Na calada da noite, Band vende direitos do concurso Miss Brasil 2015 para a Polishop e abre caminho para ficar sem o certame em 2016


Brecha contratual abre caminho para sonho de consumo de Ari Emanuel: emplacar o certame na Rede Globo de Televisão

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Lucas Ismael/Band/Divulgação/27.09.2014


Desde 2003, concurso perdeu 58,57$ de audiência domiciliar em São Paulo

Uma operação obscura realizada pela Rede Bandeirantes junto à empresa de televendas Polishop pode levar a emissora a perder, depois de 13 anos, os direitos de transmissão do concurso Miss Brasil. Reportagem do colunista Flávio Ricco, do portal UOL, publicada no início da manhã desta sexta-feira (6), informa que os direitos sobre a marca Miss Brasil, bem como a organização da etapa brasileira do concurso de Miss Universo, passam a pertencer a partir de agora ao empresário João Appolinário, diretor-presidente da Polishop. Para ir adiante junto ao Miss Universo, a transação precisa ainda ter o aval da Miss Universe Organization e de sua nova proprietária, a empresa de entretenimento WME/IMG, sediada em Beverly Hills (região metropolitana de Los Angeles).
A notícia da venda do Miss Brasil para a Polishop pegou de surpresa funcionários da Enter que já se preparavam para trabalhar nos bastidores da transmissão da 61ª edição do certame, marcada para o próximo dia 19, no Citibank Hall, em São Paulo. Com o negócio, de valores não divulgados, a expectativa da Band é demitir todo o pessoal da Enter encarregado do Miss Brasil – cerca de 150 pessoas – e remanejá-lo para a unidade de TV da Polishop, a qual ficará doravante responsável pelas ações de marketing e promoção do concurso, bem como pelo credenciamento de coordenadores estaduais e municipais e fiscalização dos concursos regionais. Entre abril e junho, a Band descredenciou um coordenador estadual por práticas de corrupção e outra pediu descredenciamento. Com a Polishop no comando do Miss Brasil, a tendência é de revisão e adequação dos contratos das 25 coordenações estaduais ainda existentes.

Para Appolinário, coordenadores estaduais estão com cabeça a prêmio

Segundo Ricco, a intenção de João Appolinário, novo “CEO” da organização do Miss Brasil, é supostamente transformar o concurso “em um novo modelo de negócio”. Por “modelo de negócio”, Appolinário entende tentar extinguir os 27 concursos estaduais e reduzir o Miss Brasil a um grande casting de modelos que poderia ter o aval da IMG Models, coligada da Miss Universe Organization. No entanto, a proposta já encontra oposição dentro co Comitê Nacional de Coordenadores de Concursos de Beleza (CNCCB), que teme a eliminação de 3.500 postos de trabalho diretos e indiretos gerados pelos concursos estaduais e municipais. De acordo com a nota de Ricco, que já foi funcionário da Band, a intenção da Polishop é extinguir o sistema vigente no Miss Brasil para “dar lugar a um formato, que se pretende, mais moderno e em condições de oferecer melhores retornos comerciais e de audiência”. No ano passado, o concurso de Miss Brasil registrou 2,9 pontos de média na medição do Ibope na Grande São Paulo, não ao acaso, sede da Polishop e das decisões do mercado publicitário brasileiro que podem ou não salvar o concurso de ser vendido para a Globo. Uma brecha no contrato de compra do Miss Brasil permite à Polishop, como detentora da marca do certame, passar os direitos de transmissão da Band para a emissora carioca da famíglia Marinho, desejo esse alimentado pelo empresário judeu americano Ari Emanuel, que comprou a MUO da Trump Organization por US$ 28 milhões.
Pela proposta de Appolinário, o intento é transformar a sucessora da cearense Melissa Gurgel em “embaixadora” do grupo de televendas, que compreende as lojas da Polishop, o serviço de televendas, o canal Polishop TV (que opera nas parabólicas e ocupa posições no line-up das principais operadoras, como a NET) e a produtora de conteúdo do grupo, que faz os infomerciais veiculados em redes abertas, como a própria Band, e alguns canais pagos como Universal, FX e Paramount, por exemplo.

Produtora de A Fazenda e TUF Brasil continua a fazer certame

Ainda de acordo com Flávio Ricco, a empresa Floresta Produções para Televisão continuará a prestar os serviços de produção de vídeo e geração de imagens do concurso Miss Brasil 2015 para a Band. Devido a um possível conflito de agendas das gravações dos realities A Fazenda 8 para a Rede Record e a segunda temporada de Are You The One? Brasil havia a possibilidade de a companhia ficar fora do projeto. No entanto, sua diretora geral, a argentina Elisabetta Zenatti, ex-funcionária da Band, conseguiu contornar a situação e levou a melhor sobre a própria Polishop, que já estava literalmente “com o pão na boca” para assumir a empreitada completa.
Além do Miss Brasil, A Fazenda e AYTO Brasil, a Floresta, uma sociedade de Zenatti com a Sony Pictures, tem no seu histórico a produção do concurso de Miss São Paulo (da própria Band), Meus Prêmios Nick (Nickleodeon), do festival Tomorrowland Brasil (MTV), Tudo pela Audiência, Fábrica de Estrelas e Segredos Médicos (Multishow), Cozinhando no Supermercado (Discovery Home & Health), Moda S/A (Globo News), três temporadas do The Ultimate Fighter Brasil (Globo), uma temporada do The Ultimate Fighter Australia (FOX Sports Austrália), Até Quando Você Quer Viver? (GNT) e o já cancelado E Aí, Doutor? (Record).

Quadros da Band podem perder espaço na apresentação do evento

Pelo plano de Appolinário reportado por Ricco, a intenção da Polishop na produção do Miss Brasil 2015 é afastar os poucos profissionais de vídeo que a Band ainda possui para apresentar o certame. O intento é ir atrás de nomes conhecidos do público para tentar salvar a audiência cada vez mais agonizante do certame – desde 2003, as transmissões do Miss Brasil perderam 58,57% da média de audiência. Concursos estaduais, como o do Ceará, penam para dar ao menos 5 pontos na média. A sondagem por esses nomes já começou.
De acordo com uma fonte da Enter ouvida pelo TV em Análise Críticas no começo da noite desta sexta-feira (6), um dos fatores que teriam ajudado a derrubar violentamente a audiência do Miss Brasil na Band é o excesso de onipresença dos apresentadores – “Quando não é a chefe da quadrilha (numa alusão a Nayla Micherif, ex-diretora do concurso), vem a (Adriane) Galisteu e a Renata Fan (na Band desde 2007) para a desgraça começar”, comentou a fonte, em tom de ironia. A desgraça da Band para o Miss Brasil 2015 será ter de bater de frente com pesos muito pesadíssimos – além de A Fazenda, produto da Floresta para a Rede Record, tem Troca de Família, na mesma emissora, parte da novela A Regra do Jogo e The Voice Brasil (Globo), Programa do Ratinho e A Praça é Nossa (SBT).

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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