Transmissão de concursos de misses é um atentado contra a biografia da Band


Emissora precisa se focar no esporte, jornalismo e entretenimento, seus três principais pilares. Pilares esses que começaram na década de 1970, com especiais de MPB com nomes do quilate de Maria Bethânia, cuja vida deu título à Mangueira

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Marcelo de Jesus/UOL/09.02.2016


Bethânia na Sapucaí com a Mangueira e a história da Band: tudo a ver

O título da Estação Primeira de Mangueira no Grupo Especial das Escolas de Samba do Carnaval do Rio de Janeiro, conquistado na tarde desta quarta-feira (10), com um enredo em homenagem à cantora baiana Maria Bethânia, 69, apenas comprova uma incoerência grosseira cometida pela Rede Bandeirantes desde que perdeu o grosso de suas transmissões esportivas após as Olimpíadas de Verão de Sydney, em setembro de 2000. Ao transmitir os concursos Miss Brasil e Miss Universo desde 2003, a emissora da família Saad, também dona de jornais, canais pagos e de 16 fazendas, comete um crime hediondo de incoerência com suas raízes na área de entretenimento. Mais precisamente, no ano de 1976, quando começou a levar ao ar especiais de Chico Buarque, Gal Costa e Caetano Veloso, apenas para citar alguns bambas da Música Popular Brasileira (MPB).
É, no mínimo, gritante, para não dizer pavoroso, horroroso e escabroso, ver uma emissora do porte da Band, que entre os anos 1980 e 1990 se vangloriava de ser “O Canal do Esporte” na acepção de Luciano do Valle (1947-2014) se prestar a transmissões de eventos que não condigam com essa plataforma. Vem a ser o caso dos concursos de misses que, no catálogo de transmissões da Band, contabiliza 13 eventos, incluindo além do Miss Brasil e do Miss Universo, os concursos de 10 Estados e do Distrito Federal. É compreensível que a Band fature com esses eventos mas, em tempos de ESPN, Sportv, FOX Sports e Esporte Interativo tomando as rédeas dos direitos esportivos em áreas olímpicas ou não olímpicas, é uma realidade gritante da qual somos obrigados a assistir calados enquanto a audiência do escopo dos concursos de misses despenca na principal praça de decisões para o mercado publicitário do país, a Grande São Paulo. Desde que se meteu nessa brincadeira, a média de audiência domiciliar do conjunto dos concursos do Projeto Miss caiu 72% de 2003 a 2015, como atesta matéria do TV em Análise Críticas publicada no dia 28 de dezembro de 2015. Segundo o levantamento, o número de domicílios ligados nos concursos de misses da Band caiu 60,02% e o de telespectadores despencou 30,64%.
Há quem ame ou goste desse tipo de evento. Mas, o que os missólogos brasileiros não percebem é que a Band está cometendo um suicídio financeiro ao montar (e desmontar) empresa de eventos apenas para organizar um concurso de Miss Brasil que mal tem condição de se sustentar com as próprias pernas: em novembro do ano passado, a emissora precisou recorrer a um empréstimo de emergência de R$ 250 milhões junto à Caixa Econômica Federal, avalizado pelo Deutsche Bank, e a um aporte emergencial da Polimport Comércio e Exportação Ltda. (razão social da Polishop) para viabilizar as operações de promoção do concurso Miss Brasil 2015. E, por tabela, pagar as despesas de viagem, inscrição e estadia da representante brasileira no Miss Universo 2015, a gaúcha Marthina Brandt, 24, para Las Vegas, onde ficou entre as 15 semifinalistas da competição de traje de banho da disputa internacional, transmitida para 170 países e territórios. Passado o ciclo de Marthina Brandt, o que se desenha para a Band em relação ao Projeto Miss 2016 ainda é uma incógnita. E pode resultar na debandada dos concursos para concorrentes como Globo (objeto de desejo da turma de Ari Emanuel e sua tropa VIP de choque de apoiadores de Hillary Clinton, cada vez mais acuados por artistas e intelectuais, como Maura Tierney [ex-ER], Danny DeVito, Flea do Red Hot Chilli Peppers, Frank Darabont [The Walking Dead] e Bill Maher e “intelectuais” como Ronda Rousey e o boca de lobo chamado Wanderlei Silva, especializado em atacar Lula e Dilma no Brasil à base de mentiras, asneiras e infâmias proferidas via Youtube), Record (com possibilidade zero de levar esses direitos) e SBT (cotado por missólogos para acolher de volta os concursos, mas que observa limitações em sua infra-estrutura e recursos humanos para promoção de eventos).

AFP/28.05.2007


Vice de Natália no Miss Universo 2007 e a história da Band: nada a ver

Para uma rede de televisão que, no fatídico dia 30 de abril de 1981, transmitiu em pleno governo militar do general João Figueiredo (1918-1999) o famoso Show do Dia do Trabalho no Riocentro, que quase virou a maior chacina da história da MPB, a ponto de varrer do mapa nomes como João Bosco, Clara Nunes, Beth Carvalho, Cauby Peixoto, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Elba Ramalho, Gonzaguinha e Gonzagão, Ivan Lins, MPB-4, Moraes Moreira, Simone, Djavan e Dona Ivone Lara, no dia 25 de janeiro de 1984, desafiando o mesmo general Figueiredo, transmitiu ao vivo o comício da campanha pelas Diretas Já na Praça da Sé (o qual a Globo transformou em festa pelos 430 anos da cidade de São Paulo) e, no dia 25 de abril do mesmo ano, em plenas medidas de emergência implantadas no Distrito Federal, transmitiu ao vivo a votação da derrota da Emenda Dante de Oliveira, que restabelecia as eleições diretas para presidente da República, transmitir um feito histórico como o segundo lugar da mineira Natália Guimarães na noite de 28 de maio de 2007 no concurso de Miss Universo por si só foi uma afronta à toda essa biografia que a Band construiu na luta pela redemocratização do Brasil. E após ela, passou a servir de bastião das ideias mais tacanhas, retrógradas e atrasadas, como as de elementos como João Dória Jr. (tucano de carteirinha e avacalhador de plantão das conquistas sociais obtidas nos governos Lula e Dilma), José Luiz Datena (metido a malufista de plantão), Boris Casoy (que chamou garis de “merdas”), para não citar ex-CQCs tipo Marcelo Tas, Danilo Gentili, Rafinha Bastos e Rafael Cortez, dentre outras gentes desqualificadas. Todas elas associadas a elementos como Álvaro Dias, José Serra, Fernando Henrique Cardoso, Aécio Neves, Antônio Anastasia, Sérgio Moro, Ronaldo Caiado, Geraldo Alckmin, dentre outros nomes da direita mais sórdida que tenta governar o Brasil nas sombras.

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Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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