Em pergunta final, candidatas a Miss Brasil 2015 expõem ideologia pró-impeachment e ideias atrasadas


Perguntas versaram sobre crise econômica, modelo de mulher, instituição do casamento, redes sociais e direitos das mulheres

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Lucas Ismael/Band/Divulgação/18.11.2015


Marthina Brandt: petismo escancarado e peemedebismo enrustido

A rodada de perguntas finais do 61º concurso Miss Brasil, realizado na noite da quarta-feira (18), no Citibank Hall, em São Paulo, apresentou temas cujas respostas beiraram à hipocrisia, o escárnio, a demagogia panfletária, a mais tacanha ideologia direitista e a baboseira mais rasteira e superficial. Na primeira delas, feita à gaúcha Marthina Brandt, 23, a apresentadora Mariana Weickert fez um pingue pongue básico antes de se sortear o promotor de eventos de moda Paulo Borges para responder à pergunta concernente a “características fundamentais numa mulher contemporânea”. Na reposta, Marthina escancarou seu petismo explícito ao falar que “a mulher ocupa um espaço muito grande na sociedade”, sem explicitar que é uma mulher, a ex-guerrelheira Dilma Rousseff (PT), que ocupa a Presidência da República. A menção explícita à figura da presidenta custou à matogrossense Jakelyne Oliveira o título de Miss Universo 2013, por ter desviado do foco da pergunta da modelo norte-americana Carol Alt, que tratava de outra coisa: restrição ao direito das mulheres dirigirem em países do Oriente Médio, como Emirados Árabes, Arábia Saudita, Iêmen e Omã, por exemplo. Numa mostra do mais sórdido falso moralismo, Brandt falou de “amor e zelo para cuidar da família”, bandeira essa defendida pelos fundamentalistas que, desde 15 de março, pregam em manifestações supostamente espontâneas o impeachment de Dilma, reeleita democraticamente por 54 milhões de brasileiros, no dia 26 de outubro de 2014, para um mandato que vai até 31 de dezembro de 2018. No “lado B” do disco do Roberto Carlos de 1974, Marthina Brandt enrustiu sua ideologia peemedebista de oposição ao PT, que desgoverna o Rio Grande do Sul nas mãos do ex-vereador José Ivo Sartori, mentor dos cirquinhos manipulatórios dos pseudo movimentos sociais que deturparam os protestos contra a Copa das Confederações, em junho de 2013, e comanda a Câmara dos Deputados através do carioca Eduardo Cunha, ex-presidente da companhia de telefones do Estado, a Telerj, durante o governo Fernando Collor (1990-1992), agora na corda bamba no Conselho de Ética.
Na sequência, a paulista Jéssica Voltolini repetiu o ciclo básico, dizendo que se inspirou na mãe, ex-competidora do Miss Ribeirão Preto em 1992. Na resposta ao estilista de cabelos Yan Acioli, Voltolini repetiu um tema comum aos demagogos e pilantras filantrópicos de plantão infiltrados no Revoltados Online, Vem Pra Rua, Movimento Brasil Livre, Endireita Brasil e Movimento Pátria Livre – “ajude a divulgar essa ideia” – para tratar da divulgação das causas de caridade nas redes sociais, usadas pelos órgãos de imprensa para ocultar sujeiras como as contas secretas de Cunha na Suíça, o “trensalão” do Metrô de São Paulo, os rejeitos tóxicos da mineradora Samarco (coligada da Vale) no Rio Doce, entre Minas Gerais e Espírito Santo, ceifando vilas, vidas humanas, rios, cardumes de peixes e plantações inteiras (com o mesmo tratamento isonômico que é dado aos atentados terroristas de Paris orquestrados pelo Estado Islâmico), o “Helicoca” do senador mineiro Zezé Perrella (PDT), aliado de Aécio Neves e presidente do clube de futebol Cruzeiro e a orquestração do governador Luiz Fernando Pezão, do antecessor Sérgio Cabral Filho e do prefeito carioca Eduardo Paes, os três do PMDB de Cunha, que põe em xeque os custos das obras olímpicas do Rio de Janeiro para a Olimpíada de agosto do próximo ano, que vai ser retratada como um dos temas da série de reportagens especiais que o Jornal da Record veiculará a partir desta segunda-feira (23), intitulada Rio de Janeiro de Lama. Esse expediente é adotado em Ribeirão Preto, cidade natal de Voltolini, pelo jornal A Cidade, ligado à afiliada local da Rede Globo, a EPTV Ribeirão. “A maioria das pessoas acaba nos criticando e isso nos abala”, disse Jéssica para tentar se defender das acusações de que sua eleição como Miss São Paulo 2015 foi financiada pelos movimentos pró-impeachment, como atestou reportagem do TV em Análise Críticas publicada na sexta-feira (6), faltando menos de duas semanas para o Miss Brasil 2015.
