Não há mais patrocinadores de alto nível que sustentem o projeto de misses da Band


Experiência com a Polishop serviu apenas para assentar a pá de cal na parceria da emissora com a organização do Miss Universo

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Miss Universe Organization/Divulgação/20.12.2015


É melhor Marthina Brandt tratar de fazer a sucessora após a novela

Há exatas três semanas, a gaúcha Marthina Brandt, 23, representava o Brasil na 64ª edição do concurso de Miss Universo, realizado no teatro de um importante resort cassino de Las Vegas, o The AXIS at Planet Hollywood. Tinha a confiança cega da comunidade missológica internacional de que ficaria entre as 10 semifinalistas. Não ficou. O sonho de Brandt, natural da cidade de Vale Real (96,5 km ao norte de Porto Alegre) e eleita Miss Brasil 2015 pouco mais de um mês antes, parou entre as 15 semifinalistas da etapa de traje de banho. O fracasso de Marthina Brandt no Miss Universo 2015 é reflexo de um desencontro violentíssimo da Band em meio à crise que se arrastou para a realização do Miss Universo 2015, que estava com boa parte de suas 80 candidatas nacionais eleita quando o então gestor Donald Trump, 69, desferiu rompantes violentíssimos contra os imigrantes ilegais mexicanos nos Estados Unidos quando do lançamento de sua pré-candidatura à Presidência do país pelo Partido Republicano. À época da eclosão da crise, que resultou na debandada de artistas do concurso Miss USA 2015 e de patrocinadores do evento, a Rede Bandeirantes de Televisão, empresa que detém, por ora, os direitos de representação do Miss Universo para o Brasil, se manteve calada. Ao contrário de conglomerados poderosíssimos como Televisa e Teletica, não moveu uma palha para atacar, tampouco defender Trump e suas ideologias idiotizantes e degradantes à América Latina. Se comportou como uma anã diplomática paraguaia de circo.
O silêncio sepulcral e aterrador do Grupo Bandeirantes de Comunicação para com as maluquices diplomáticas de Trump que quase afetaram a vida da Miss Universe Organization custou caro: empresas que estavam na fila para renovar os contratos de patrocínio como Amanco e Bombril estavam com os bolsos vazios para custear a promoção do certame. Já estavam comprometidas até à medula com patrocínios de projetos de outras redes como Globo e Record. Em relação à BRF, dona da marca Sadia? A desculpa não foi a crise econômica que corrói o país, mas o compromisso assumido com a Rede Record para patrocinar o reality de competição Batalha dos Confeiteiros Brasil. Nivea, a empresa alemã de cosméticos? Tinha acertado patrocínio para o Masterchef, produto da própria Band que quase “matou” o Projeto Miss 2015. Até o início de setembro, quando 25 dos 27 Estados já tinham eleito suas candidatas para o Miss Brasil 2015, a Band posava de Percival quando questionada sobre os rumos da produção do concurso nacional de beleza. Rumos?
O mal financeiro que esses realities de culinária fizeram ao concurso Miss Brasil 2015 obrigou a Band a se socorrer financeiramente, no final de outubro, junto à empresa de televendas Polishop, a qual lhe aluga espaços na programação diurna de sábado e domingo. Nos meios missológicops, há quem fale que a Band conseguiu esse socorro financeiro (para ser mais preciso, para sua empresa de eventos, a Enter) também para escorar a realização das etapas regionais do Miss Brasil 2016. Passados quase dois meses do Miss Brasil 2015, nenhum Estado ainda deu o start para a realização de suas etapas com vistas ao Miss Brasil 2016. Nem mesmo o Amazonas, que costuma abrir a rodada de certames, Estado-sede do Comitê Nacional de Coordenadores de Concursos de Beleza (CNCCB). Com a paralisia dos trabalhos da Enter, após a compra do Miss Brasil por parte da Polishop e da Ford Models, a coordenação amazonense da etapa brasileira do Miss Universo simplesmente parou de funcionar. O auxílio prometido pelas novas proprietárias da concessão do Miss Universo para o país não veio e a produção do concurso Miss Amazonas 2016 está parada.
Oficialmente, os trabalhos de boa parte dos 27 coordenadores estaduais (exceção feita ao Rio Grande do Sul, que parece obra para a Rio 2016 – não para) só devem começar após o dia 15 de fevereiro, no primeiro dia útil após o Carnaval. Na prática, os coordenadores estaduais (exceção feita ao gaúcho Carlos Totti) deveriam se envergonhar de serem brasileiros e passarem a prepararem seus currículos para irem trabalhar no Star Hellas, etapa da Grécia para o concurso Miss Universo. Grécia essa que enfrenta uma crise econômica mais gravíssima que o Brasil e está na UTI devendo ao FMI (Fundo Monetário Internacional) e ao BCE (Banco Central Europeu). Isso, em pleno governo de Alexis Tsipiras (Syriza). E cujo jejum de títulos se arrasta desde 1964. A ausência de empresas como Bombril, Multymarcas, Nivea, Colgate-Palmolive, Coca Cola, Casas Bahia e Banco do Brasil, dentre outras faz uma enorme falta ao projeto de concursos de misses da Band, cuja continuidade está a perigo. O escalabro da coordenação do Miss Brasil deve chamar a atenção da nova controladora da Miss Universe Organization, a WME/IMG, que quer, a todo custo, colocar a etapa brasileira do Miss Universo em uma rede de maior audiência que a da Band – no ano passado, a média nacional da ainda exibidora do Miss Brasil não passou de 2,7, de acordo com a Kantar Ibope Media. Na principal praça de decisões para o mercado publicitário do país, o concurso registrou a segunda pior audiência (2,3) desde o início da série histórica de audiência na Grande São Paulo, em 1982. Com números deploráveis como esses (e com uma parceria de patrocínio que acumula centenas de reclamações fundamentadas na Fundação Procon-SP), não há anunciante de peso que sustente os concursos de misses na Band. Melhor passá-los para Globo, SBT ou Record, onde o retorno será maior.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
Esse post foi publicado em Força da Grana, Nossas Venezuelas, Projetos especiais, Publicidade, Todas as Venezuelas do mundo e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

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