Em 2015, vamos completar 30 anos de muita coisa


Redemocratização, Live Aid, Rock in Rio, enchentes no Nordeste, Márcia Gabrielle, fim do monopólio da televisão no Piauí…

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Junior Araújo/Meio Norte/26.04.2010


Torre atual da Rede Meio Norte, segunda TV do Piauí

2015 já está na praça e o ano vai marcar três décadas de muita coisa importante nos campos da cultura, da política, da natureza e das comunicações. Neste ano que começou há exatos 68 dias, completam-se 30 anos dos primeiros peoplemeters, aparelhinhos de medição domiciliar de audiência televisiva que o Ibope instalou na Grande São Paulo, para precisar a audiência domiciliar de programas e de emissoras – reivindicação antiga, aliás, dos dirigentes das principais redes do país.
Em 2015 também completam-se 30 anos do início do fim do monopólio da televisão no Piauí, com a entrada no ar da TV Timon, então repetidora da Rede Bandeirantes instalada na cidade maranhense de mesmo nome, para fazer frente à onipresença da TV Clube, afiliada da Rede Globo, que detinha a exclusividade da exploração do serviço na capital, Teresina. Por anos, era comum turistas do eixo Rio-São Paulo saírem do Piauí com a péssima impressão de que era um Estado atrasado em termos culturais e, principalmente, de comunicação. Um acordo de afiliação assinado entre a Band e a TV Pioneira, no entanto, interrompeu essa saga no dia 27 de dezembro, e o Piauí voltou por 10 dias ao retrocesso. O monopólio televisivo no Piauí acabaria definitivamente no dia 8 de janeiro de 1986, com as primeiras imagens da Pioneira no canal 5. A TV Timon, no canal 7, passaria a retransmitir as imagens do SBT só a partir do dia 23 de março. Em 1º de janeiro de 1995, passaria a adotar a denominação atual de TV Meio Norte. Após uma breve afiliação à Band e já instalada no colosso do Monte Castelo a exemplo das outras emissoras, viraria emissora independente em 1º de janeiro de 2011 já na condição de cabeça da Rede Meio Norte.
Com a concessão pré-existente da TV Educativa, o Piauí entraria 1986 com quatro emissoras de televisão. A exemplo da Educativa, as licenças para a TV Timon e TV Pioneira foram dadas em agosto de 1984, quando a campanha pela eleição presidencial indireta começava a se intensificar. De um lado, Tancredo Neves, candidato do PMDB, partido de oposição ao regime militar. Do outro, Paulo Maluf, candidato do PDS, partido de sustentação do regime militar, sucessor da Arena e da UDN, e apoiado pelo general João Figueiredo. As concessões de TV para o Piauí foram reflexo da tensão política que o país vivia após a derrota da Emenda Dante de Oliveira, que estabelecia eleições diretas para presidente já em 1985. E não foram caso único: de acordo com o Ministério das Comunicações, foram outorgadas em todo ano de 1984 99 concessões de rádio e televisão. No período que antecedeu a posse do sucessor de Figueiredo, a orgia de concessões de rádio e televisão dadas no crepúsculo do ciclo de 21 anos de regimes autoritários chegou a 91 outorgas – um pouco menos que o registrado em todo o ano de 1984. Para se ter uma ideia, só em 1982, que foi ano de eleição direta para os governos estaduais (a primeira desde o golpe de 1964), a pasta outorgou 134 concessões. Em 1983, ano em que podem ter saído as concessões de TV para o Piauí, o Minicom concedeu 80 outorgas. Isso, apesar da maxidesvalorização da moeda da época, o cruzeiro, ante o dólar norte-americano.
A vitória de Tancredo no Colégio Eleitoral realizado no dia 15 de janeiro por 480 votos contra 180 dados a Maluf (de cujo sobrenome sairia o verbo jocoso “malufar”, sinônimo de corrupção para os oposicionistas do ex-governador biônico de São Paulo) fez a Nova República que surgia colocar um dreno na farra de concessões dadas a políticos do interior e de Estados menos desenvolvidos e até áulicos do regime autoritário que saía de cena, depois de um ciclo de mortes violentas nos porões da repressão, censura a peças de teatro, a telenovelas e até mesmo ao inocente balé Bolshoi de Moscou. Reportagem da revista Veja publicada em 27 de março relatou um verdadeiro “festival de concessões” encontrado pelo novo ministro das Comunicações, o ex-governador biônico da Bahia, Antônio Carlos Magalhães, ele próprio aquinhoado com uma concessão de TV em Salvador.
De acordo com o Plano Básico de Distribuição de canais de TV do Minicom, Teresina tinha espaço bastante para a outorga de novos canais. Em julho de 1980, constava apenas o canal 10, então ocupado pela repetidora da TV Difusora de São Luís (então afiliada à Rede Globo no Maranhão). Os canais 2, 5 e 7 só surgiriam depois que o órgão constatou uma demanda reprimida de televisão para a cidade de Teresina, que àquela época já tinha uma população superior a 400 mil habitantes. Não dava mais para conviver com um único canal de televisão. A situação já era insustentável: não dava mais para conviver com apenas uma voz dissonante na televisão e a interdição diária do debate de ideias, restrito a jornais e programas de rádio. A TV Educativa do Piauí, aliás, era uma das promessas da campanha do candidato do PDS ao governo estadual, Hugo Napoleão, ainda em 1982. Em 1983, o processo do Centro de Teleeducação do Piauí chegou ao Ministério das Comunicações. Durante as competições das Olimpíadas de Verão de Los Angeles, em agosto de 1984, as concessões da TVE, da TV Pioneira (dada ao empresário Jesus Elias Tajra) e da TV Timon (na verdade, uma licença de retransmissão dada à prefeitura municipal) já haviam parido no Diário Oficial da União. Nessa mesma época, o Ministério da Educação autorizara a criação do curso de Comunicação Social na Universidade Federal do Piauí, a princípio apenas para a habilitação de jornalistas. Interessados em se tornar profissionais de rádio ou de TV tinham de recorrer à Escola Técnica Federal do Piauí ou ir para outros Estados.
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Arquivo/Manchete/15.01.1985