Terceira candidata a responder, a catarinense Sabrina Meyer não foi submetida à roda de perguntas de Weickert antes da pergunta oficial, formulada pelo estilista Walério Araújo, sorteado de imediato. Único jurado a tocar na instituição do casamento, Araújo perguntou como Meyer se sentiria, no futuro, ao ver uma filha miss. Na resposta, Sabrina, sem recorrer aos jargões demagógicos dos caminhoneiros autônomos de seu Estado que tentaram interditar rodovias federais para pedir o impeachment da presidenta, falou que apoiaria sua filha da mesma forma que recebeu apoio da mãe para vencer o concurso estadual. Ou seja, educaria sua filha no mesmo meio conservador que vota no PSDB, defende a redução da maioridade penal até o feto, insulta nordestinos nas redes sociais e prega a renúncia, sem argumentos, de uma presidenta eleita democraticamente pelo voto popular. Na eleição passada, Santa Catarina foi um dos Estados da região sul que deu vitória a Aécio Neves. Mas o peso político dos catarinenses se anulou quando se contaram as urnas eletrônicas de Estados do Norte e do Nordeste, que deram vitória acachapante a Dilma. O mesmo viés ideológico acompanhou a candidata que se seguiu, a matogrossense Camila Della Valle, antes mesmo de responder pergunta do obscuro fotógrafo Gustavo Zylberstajn, diretor da Ford Models, agência que co-promoveu o certame com a Polishop para a Rede Bandeirantes. Na resposta à pergunta “Quem é o exemplo de mulher a seguir?”, Della Valle falou em “conduta ilibada” como uma forma de defender as ideias tacanhas e atrasadas da turma do governado Pedro Taques (PSDB), do qual foi eleitora confessa e não de se referir à sua mãe. Deu um espetáculo deprimente de meritocracia ao citar sua genitora como “exemplo de pessoa bem sucedida que trabalhou muito para criar a mim e a meu irmão”, ou seja, o tipo de “brasileiro de bem” que vai às ruas gritar “Fora Dilma” e segurar bonecos ofensivos à honra do ex-presidente Lula.
Fechando a roda de perguntas, a potiguar Manoella Alves respondeu ao “conceito de país” da fotógrafa Karine Basílio com o chavão “apesar da crise”, disseminado por órgãos de imprensa (inclusive a própria Band) para tentar fabricar uma falsa imagem positiva do país, deturpada pelas novelas e minisséries da Rede Globo, cedente à Band do Miss Brasil, Miss Universo e do futebol da CBF e da FIFA. Isso, levando em conta que apenas quatro municípios do Rio Grande do Norte, incluindo a capital, Natal, a qual representou no concurso estadual, realizado em 17 de julho. De acordo com o IBGE, 70 municípios do Rio Grande do Norte estão com IDH baixo. O pior deles é de João Dias (0,530), cidade que fica na divisa com a Paraíba. “Descreveria meu país como um país alegre, repleto de belezas naturais e de um povo completamente acolhedor”, arrematou Manoella, tentando puxar para si o cordão demagógico da propaganda oficial enganosa de que no Brasil “tudo é divino, tudo é maravilhoso”, como citado por Belchior em sua canção assinatura Apenas um Rapaz Latino Americano, do LP Alucinação (Philips, 1976), inclusive “intelectuais do UFC” como Minotauro (que estava na claque torcendo em vão pela namorada Nathalia Pinheiro, que ficou fora das 10 semifinalistas para a fase de trajes de banho) e “descerebradas do Projac”.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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2 respostas para Em pergunta final, candidatas a Miss Brasil 2015 expõem ideologia pró-impeachment e ideias atrasadas

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