Em defesa do Monumento ao Cantor Sertanejo Desconhecido


O que a imprensa nativa tem para hoje é irresponsabilidade e fabricação de ídolos e mártires do nada e coisa nenhuma

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

“A ditadura militar fez isso. Ia matar todos nós, artistas”
(Beth Carvalho, sambista, ao professor emérito da UnB Luiz Cláudio Cunha)

Diário da Manhã/25.06.2015


O governante de plantão nas exéquias do ídolo fabricado

Há exatamente um ano, operou-se uma orquestração desnecessária de órgãos de imprensa do eixo Rio-São Paulo para amplificar um assunto regional – a morte precoce do cantor Cristiano Araújo, aos 29, num acidente automobilístico na parte boa da esburacada BR-153, na cidade de Itumbiara, no Estado de Goiás. Até achei que a moça do Fala Brasil estivesse falando na morte de um parente do cantor da Jovem Guarda Eduardo Araújo, mas a coisa, do que eu depreendi da leitura da colega Carla Cecato, não era bem assim. A partir de então, se desenhou uma comoção de aparências jamais vista na cultura brasileira. Comoção essa que poderia ter ocorrido no dia 1º de maio de 1981, caso a chacina cultural do Riocentro, na zona oeste do Rio, tivesse se consumado. Aí sim, estaríamos pranteando por Clara Nunes, MPB-4, Gonzaguinha, Gonzagão, Beth Carvalho, Cauby Peixoto, dentre tanta gente boa da MPB que ora está viva ora morreria em anos posteriores e circunstâncias bem distintas das que o governo militar do general João Figueiredo (1918-1999) pensava.
O alarido absurdo que se fez em torno da morte do jovem Cristiano, artista de projeção regional em Goiás e Distrito Federal e que começava a receber atenção nacional graças a um contrato com a Som Preso (assim mesmo escrita para denotar o que a Som Livre, gravadora da Globo, faz na atualidade o que a Rede Record fazia com os musicais da MPB na década de 1960, sobretudo no período dos festivais), beirou ao escárnio de afrontar o debate pela comunicação democrática e plural que tenta se estabelecer neste país, sobretudo em tempos de Operação Lava Jato e vazamentos seletivos para saírem nas capas da Veja, Istoé e Época e manchetões garrafais em O Globo, O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo, para blindar políticos ligados ao PSDB e DEM, como Aécio Neves e Ronaldo Caiado. Eles postaram mensagens de condolências à família do cantor, deixando claro que aquela não era uma homenagem suprapartidária: atendia, sobretudo, aos interesses da turma do agronegócio, representada por Caiado, congressista desde 1987 e ex-presidente da temida União Democrática Ruralista (UDR), milícia armada de fazendeiros destinada a bater e atirar em lideranças de movimentos sem-terra, como o MST e a Via Campesina.
A “comoção nacional” em torno da morte de Cristiano Araújo causada pelo ensemble cast dos órgãos de imprensa, empenhados até à medula em derrubar a presidente legítima do Brasil Dilma Rousseff e blindar bandidos como Aécio e Caiado, o transformou em espécie de “James Dean do agronegócio”. Ambos os artistas morreram jovens, vítimas de acidentes rodoviários. Eram nomes de sucesso em seus respectivos ramos artísticos. Forçou-se uma “manifestação espontânea” de comoção de jovens adolescentes influenciados pela doutrina bandida de Marcello Reis, chefe da organização criminosa chamada Revoltados Online, e Kim Kataguiri, chefe da quadrilha chamada de Movimento Brasil Livre. Das principais redes de TV aberta do país, apenas a TV Brasil, mantida pela EBC (Empresa Brasil de Comunicação) não caiu na conversa: fez a Agência Brasil dar apenas o registro jornalístico essencial para caber nas páginas policiais de alguns jornais do interior, e não nas respectivas seções se artes e espetáculos. Entre os jornalões do mainstream da mídia nativa, Folha e Estadão foram discretos em colocar a foto do “James Dean goiano” em meio a manchetes derrogatórias ao governo Dilma, a integrantes do PT e aplaudíveis para a Lava Jato, operação essa que o governo interino de Michel Temer faz questão de colocar para baixo do tapete para proteger elementos do PMDB, entre os quais não se inclui o ex-governador Íris Rezende. Mas gatunos de marca maior como Romero Jucá, Renan Calheiros, Valdir Raupp, José Sarney, dentre outros.
Aos olhos deste TV em Análise Críticas, Cristiano Araújo, assim como tantos outros, era um cantor sertanejo desconhecido. Não queremos sugerir o nome nem dele, tampouco de ninguém. Mas apelamos à Prefeitura de Goiânia, na pessoa do prefeito Paulo Garcia (PT), e ao Governo do Estado de Goiás, na pessoa do governador Marconi Perillo (PSDB), bem como as bancadas federais de Goiás na Câmara dos Deputados e no Senado Federal e ao empresariado local que se mobilizem para erguer, na entrada de Goiânia, na BR-060 (Brasília/Goiânia), o Monumento ao Cantor Sertanejo Desconhecido, nos mesmos moldes dos monumentos ao Soldado Desconhecido que existem no Aterro do Flamengo (Rio de Janeiro) e em cemitérios militares dos Estados Unidos da América do Norte. Neste caso, seria um monumento gigante em forma de viola, bem vistoso aos olhos dos viajantes e turistas que chegarem à capital goiana. Teria, a exemplo do Memorial da República da capital federal, uma chama permanentemente acesa, para prestar homenagem silenciosa aos sertanejos anônimos que morreram nas mesmas circunstâncias de Cristiano ou em circunstâncias distintas.

Disclaimer: Antes que o Domingo Show nos ataque: a redemocratização ocorreu em 15 de março de 1985. Geraldo Luís começou sua carreira na Rádio Jornal de Limeira em 1989, mesmo ano em que o “Caçador de Marajás” Fernando Collor de Mello, ídolo fabricado pela Rede Globo (cuja afiliada em Alagoas é de sua propriedade), era eleito presidente da República

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
Esse post foi publicado em Cult, Imprensa, MPB, Poderes ocultos, Podres poderes e marcado , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

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