Miss Universo 2015: Band pode estar pagando por um concurso ameaçado de não ter geração internacional


NBC e Univisión “amputaram” as pernas midiáticas que o certame tinha

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Band/Divulgação/21.12.2010


Trump e Saad (com Navarrete ao fundo): ação entre amigos

As decisões da Univisión e da NBC de cancelarem seus contratos de geração internacional do concurso Miss Universo, em função das declarações anti imigratórias de seu co-proprietário, Donald Trump, contra mexicanos, causaram um mal estar profundo nas coordenações nacionais do certame, cuja edição de 2015 está com os concursos nacionais em pleno andamento. O próximo será o Miss USA 2015, que vai credenciar, na marra, a representante americana para a disputa, no próximo dia 12, em Baton Rouge (Luisiana).
No México, país alvo da fúria racista de Trump (que já assumiu em uma de suas redes sociais detestar Black-ish, apesar de duas negras terem vencido o Miss Universo sob sua gestão, iniciada em 1996), a Televisa tomou uma medida extrema: cancelou todos os contratos firmados com a Trump Organization, inclusive o que assegurava envio da representante do país ao Miss Universo. Sob a gestão de Lupita Jones, eleita Miss Universo em 1991, iniciada em 1995, o México conseguiu resultados expressivos no Miss Universo, culminando no título de Ximena Navarrete em Las Vegas, no dia 23 de agosto de 2010.
Uma vasta corrente de artistas, encabeçados por Zuleyka Rivera e que desembocou mais recentemente em Cheryl Burke e Thomas Roberts, disse não às patranhas racistas e intolerantes de Trump, pré-candidato do Partido Republicano à Presidência dos Estados Unidos. Em declaração à imprensa emitida na segunda-feira (29), a NBC também apeou Trump da condição de produtor-executivo da franquia The Apprentice. Por ser produção de Mark Burnett e da FremantleMedia, o programa vai seguir na grade, porém com outro nome a ser procurado no mercado, entre executivos de grande influência.
No Brasil, apesar de todo o tormento causado por Donald Trump, a Rede Bandeirantes decidiu nesta terça-feira (30) manter o Miss Universo 2015 na agenda de transmissões. Mas, com NBC e Univisión fora da geração internacional de imagens, a Band o fará em que condições? Vai fazer por telepatia, adivinhação? O problema mais grave na transmissão internacional do Miss Universo 2015 não está na Band – a emissora da família Saad não é culpada de nada. Mas na organização americana, encabeçada pela verminose chamada Donald Trump, que tanto mal fez aos latino-americanos ao corroborar com um amplo esquema de compra de votos para a eleição da americana Olivia Culpo como Miss Universo 2012. Esquema esse que teve entre seus articuladores a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), o Instituto Millenium, a ONG Palavra Aberta, as empresas petrolíferas Chevron, ExxonMobil e ConocoPhillips, o banco CapitalOne e os grupos RBS e Globo (cuja rede aberta cede à Band eventos FIFA, o Brasileirinho da série A e o próprio Miss Universo, além do Miss Brasil válido pela disputa internacional).
Entre especialistas de mercado, estima-se que a Band pague US$ 10,5 milhões (em bases menores às que eram pagas pela NBC e Univisión) para transmitir o Miss Universo e promover ou apoiar as mais diversas etapas do Miss Brasil, desde as mais de 300 disputas regionais (entre concursos municipais e estaduais) até o concurso nacional. Ao TV em Análise Críticas, um representante da direção da Enter disse, sob condição de anonimato, que a Band pode aferir com as misses prejuízo maior ao que é registrado com a Fórmula Indy, de carros seminovos mal guiados por incompetentes como Hélio Castroneves e Tony Kanaan. Dos R$ 35 milhões, o rombo da Band com os concursos, segundo essa fonte, pode ter passado dos R$ 115 milhões desde 2012, em valores acumulados. Só com o projeto Miss 2014, a Band perdeu R$ 35 milhões (Para o montante pago pela Band à Miss Universe Organization, o Críticas usou o dólar americano como referência, por ser esse o valor usado pelas emissoras internacionais no pagamento de direitos de transmissão do concurso de beleza).

Rancor com rancor

À semelhança e imagem de Donald Trump, o presidente do Grupo Bandeirantes de Comunicação, João Carlos Saad, vulgo Johnny, investe em imóveis e sua família é dona de fazendas, fruto de herança. Mas não para promover campeonatos de golfe, como ocorre no Trump National Doral, e sim para especular com latifundiários. A ligação do responsável pela concessão do Miss Universo para o Brasil com os ruralistas de seu país é pública e notória. Desde 2009, Johnny Saad tem ordenado sucessivos editoriais e matérias contra os movimentos sociais ligados ao Partido dos Trabalhadores (PT), legenda essa da qual seu pai, João Jorge Saad (1919-1999), era bastante simpático. Tão simpático a ponto de dedicar espaços nobres na programação de sua emissora a causas defendidas por elementos da esquerda como o combate à fome e a campanha das Diretas Já, combatida nos estertores pelo comatoso e desesperado governo militar do general Figueiredo.
A fúria da Band contra os governos petistas começou com um editorial lido por Joelmir Beting (1936-2012) contra os chamados “índices de produtividade”, partido do dono de 16 fazendas com 4.500 hectares no Estado de São Paulo. O alvo era o então ministro da Agricultura Reinhold Stephanes, designado pelo então presidente Luís Inácio Lula da Silva para fazer a atualização dos índices de produção rural vigentes desde 1980 e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Alinhada com a UDR (União Democrática Ruralista) e deputados do PMDB ligados ao agronegócio, a Band conseguiu que nem Lula, tampouco sua sucessora Dilma Rousseff, não mexessem nos valores. Quando Johnny Saad assinou o contrato pela Band para organizar o Miss Universo 2011, em São Paulo, o MST já tinha sido desestabilizado pelo jornalismo da emissora. A ponto de levar ao ar, poucos dias após a assinatura do acordo com Trump, uma retrospectiva rancorosa e raivosa sobre os oito anos do governo Lula. “Não compactuo com ilegalidades, nem com invasão de prédios públicos nem com invasão de propriedades que estão sendo produtivamente administradas”, disse a então presidenta eleita, presa política durante a “ditabranda” militar, um mês antes do acordo Trump/Band/NBC/MUO, que já foi para o ralo. Antes, durante e depois do Miss Universo 2011, a Band produziu centenas de matérias contrárias às administrações petistas. Muitas delas, com o intento criminoso de requentar escândalos como o assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, em janeiro de 2002, com o objetivo de colá-los, sem sucesso, à campanha de reeleição de Dilma, no ano passado.
Ao ódio petista, soma-se o racismo praticado pelo coordenador técnico do Miss Brasil, Evandro Hazzy, transferido da filial de Porto Alegre para São Paulo em 2011. No Miss Brasil 2014, Hazzy e seus “jurados técnicos” desclassificaram das semifinais as duas únicas negras que competiam no concurso: a mineira Karen Porfiro e a tocantinense Wizelany Manques. Houve quem reclamasse da abordagem do Críticas sobre o assunto. Chegaram até a sugerir que a candidata do Pará tinha tido “sessões de relaxamento”. Onde? No comitê de campanha de reeleição de Simão Jatene (PSDB), principal adversário de Jáder Barbalho (PMDB), proprietário da afiliada da Band em Belém? Façam-me o favor!

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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