Rumor de venda do Grupo Bandeirantes para grupo americano pode incluir empresa que organiza o Miss Brasil Universo


No mercado, fala-se que o grupo Turner estaria disposto a comprar algumas unidades de negócio que não digam respeito a rádio e televisão e a Enter estaria entre elas

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Reprodução/Facebook/Miss Brasil Universo/Band/25.01.2015


Profissionais de misses da Band podem virar funcionários da Time Warner

A visita de executivos da Turner Broadcasting International às dependências das Rede Bandeirantes de Rádio e Televisão, no bairro do Morumbi (zona oeste de São Paulo), mexeu com os brios de alguns sites que cobrem o mundo televisivo brasileiro ao longo da última semana. Mas, ao que parece, essa visita deve obrigar a Band a se desfazer de negócios que não são da área de rádio e televisão. É o caso da Enter-Entertainment Experience, empresa de eventos que a Band constituiu no final de 2010 para organizar e produzir a parte brasileira do 60º concurso de Miss Universo, realizado na casa de espetáculos Credicard Hall, no dia 12 de setembro de 2011.
Matéria publicada na manhã desta segunda-feira (31) pelo Conexão TV indica para uma provável venda de todas as unidades de negócios da Band (rádio e TV, internet, jornais, mobile, TV em ônibus e metrôs, outdoor TV, TV out of home e promoção de eventos), mas o caminho não é tão fácil como parece. No caso das emissoras de TV aberta (São Paulo, Campinas, Taubaté, Presidente Prudente, Rio de Janeiro, Barra Mansa, Belo Horizonte, Uberaba, Brasília, Salvador, Natal, Curitiba, Porto Alegre, Palmas e Manaus) tem de obedecer aos trâmites previstos pela legislação em vigor. A propriedade intelectual da Rede Bandeirantes de Televisão tem que permanecer nas mãos de brasileiros, no caso, o espólio de João Jorge Saad (1936-1999), comandado pelo filho João Carlos, o Johnny, que já mandava na Band antes mesmo da morte do pai. Pela lei, caso compre parte da Band aberta, a Turner teria de se contentar com apenas 21% do controle acionário, mas na teoria passaria a apitar em alguma coisa, como postos de comando.
Em relação aos cinco canais pagos do grupo – Arte 1, Bandnews, Bandsports, Terra Viva e Sex Privé, a negociação seria um pouco mais fácil, mas teria de passar pelo crivo da Ancine (Agência Nacional de Cinema, agência governamental designada para fiscalizar as atividades de TV paga no Brasil). E também obedecer a contratos de distribuição e direitos de transmissão de eventos previamente fechados com distribuidoras internacionais e entidades esportivas como NCAA (basquete universitário), IAAF (Federação Internacional de Atletismo), FIFA, dentre outras. É aí que reside o calo das pretensões da Turner International com a Band Programadora.
Já no caso da Enter, a negociação seria mais fácil. Bastaria apenas o aval do CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), órgão do Ministério da Justiça encarregado de analisar transações como essa. Por ser uma empresa de eventos, a Enter não precisa da Ancine nem da Anatel (órgão do Ministério das Comunicações que dá as concessões de TV aberta) para mudar de mãos. Um exemplo recente de mudança de comando em empresa de eventos pode ser verificado na extinta GEO, empresa de eventos que a Globo adquiriu do Grupo RBS em 2009. Após o Rock in Rio de 2011, a GEO simplesmente sumiu do mapa.
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Caso a venda da Enter da Band para a Turner International se concretize, poderão ocorrer importantes trocas de cargos de direção que poderão, inclusive, vir a afetar a atual estrutura de organização do concurso Miss Brasil válido pelo Miss Universo. Como até o reino mineral de Michael C. Hall e O Melhor do Carnaval estão cansados de saber, a Time Warner, grupo parente da Turner, jamais teve uma empresa de eventos em seu portfólio. Possui uma vasta carta de programadoras de canais pagos (Turner e HBO), estúdios de cinema, distribuidoras de conteúdos televisivos, editoras de histórias em quadrinhos, editoras de revistas e emissoras de TV aberta. Nos Estados Unidos, os tentáculos da Time Warner avançaram em 2001 para cima da AOL, gigante de Internet que foi à bancarrota e teve de fechar unidades regionais.
Um eventual ingresso da Turner na organização de concursos de beleza poderá causar calafrios em empresas do setor já estabelecidas na América Latina, como a boliviana Promociones Gloria, o Concurso Nacional de Belleza da Colômbia e a Organización Miss Venezuela, esta com aporte poderosíssimo do Grupo Cisneros. Não há de se descartar, perante os olhos da Miss Universe Organization, a formação de um gigante regional de franquias nacionais do Miss Universo. Aos olhos de potências tradicionais como Colômbia, Venezuela, Porto Rico e México, a tratativa Enter-Turner pode lhes soar como uma gravíssima afronta e um claro sinal de provocação.
Caso assuma a direção do Miss Brasil, a Enter sob a batuta da Turner pode fazer tremer a combalida estrutura de concursos estaduais. Em alguns Estados como Mato Grosso do Sul, Roraima, Espírito Santo e Tocantins sequer existe coordenador. O modelo de negócios que a Turner poderia propor aos coordenadores brasileiros seria semelhante ao adotado pelo Miss USA, da Miss Universe Organization: dividir os Estados por grupos de franqueados regionais (de 27 poderia cair para 15 ou 16, a depender da distribuição geográfica). No concurso americano, cinco grupos detém a maioria das etapas regionais mais importantes – D&D Investments (metido no caso das propinas para eleger Olivia Culpo como Miss Universo 2012), Future Productions, Premier Pageants, RPM Productions e Vanbros.

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Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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