Com Donald Trump em campanha à Casa Branca, a Miss Universe Organization virou um trem desgovernado


Sozinha, Paula Shugart não consegue dar conta de todo o processo de transição da administração da entidade que promove o Miss Universo e outros dois concursos

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Jonathan Bachman/Associated Press/08.06.2014


Presidenta da MUO terá a tarefa de escolher sede do Miss Universo 2015

A ingovernabilidade passou a tomar conta do ambiente de trabalho da Miss Universe Organization desde que seu co-proprietário, Donald Trump, tomou a decisão de lançar sua pré-candidatura à Presidência dos Estados Unidos, pelo Partido Republicano, no dia 16 de junho. Da mais alta executiva ao mais simples coordenador municipal, todos estão apreensivos em relação ao calendário com vistas ao Miss Universo 2015, Miss USA 2016 e Miss Teen USA 2016. Nos Estados Unidos, a temporada de concursos estaduais para estes dois últimos certames começa em setembro e muitas coordenações locais já estão preocupadas com o que vão fazer para prepararem suas candidatas. Em se falando da etapa americana do Miss Universo 2016, a coisa é pior.
Se atendo ao concurso Miss Universo 2015, o cenário de incerteza começa a preocupar coordenações nacionais que não romperam com a Trump Pageants – empresa de concursos de beleza constituída por Trump para gerir o concurso na sua ausência em função da campanha pré-presidencial (e também para manter o evento no âmbito da família). Países como Equador, Colômbia, Venezuela e Grã-Bretanha já elegeram suas candidatas. No Brasil, cuja coordenação nacional também não rompeu com Trump nem com a MUO, os concursos estaduais seguem seu calendário normal como se um problema mais sério não estivesse acontecendo lá atrás, na entidade que concedeu licença à Enter para promover o concurso de Miss Brasil. A Band não é culpada de nada, a culpa da crise no Miss Universo é dos americanos e ponto.
Isolada, Paula Mary Shugart, executiva que Trump contratou no mercado para presidir a Miss Universe Organization, em 1995, parece estar no comando de um manicômio, dado o ambiente amplo de dúvidas e apreensão que já começa da definição da cidade-sede do Miss Universo 2015, a 64ª edição do certame. Bogotá já disse adeus depois das declarações racistas e discriminatórias de Trump contra imigrantes ilegais mexicanos, taxados pelo co-proprietário da MUO de “estupradores”, “criminosos” e “traficantes de drogas”. Pequim, dizem, já estaria no páreo, mas o que vai pesar contra a realização do concurso na capital chinesa não é a política de violação de direitos humanos e sim a poluição a níveis capazes de matar, ao menos, entre 15 a 20 competidoras a curto prazo em função de doenças respiratórias crônicas e câncer, decorrentes da inalação dos gases tóxicos que enevoam as paisagens que as misses vierem a percorrer.
O isolamento de Shugart em relação a Trump foi bastante nítido na realização do concurso Miss USA 2015, principalmente depois que as redes NBC e Univisión rescindiram seus contratos de transmissão, avaliados, somados, em US$ 27 milhões. Em declaração pública e em artigo de jornal, Paula Shugart enfatizou que a Miss Universe Organization “é uma entidade simples, independente de seus donos” – no caso, a NBCUniversal e a Trump Pageants. Com a dissolução dessa parceria, a MUO tratou de isolar Trump dentro de sua redoma para não atrapalhar a programação que as 51 candidatas estaduais cumpriam na cidade de Baton Rouge (Luisiana), culminando na apagadíssima final televisionada do domingo (12), pelo canal Reelz, cujo alcance chega a apenas 58,5% dos lares americanos com TV por assinatura.
Passado o Miss USA 2015, a Miss Universe Organization volta agora suas atenções para a preparação do Miss Teen USA 2015, previsto para o sábado, 22 de agosto, em Nassau (Bahamas), no mesmo resort que sediou o Miss Universo em 2009. Mas sabe que após a versão adolescente do Miss USA, que conta com as mesmas coordenações estaduais da competição adulta, a MUO terá pela frente uma violenta batalha de cruz e espada para decidir data e cidade-sede do Miss Universo 2015, mais dramática que a escolha de Miami/Doral para sediar o Miss Universo 2014. Sem Trump no controle da MUO, cuja cota de 49% já estaria sendo posto à venda, a entidade que fiscaliza a realização dos concursos nacionais, concede licença a franqueados nacionais e estaduais (cerca de 150, somando-se coordenações estaduais do Miss USA/Miss Teen USA e coordenações nacionais do Miss Universo) e promove todo o processo de produção do Miss Universo se transformou em um trem desgovernado, prestes a descarrilar. Facilidades como o uso do Trump National Doral para hospedagem das candidatas deixarão de existir.
Para piorar a coisa, caberá exatamente a Paula Shugart a duríssima tarefa de conversar com as coordenações dissidentes do México, Costa Rica e Panamá, para tratar de aparar as arestas existentes acerca do envio de suas candidatas ao Miss Universo 2015. A venda dos 49% de controle da MUO é crucial para a confiabilidade do Miss Universo junto a empresas de comunicação como Televisa, Teletica e Telemetro, as quais terão de negociar novos acordos de transmissão do Miss Universo para seus respectivos países. Curar feridas não é tarefa de Shugart, pois ela não é médica licenciada. Mas como executiva, pode gerenciar crises como a que o Miss Universo atravessa em termos de credibilidade e de imagem junto a esses três mercados. Um deles já tem dois títulos de Miss Universo, é uma das mais importantes economias da América Latina e tem fãs entusiasmados de concursos de beleza, a começar de Lupita Jones e do porteiro da Televisa Sán Angel, central de produção de novelas da Televisa, na Cidade do México. Os outros dois, performances mais modestas – a melhor delas é do Panamá que tem um título herdado em função da destituição da vencedora original, que preferiu passear em Moscou do que trabalhar.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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