30 anos depois das denúncias envolvendo Márcia Gabrielle, corrupção no Miss Brasil pouco (ou nada) mudou


Denúncia da Folha acendeu estopim para uma série de escândalos que o concurso tem vivido desde então, muitas delas ocultadas da grande mídia

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Marcos Serra Lima/EGO/24.08.2012


PARA FAVORECER GOVERNADOR
Segundo suposto funcionário do SBT, Márcia seria “empurrada” para a final do concurso

Em 8 de junho de 1985, uma reportagem da Folha de S. Paulo, intitulada “Miss Brasil acusado de fraude”, revelava um esquema de corrupção para eleger a carioca Márcia Giagio Canavezes de Oliveira, a Márcia Gabrielle, então com 21 anos, como Miss Brasil pelo Estado de Mato Grosso. De acordo com a reportagem, um informante que se passou por funcionário do SBT denunciou à publicação que jurados do certame estariam sendo comprados para dar peso político ao então governador Júlio Campos (à época no PFL). Entre os alvos do esquema estariam nomes como Pelé, a Miss Universo 1963 Ieda Maria Vargas e a atriz Pepita Rodrigues, todos integrantes do júri do concurso, realizado no Palácio das Convenções do Anhembi, em São Paulo. Na época da denúncia, o Brasil acabara de sair de um ciclo tenebroso de 21 anos de governos militares que jogaram o país na lona, fosse na economia ou nos concursos de beleza. O “dia lindo” antevisto por Cazuza no dia 15 de janeiro, horas após o Colégio Eleitoral que elegera Tancredo Neves (1910-1985) como primeiro presidente civil do país, durante a emblemática apresentação no primeiro Rock in Rio, no atual Parque dos Atletas, na zona oeste do Rio de Janeiro de Márcia, estava fadado a entrar nas trevas.
Classificada em último lugar no concurso de Miss Cuiabá, Márcia Canavezes foi inscrita no concurso Miss Mato Grosso 1985 para representar a cidade de Barão de Melgaço (102 km ao sul da capital mato-grossense). De acordo com a Fonte Luminosa da Folha, Márcia foi eleita Miss Mato Grosso porque pessoas ligadas à administração Júlio Campos e a Valdir Viana, que pretendia escrever um livro sobre misses, estavam no júri. Em dezembro de 2014, o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso confirmou a cassação do mandato de Júlio Campos como deputado federal, já no DEM, por uso de caixa 2 e compra de votos nas eleições proporcionais de 2010.
Também estava entre os jurados o então presidente da Paulistur (Empresa de Turismo do Estado de São Paulo), João Dória Jr., futuro articulador político do movimento Cansei, formado após a tragédia do voo 3054 da TAM no Aeroporto de Congonhas, em julho de 2007, com a participação de artistas como Hebe Camargo, Ana Maria Braga, Regina Duarte e Ivete Sangalo, e de frentes empresariais contra os governos trabalhistas de Luís Inácio Lula da Silva (2003-2010) e Dilma Rousseff (desde 2011) sediadas em Comandatuba (BA). De acordo com o então produtor do Miss Brasil, Homero Salles, “era impossível que ocorresse uma fraude no concurso, pois os votos das cinco finalistas eram dados individualmente e entregues nas mãos das misses”. Salles também defendeu a elegibilidade de Márcia Gabrielle porque o regulamento de então não obrigava que a aspirante a Miss Brasil fosse natural do Estado pelo qual competiria, mas tivesse residência neste com pelo menos um ano de antecedência em relação ao concurso. Tal exigência prevalece no regulamento atual do Miss Brasil, produzido pela Enter, empresa de eventos da Rede Bandeirantes, que detém a concessão do Miss Universo para o Brasil desde 2011.
Trinta anos após o “caso Márcia Gabrielle”, outros escândalos de corrupção ocorreram em concursos estaduais válidos pelo Miss Brasil e até mesmo no Miss Universo. Em dezembro de 2012, um consórcio de entidades de direita, liderado pela Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), participou do esquema de propinas que levou à eleição da norte-americana Olivia Culpo como Miss Universo, na cidade de Las Vegas. À ocasião, até verbas de emergência para recuperação das cidades afetadas pelo Furação Sandy foram desviadas para compor o chamado “propinoduto da Olivia Culpo” ou “Culpogate”, numa alusão ao escândalo que levou à renúncia do presidente Richard Nixon, em 1974, após denúncias de dois repórteres do The Washington Post. Em maio de 2015, o coordenador do concurso Miss Sergipe, Deivide Barbosa, foi expulso dos quadros da organização do Miss Brasil/Miss Universo por suspeitas de corrupção na organização da etapa local do Miss Brasil 2015, realizada no dia 25 de abril, em um teatro da capital, Aracaju. Uma troca de candidata chegou a ser efetuada, mas já era tarde: a Enter, atual concessionária do Miss Universo para o Brasil, descobriu um mar de irregularidades na gestão de Barbosa, coordenador do certame havia quatro anos.
Em três décadas, as coordenações brasileiras do Miss Universo foram trocadas como se troca de roupa ou de toalha de banho. Práticas de estelionato, fraude em cédulas de votação, propinas e até desvio de verbas públicas emergenciais, inerentes ao período dos Diários Associados e jamais levadas a público, continuaram nos convescotes de uma convenção de pautas proibidas pelo “Padrão Globo de Imbecilidade”, a pretexto de preservar os interesses da elite dominante de satanizar movimentos sociais e endeusar cafajestes do Deus Mercado Tom Brady e da máfia “Padrão FIFA”, que envergonha este país desde o Mundial de 1970, primeiro televisionado via satélite, a exemplo da festa de entrega do Oscar do ano em questão e do Miss Universo 1971, realizado em Miami Beach, ainda em preto e branco. Como se nota no título, pouco (ou nada) se alterou nesse quadro cancerígeno que deteriora, destrói e desestimula a indústria dos concursos de misses, que já foi motivo de orgulho nacional, trouxe glórias para o país e agora chafurda num parâmetro tucano de varrer as coisas para baixo.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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Uma resposta para 30 anos depois das denúncias envolvendo Márcia Gabrielle, corrupção no Miss Brasil pouco (ou nada) mudou

  1. A vitória dessa moça Márcia Gabrielle, no concurso de miss, foi uma fraude do começo ao fim, a começar pelo miss Mato Grosso onde “saiu” vencedora. Na verdade foi tudo comprado e combinado, ela já saiu do Rio para ser eleita lá, tudo carta marcada. Conheço a pessoa que disputou e ficou em segundo lugar nessa época, essa sim merecia a coroa, mas é o Brasil, terra da corrupção.

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