “ídolos”, “heróis” e “mártires” como Sérgio Moro, Eriberto França, Venina Velosa, José Serra, Aécio Neves, Fernando Collor, Erenice Guerra, Menudo, Alexandre Frota e o resto do elenco da primeira Casa dos Artistas, para não me alongar em casos menores.
***
Na mesma proporção que jogavam os concursos de misses no arquivo morto ou os restringiam às portarias de suas respectivas editoras, as semanais de desinformação (assim escrito) se prestaram também a cobrirem crimes como os de Angela Diniz, Cláudia Lessin Rodrigues, Isabella Nardoni e Eloá Pimentel. Neste último caso, houve o coro maciço dos canais pagos de notícias ligados a parte das principais redes abertas (exceto a Record News, que é emissora aberta). Em 1990, ano em que a Globo, com o apoio de Collor, tirou os concursos de misses das mãos do SBT, as revistas semanais de desinformação de focaram na desgraça brasileira da Copa da Itália e em noticiarem sequestros. Chamaram o PT e outros partidos de esquerda como PC do B e PSOL de “bando de marginais” e “vagabundos remunerados”. Ora, vagabundos remunerados são os “intelectuais” que o Ultimate Fighting Championship (UFC) mantém sob contrato, entre os quais Anderson Silva e José Aldo, principais mentores da sanha artística de “liberté, egalité e Fora PT”, endossada por aliados de Cunha como Carlos Marun (PMDB-MS) e Laerte Bessa (PR-DF), autor da proposta de redução de maioridade penal até o feto. Ou o esperma.
Mais de 25 anos após a volta do irmão do Henfil num rabo de foguete decantada pela inesquecível Elis Regina na letra de João Bosco e Aldir Blanc, Taylor Swift vendeu sua alma de cantora country para o mainstream pop da massa de órgãos de imprensa que fabrica factoides para difamar os movimentos sociais de esquerda. E transformar o Miss Brasil em ardil para os ataques direitistas mais sórdidos, como os feitos pela Miss Brasil 2015 Marthina Brandt, militante de um dos 54 movimentos que defendem o afastamento definitivo de Dilma do poder. Esquecem Marthina e Taylor que o PSDB do deputado paulista Carlos Sampaio protocolou junto ao Tribunal Superior Eleitoral uma ação pedindo a impugnação da chapa de Dilma e do presidente interino Michel Temer. Meu Brasil.
Na pensata de Chico Buarque de Hollanda, vai passar nessa avenida um samba popular capaz de devolver ao Brasil o status que tivera no Miss Universo entre 1954 e 1973. O de força incontestável deste e de outros concursos importantes como o Miss Mundo, cuja seca de títulos é a mesma de um filme pelo qual a inglesa Charlotte Rampling fora indicada no último Oscar – 45 Anos. Para o Brasil levar a coroa de Miss Universo, já se passaram 48 anos de provações como a de Clarice Herzog para processar a União no caso do assassinato de seu marido, o jornalista Vladimir Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura, no DOI Codi da Rua Tutóia, em outubro de 1975, e de outras famílias de vítimas da “ditabranda” apoiada pelo jornal Folha de S. Paulo, desgraças como as já descritas, escândalos como os de Romero Jucá e de sua quadrilha, infortúnios como as das secas do Nordeste de 1979-83 e de São Paulo em 2014-15, malfeitos como os do banco Marka-FonteCindam, Cidade das Águas, Sivam, Furnas, Porto de Santos/Aeroporto de Guarulhos e PMDB do Eduardo Cunha e mentiras como as da falecida Enter-Entertainment Experience, da rodovia Transamazônica (que liga o Nordeste ao Nada e Coisa Nenhuma do Amazonas chamado Lábrea) e do “legado” da Copa de 2014 (que na visão da corajosa juíza americana Loretta Lynch virou um fardo maldito). Não dá mais para aguentar.
Apesar de você, Michel Temer, Gilbert “Durinho” Burns, Roberto Irineu Marinho, ACM Neto, Tasso Jereissati, Mariska Hargitay, Taylor Swift, Paulo Maluf, Cássio Cunha Lima, Eduardo Cunha, Bruno Araújo, Rachel Sheherazade, Alexandre Frota, Celso Portiolli Eliana “Dedinhos”, Fausto Silva, Humberto Martins e Susana Vieira, amanhã haverá de ser outro dia em que uma brasileira vencerá o título de Miss Universo.

Em memória de Eliakim Araújo e de outros jornalistas que foram perseguidos criminosamente pelo Ato Institucional nº 5

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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