Endividada e respirando com empréstimo da Caixa, Band ameaça parar a transmissão do Miss Brasil e do Miss Universo e outra emissora pode assumir concursos a partir de 2017


Decisão sobre o futuro dos concursos de misses na emissora paulista deve acompanhar tendência adotada após rompimento com a Globo por futebol; tevê da famíglia Marinho ainda não decidiu se assume transmissões de certames estaduais e nacional

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Lucas Ismael/Band/Divulgação/27.09.2014


Dívidas de emissora do Miss Universo no Brasil chegam a US$ 100 milhões

O rompimento da parceria com a Rede Globo de Televisão para a transmissão de eventos de futebol, anunciado pela Rede Bandeirantes no início da noite desta terça-feira (3) pode abrir um precedente importante para a emissora paulista se desvencilhar também de um de seus maiores problemas de audiência: os concursos de beleza. Com média que despencou de 7,5 em 2003 para 2,1 em 2015, o projeto de transmissão dos concursos regionais, do Miss Brasil e do Miss Universo pode ser abandonado pela Band a partir de 2017, informou ao TV em Análise Críticas uma importante fonte da emissora da famíglia Saad, que pediu para não ser identificada.
Com dívidas estimadas em R$ 100 milhões em setembro de 2014, de acordo com matéria do Jornal do Brasil, boa parte delas contraída em dólar americano (moeda usada nos pagamentos dos royalties da representação do Miss Universo junto à Miss Universe Organization, bem como no contrato de transmissão do concurso assinado junto à distribuidora Alfred Haber, contratada pela MUO para fazer a distribuição internacional do certame desde 2002), a Band já abriu mão de vários eventos esportivos como a Copa Sul-Americana e a Copa do Brasil antes de encerrar a parceria com a Globo, que incluía eventos da FIFA, como a Copa do Mundo. No dia 6 de novembro, a emissora vendeu de forma obscura os direitos da marca do concurso Miss Brasil para a empresa de televendas Polishop, citada 148 vezes no cadastro de reclamações fundamentadas da Fundação Procon de São Paulo, entre 2009 e 2014. Em 2015, a nova proprietária do Miss Brasil teve um aumento de 66% no número de reclamações no órgão do governo paulista especializado na defesa dos direitos do consumidor, que comemora 40 anos de existência.
O rombo nas finanças da Band não impediu a emissora, no final de dezembro do ano passado, logo após o Miss Universo 2015, de contrair um empréstimo de emergência de R$ 250 milhões junto à Caixa Econômica Federal, avalizado pelo Deutsche Bank. Escândalo esse que o ensemble cast dos órgãos de imprensa da mídia golpista que endeusam a Miss Brasil 2015 Marthina Brandt, que recebeu o apoio de 52 grupos ditos “apartidários” que defendem o impeachment da presidenta Dilma Rousseff por crimes que não cometeu, como o ato de pedalar no Palácio da Alvorada, em Brasília, para o bem de sua própria saúde, tratou de abafar convenientemente para atender a seus interesses na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Com esse oxigênio, a Band pode sobreviver para pagar contas de água, luz e telefono, mas não para pagar uma taxa de franquia do Miss Universo que anda na casa dos US$ 100 mil, tampouco um contrato de transmissão do certame com uma distribuidora internacional mediana, de valores altamente sigilosos. Com esse quadro escabroso, a Band não descarta devolver a representação brasileira do Miss Universo para a WME/IMG a partir de 2017, o que facilitaria as negociações da nova proprietária do certame com a Rede Globo para a transmissão do Miss Brasil, do Miss Universo e dos concursos regionais. A justificativa de especialistas de mercado está no fato de a Globo ter uma vantagem que a Band não tem: presença nas 27 capitais de Estado com emissoras próprias ou afiliadas. Além dela, a outra rede enquadrada nessas condições é a Record, vice-líder nacional de audiência e faturamento. Além disso, favorece a Globo a exposição que as misses passariam a ter na mídia, 70% maior que a proporcionada hoje no convênio Band/MUO, renovado às pressas no final de outubro de 2015 pelo valor de US$ 21 milhões, com validade até 2020, durante viagem dos vice-presidentes do Grupo Band Marcelo Meira e Frederico Nogueira (que deixou o grupo em janeiro de 2016) a Nova York e Beverlu Hills. Exatamente com o intuito de impedir uma negociação dos novos controladores do Miss Universo com o Grupo Globo. Em TV fechada, os direitos de exibição pan-regionais continuariam com a TNT, em negociação separada.
Entre os missólogos, o consenso sobre a saída da Band dos concursos de beleza não é unânime. Uma ala de fãs de concursos de beleza e coordenadores de concursos regionais ligada à tevê da famíglia Saad acha que o modelo de negócios proposto pela Polishop ‘é eficaz e resolve antigas reivindicações dos coordenadores e dos fãs dos concursos de beleza, que querem espetáculos de alto nível”. De acordo com um diretor da Polishop, que pediu para não ser identificado, a aquisição do Miss Brasil “dará uma importante oportunidade de promoção de imagem da Miss Brasil”. Mas não é o que pensam especialistas de mercado ouvidos pelo TV em Análise Críticas. O diretor de uma das mais importantes agências de publicidade do eixo Rio São Paulo, que já fez negócios com a organização do Miss Brasil Universo coordenada pela extinta Enter, empresa de eventos da Band, alertou que “a parceria de uma rede de televisão com uma empresa de televendas com alto histórico de reclamações nos órgãos de defesa do consumidor mancha a credibilidade já afetada do concurso [Miss Brasil] e inibe uma melhor performance da representante brasileira no Miss Universo, afundando-se assim o buraco de derrotas que se arrasta há 48 anos”. Empresários do setor de agenciamento de modelos compartilham da mesma preocupação: ‘É inadmissível ver nossas modelos na condição de misses expostas como escravas de uma empresa que desrespeita o consumidor e o engana, com produtos que não lhe trazem nenhuma garantia, com risco de defeitos iminentes”, denunciou um dos mais respeitados bookers de modelos do mercado, que trabalha para uma importante agência internacional, sediada em Nova York. Procurada pela reportagem do Críticas, a Polishop e a Organização Miss Brasil Universo negaram todas as acusações e chamaram de “irresponsáveis” e “levianos” “comentários feitos por gente alheia ao meio miss, interessada em denegrir nosso trabalho e nossa missão enquanto promotores de concurso de beleza e parceiros de algumas das mais importantes organizações internacionais de caridade e ajuda ao próximo”, sem citar nomes. A direção da Band admitiu as dívidas em dólar norte-americano, mas negou que estas tivessem relação com os contratos com a organização ou transmissão do Miss Universo.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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