Se não disserem #ForaTrump, dias piores virão para a realização do concurso Miss Universo 2015


Sem uma parceria televisiva de ponta, concurso internacional pode caminhar para o descalabro na televisão norte-americana

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Alexander Nemenov/AFP/09.11.2013


Fora! Vaza! Desinfeta!!!!!

As declarações racistas e discriminatórias do empresário Donald Trump, pré-candidato do Partido Republicano à Presidência dos Estados Unidos, contra os imigrantes mexicanos quando do lançamento de sua campanha, causaram um abalo terrível na estrutura já fragilizada da Miss Universe Organization, que sem Trump, se resume a oito executivos comandados por Paula Shugart, executiva contratada por Trump para presidir a entidade que promove o concurso Miss Universo e outros dois concursos nacionais desde 1996. Soaram como uma bomba de efeito moral, avassalador sobre a reputação do principal concurso de beleza do mundo e, passada a eleição da Miss USA 2015, a oklahomana Olivia Jordan, lançaram dúvidas ainda mais cruéis sobre a viabilidade da realização do Miss Universo 2015, agravadas principalmente com os rompimentos dos acordos de transmissão televisiva com a NBC e a Univisión. Parafraseando a declaração da primeira emissora, respeito e dignidade com todas as pessoas são pedras fundamentais dos valores que norteiam a MUO desde 1952, quando ocorreu a primeira edição do MU, em Long Beach.
Sem a NBC nem a Univisión, ficará ainda mais difícil para a Miss Universe Organization negociar os direitos internacionais de TV do 64º concurso de Miss Universo, cuja data ficou ainda mais em aberto depois da retirada da candidatura de Bogotá, na terça-feira (30/6). Um eventual acordo com a Reelz para transmitir o Miss Universo 2015 nos Estados Unidos já é visto com pavor nos interiores da MUO, que correm para cortar o máximo possível os laços que mantém com Trump há 19 anos. Laços esses que começaram quando o concurso ainda era transmitido pela CBS, mas já sofria para dar audiência em comparação à 1974. No primeiro ano da gestão Trump, o Miss Universo registrou 11,92 milhões de telespectadores, subiu para 13,17 milhões no segundo, e em 1998 despencou para 12,26 milhões de telespectadores. Só no último ano do contrato da MUO com a CBS, em 2002, o concurso conseguiu voltar à marca dos 10 milhões de telespectadores após quedas sucessivas (ver tabela):

Data Espec (em milhões) Rede Média Share Dom (em milhões)
17/5/1996 11.92 CBS 8.3 15 7.98
16/5/1997 13.17 CBS 9.8 18 9.54
12/5/1998 12.26 CBS 8.7 14 8.50
26/5/1999 10.96 CBS 8 13 7.97
12/5/2000 8.61 CBS 6.1 11 6.11
11/5/2001 8.27 CBS 5.8 11 5.91
29/5/2002 11.34 CBS 8.1 13 8.51

Siglas e abreviaturas utilizadas: Espec-Espectadores (em milhões); Dom-Domicílios (em milhões)
(*)Dado não disponível

Após o sucesso de audiência do Miss Universo 2002, CBS e Trump conversaram para uma possível renovação, mas falou mais alto o interesse financeiro da NBC, que já liderava à época a audiência entre os telespectadores na faixa de 18 a 49 anos. Depois de uma ligeira evolução em 2003, o Miss Universo só fez perder audiência até 2011 nas medições americanas da Nielsen Media Company. O fundo de poço chegou a ser registrado na edição de 2011, realizada em São Paulo, vista por apenas 5,3 milhões de telespectadores. De 2012 a 2014 (com concurso realizado já em janeiro de 2015), o Miss Universo experimentou uma curva de sobe e desce, como pode se atestar no gráfico abaixo:

Data Espec (em milhões) Rede Média Share Dom (em milhões)
3/6/2003 12.07 NBC 7.9 13 8.42
1º/6/2004 10.48 NBC 6.9 11 7.48
30/5/2005 9.19 NBC 6.1 10 6.72
23/7/2006 9.65 NBC 6 10 6.62
28/5/2007 7.23 NBC 4.5 8 5.01
13/7/2008 6,712 NBC 4,1 * *
23/8/2009 6 NBC 2,1 6 *
23/8/2010 6,062 NBC 3,8 6 *
12/9/2011 5,3 NBC 1,6 4 *
19/12/2012 6,1 NBC 3,9 6 *
9/11/2013 3,76 NBC 0,9 2 *
25/1/2015 7,6 NBC 4,9 8 *

NOTA: Os dados de 2006-11 são para audiência ao vivo/gravada, todos os anos anteriores são de audiência ao vivo.
Siglas e abreviaturas utilizadas: Espec-Espectadores (em milhões); Dom-Domicílios (em milhões)
(*)Dado não disponível

Pode ter contribuído para a derrocada violenta do Miss Universo na NBC entre 2003 e 2011 as sucessivas trocas de comando em sua área de entretenimento ligada a especiais e programação alternativa. Também pesaram para isso as políticas erradas de programação que a emissora adotou (excetuando-se Olimpíadas – que já estavam na grade – e jogos dominicais de horário nobre da NFL – que passaram a integrar o portfólio da NBC em 2006). Também pesaram para essa derrocada o fraco nível das vencedoras do Miss USA que eram enviadas para a disputa do Miss Universo. Mas, em 2012, o fator “torcida de casa” pesou para que a NBC curasse um pouco as feridas profundas causadas com a derrocada de público que o Miss Universo sofreu desde 2003. O favoritismo de Olivia Culpo, fabricado por um esquema de corrupção que já estava necrosado após sua eleição como Miss USA, levou o Miss Universo a ter um novo ânimo junto à NBCUniversal e sua gama de mais de 20 canais abertos e pagos. Renovou-se o contrato de transmissão em língua inglesa deste concurso e do Miss USA até 2018 pelo valor de US$ 13,5 milhões. Com a Telemundo, canal hispânico do grupo, Trump não quis nem conversa: depois do Miss Universo 2014, a parte latina da NBCU para os Estados Unidos perdeu o certame para a Univisión, em um acordo ambicioso, de valores semelhantes, que jamais foi posto em prática. A ira de Trump, o pré-candidato, contra os mexicanos doeu para os bolsos da Univisión, rede hispânica de maior audiência dos Estados Unidos. Do alto de seu desespero, Trump processa a Univisión, mas na prática deveria ocorrer o contrário: a Univisión é quem deve processar Trump pela misoginia de seus comentários absurdos e irresponsáveis, que já arranharam sua reputação também como empresário.
Caso Trump venda sua parte da Miss Universe Organization o quanto antes à NBCUniversal, o próprio grupo de mídia é quem deve sair no benefício. Ou melhor, deveria. O rompimento dos laços empresariais da NBC com Trump, anunciado no dia 29 de junho, corroeu as chances de o concurso Miss Universo 2015 encontrar uma emissora à altura (que não seja a irrelevante Reelz) para assegurar uma boa resposta de público nos Estados Unidos. Com a distribuição internacional, não haveria problema algum, vez que os contratos são assinados pela empresa Alfred Haber, parceira da MUO desde 2002. Nesse ponto, a exibição do Miss Universo 2015 no Brasil por parte da Band e do canal pago TNT está assegurada. O problema central agora está em encontrar a geradora americana para o evento. E o principal: um país que se disponha a sediar o concurso desde que Donald Trump saia imediatamente do controle da MUO. Fora! Basta! Chega!

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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