Aos 40 anos, a crise da Playboy brasileira é mais grave do que se pensa. A começar pela capa


Na Editora Abril, que publica a revista, o clima já é de velório

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

J.R. Duran/Playboy/Divulgação

Numa carta lúgubre, em tom de despedida aparente, o diretor de redação da edição brasileira da revista Playboy, Sérgio Xavier Filho, disse que seria impossível escolher “a mulher” da capa da edição de 40 anos da publicação, divulgada em seu site oficial na tarde desta sexta-feira (7). Iniciada em 1975 como Revista do Homem e ostentando o título atual desde julho de 1978, a Playboy Brasil, editada pela Abril, atravessou crises econômicas, enfrentou a censura do regime militar e varou a redemocratização. Fabricou musas que iam da Tiazinha/Feiticeira à finada fogueteira daquele lastimável episódio do goleiro Rojas, no velho Maracanã. Ditou hábitos de masturbação de gerações inteiras de jovens e adolescentes, se tornando a primeira opção de iniciação sexual dessa gente entre o início dos anos 1980 (quando foram liberadas as primeiras fotos de nudez frontal, sem restrições), até agora.
A minha decepção com a decisão da direção da Playboy brasileira de não colocar estrela na capa efeméride de 40 anos foi tamanha que a publicação parece renegar seus melhores dias, quando estrelas do naipe de Cleo Pires, Adriane Galisteu, Grazi Massafera, Joana Prado, Maria Zilda e Patrícia Melo ornavam suas edições de 10, 15, 20, 25, 30 ou 35 anos a cada agosto. Desde o início da onda dos realities televisivos, em 2000, apenas três participantes desse tipo de programa foram capa e recheio principal da edição mais nobre da publicação no país. E, por tabela, a que atraía maior número de anunciantes – em tempos dourados, iam de 30 a 40. Hoje, não dá nem para sonhar com uma cifra destas. Através da Veja, a Abril vai culpar a “crise econômica” da “era Dilma 2” por não ter o caixa necessário para contratar estrelas de realities ou comerciais, atrizes de novelas ou figuras fáceis de escândalos políticos por ela fabricados.

Playboy/Reprodução

Por decisão da direção de redação, a edição de agosto de 2015 não terá estrela nenhuma na capa. Convites fracassados foram feitos à atriz Bruna Marquezine e à modelo Carol Portaluppi e ambos foram recusados. No ano passado, a atriz Jéssika Alves foi convidada em cima da hora e um ensaio foi feito às pressas, no distrito de Conservatória, no município de Valença (região sul fluminense). Para piorar, a atual gestão da Abril “secou” o caixa que serviria para pagar o cachê da potencial estrela de 40 anos da Playboy. Não há motivos para comemorar e o clima já é de velório: depois da venda de alguns títulos para a Editora Caras e fechamento de outros, a Playboy Brasil entrou na linha de tiro da Anril para venda ou descontunuidade (“solução de continuidade”, na tradução para a linguagem de imprensa direitista adotada pela editora da família Civita, que já se desfez de diversos negócios desde a década de 1990, entre hotéis, provedores de Internet, canais de TV paga e aberta e a concessão da MTV, devolvida para a Viacom).
Na postagem da carta, a Playboy Brasil apresentou uma opção de capa interativa que, aparentemente, parece desnudar uma modelo comum, vinda de um Casa Bonita qualquer. Mas que, no fundo, põe a nu a incompetência de executivos da Editora Abril na gestão do negócio de lifestyle e revistas masculinas – a VIP é a outra publicação do núcleo de Playboy, que abriga ensaios mais comportados. Abaixo, a íntegra da carta de Sérgio Xavier Filho:

Os 40 anos

Na revista dos 40 anos, era preciso fazer algo especial. Tudo especial, do início ao fim. Seria impossível definir “A mulher” dos 40 anos. Loira, morena, negra, oriental, quem seria ela? Ninfeta ou uma beleza clássica? Famosa ou uma adorável revelação? Em 40 anos, Playboy fez de tudo um pouco. Despiu quem o Brasil mais desejava e tirou a roupa de quem o Brasil nem sabia que existia. A capa da revista dos 40 anos é uma homenagem ao ato de despir. Pela primeira vez na história, é o leitor que interage abrindo nosso zíper metafórico. E, aos poucos, ele se deliciará com a nossa história folheando página por página. São 60 páginas com as mulheres que fizeram a nossa história. Escolher apenas uma era impossível, já foi difícil demais eleger as nossas 40 musas fundamentais. Temos ainda Maitê Proença contando tudo no entrevistão, Duran inspirado em um ensaio com nosso símbolo máximo, Xico Sá relembrando nossos melhores momentos. Em uma data tão especial, uma especialíssima revista.
Nas bancas a partir de segunda-feira (10/8)!

Como se nota, a matriz americana da publicação, em Chicago, vai ser a última a saber do descalabro que a Abril está fazendo com a revista Playboy no Brasil. Logo, um título que o patriarca Victor (1907-1990) adorava em sua vivência americana.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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