Com compra de fatia da NBC por Trump, venda da Miss Universe Organization pode sair já na próxima semana


Negócio ainda precisa ser aprovado por órgão federal anti-truste

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Chip Somodevilla/Getty Images


Após o negócio com a NBC, é preparar para dizer adeus

A compra de 49% das ações da Miss Universe Organization que pertenciam ao grupo de mídia NBCUniversal, finalizada na tarde desta sexta-feira (11), abre o caminho para que o empresário e pré-candidato do Partido Republicano à Presidência dos Estados Unidos, Donald Trump, 69, acelere o processo de venda da entidade ao grupo IMG/WME, administrado pelo agente de modelos Ari Emanuel, 54. Segundo fontes da MUO, Trump deve fechar o negócio com a WME já na próxima semana, para desobrigá-lo, em função dos compromissos de campanha, de arcar com os custos de produção do concurso Miss Universo 2015, cuja realização passará a depender de seus novos proprietários.
Com essa aquisição, Trump passa a ser, nominalmente, dono de 100% do controle da MUO, mas essa situação só irá durar para efetuar a transferência desse controle para a WME, empresa de mídia que adquiriu recentemente a liga esportiva de rodeios PBR (Professional Bull Riders). Desde sua criação, em 1952, esta será a quinta vez que a entidade que organiza os concursos de Miss Universo, Miss USA e Miss Teen USA muda de mãos. A MUO pertenceu inicialmente à Pacific-Mills, adquirida em 1960 pela Kayser-Roth. Em 1977, o concurso foi vendido à Gulf + Western Industries, então dona do estúdio de cinema Paramount. Em 1988, a G+W vendeu o Miss Universo para a MSG Entertainment, dona de canais pagos esportivos e do Madison Square Garden, importante casa de eventos em Nova York. Trump comprou o Miss Universo da MSG em 1996 e fez uma grande reestruturação.
Nos primeiros anos de sua administração na MUO, Donald Trump contratou executivos chave como Paula Shugart, conhecida nos meios televisivos americanos por ter produzido premiações importantes como o Golden Globe Awards, American Music Awards e os Oscars. A promoção de Shugart ao posto de presidenta da MUO ocorreu em 2001, após ter trabalhado nos bastidores de produção dos eventos televisionados da entidade. Durante a violenta defecção que o concurso Miss USA 2015 sofreu em função das declarações discriminatórias do já pré-candidato Trump contra imigrantes ilegais mexicanos -chamando-os inclusive de “traficantes de drogas”, “criminosos”, “contrabandistas” e “estupradores”, Paula Shugart teve um papel crucial para segurar a etapa americana do Miss Universo 2015 na mídia: aceitou uma oferta de US$ 100 mil do canal pago independente ReelzChannel para transmitir o concurso e, com isso, aliviar a barra das famílias das 51 candidatas estaduais que já estavam confinadas em Baton Rouge (Luisiana). A hashtag #SavetheSash chamou a atenção dos órgãos de imprensa e de sites envolvidos até à medula com a verborragia de Trump contra os mexicanos, que custou à MUO contratos de transmissão com a Televisa e Teletica, redes de televisão do México e da Costa Rica, respectivamente. Por tabela, as coordenações dos dois países anunciaram boicote ao Miss Universo 2015, até que Trump se retratasse ou vendesse suas ações na organização do concurso.
Para o Brasil, a venda do controle da Miss Universe Organization deve obrigar o Grupo Bandeirantes de Comunicação a renegociar seu contrato de transmissão do concurso Miss Universo em TV aberta a partir do momento que a WME/IMG assumir as chaves da entidade que organiza o certame. O contrato que a Rede Bandeirantes assinara em 13 de dezembro de 2010 com a MUO, ainda na gestão Trump, vai expirar no dia 13 de dezembro de 2015. Mas os futuros novos proprietários da MUO parecem querer voos mais altos para a exibição do Miss Universo e da promoção do Miss Brasil e de suas etapas regionais. A possibilidade de acordo com alguma das três maiores redes de TV aberta do país – entre Globo, SBT ou Record – não está descartada. Desde 2003, as transmissões da etapa brasileira do Miss Universo na Band perderam 58,57% de média de audiência nos domicílios aferidos pelo Ibope na Grande São Paulo, principal praça de decisões para o mercado publicitário do país.
Para ir adiante, a venda da Miss Universe Organizxation por parte de Donald Trump precisa passar pelas mãos da FTC (Federal Trade Commission), órgão do governo americano encarregado das políticas antitruste. Na avaliação de especialistas de mercado, a transação entre a Trump Organization e a WME/IMG para a transferência de controle da Trump Pageants, braço de concursos da Trump Organization, deve provocar impactos imediatos na indústria dos concursos de beleza. Do grupo da MUO, o primeiro concurso a ser impactado com as mudanças será o Miss USA 2016, cujas etapas estaduais estão em ritmo avançado. As coordenações locais da etapa americana do Miss Universo serão as primeiras a saber da mudança. Na sequência, as mudanças na administração da MUO serão informadas às mais de 80 coordenações nacionais que o Miss Universo possui, já para o concurso de 2015, cuja data e cidade-sede estão em aberto.
Durante os 20 anos de administração de Donald Trump no concurso Miss Universo, o Brasil teve oito classificações entre as semifinalistas, incluindo o segundo lugar de Natália Guimarães em 2007 e o terceiro de Priscila Machado em 2011. Número esse considerado pífio se comparado à quantidade de classificações que a Venezuela teve no mesmo período – 17, incluindo quatro títulos, conquistados em 1996, 2008, 2009 e 2013. A mesma quantidade de classificações foi obtida pelos Estados Unidos, só que com uma quantidade menor de títulos – dois, conquistados em 1997 e 2012, este na fraude conhecida como “propinoduto da Olivia Culpo”.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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