Além da boa nova para a comunicação do Piauí, 2015 marca também os 30 anos de uma intensa movimentação no meio musical, aqui e lá fora. Rock in Rio, Live Aid, We Are the World e Chega de Mágoa para a miséria na Etiópia e a desgraça das águas no Nordeste brasileiro, já assolado por uma violenta seca que foi de 1979 a 1983, a ponto de fazerem chorar Robert McNamara (então presidente do Banco Mundial, o qual emprestara US$ 300 milhões para socorrer os flagelados) e o próprio general Figueiredo. E também os 30 anos do derradeiro dos grandes festivais da Música Popular Brasileira, organizado pela Rede Globo. Outras tentativas fracassadas de ressucitar os eventos desse gênero ocorreram em 1992, na Rede Record, e em 2000, na própria Globo. Escrito nas Estrelas, de Carlos Rennó, interpretada pela matogrossense Tetê Espíndola, venceu o Canto de Cisne dos festivais, tragados por realities de competição tipo American Idol, The Voice, Rising Star e assemelhados.
Em 1985, o país entrava na rota dos grandes concertos de rock, graças à mente visionária de Roberto Medina, que já trouxera Frank Sinatra para um Maracanã lotado, cinco anos antes. Dono da agência de publicidade Artplan, em parceria com a Globo, Medina arregimentou alguns de seus anunciantes para bancarem a vinda de artistas do quilate do recém-falecido Joe Cocker, Nina Hagen, da banda Queen (ainda com Freddie Mercury), grupos de heavy-metal e de metal romântico de motel como Scorpions, além de acertar artistas nacionais como Blitz, Pepeu Gomes e Barão Vermelho, cujo líder, Cazuza (1958-1990), protagonizou o momento mais antagônico do evento, na noite de 15 de janeiro, horas após o Colégio Eleitoral televisionado por um pool de emissoras:

“Que o dia nasça lindo pra todo mundo amanhã, um Brasil novo com uma rapaziada esperta.”

EBN/28.03.1985


Tancredo com médicos: a primeira farsa da transição democrática

De fato, o dia 15 de março de 1985 era para ter nascido lindo em Brasília. Mas um Tancredo retraído e com dores na missa da véspera mostrava que o presidente que estava para assumir não estava nada bem. O ex-governador de Minas e ex-primeiro ministro baixava no Hospital de Base de Brasília com fortes dores abdominais e o país se viu obrigado, às 9 da manhã, a assistir, angustiado, à posse de um interino arranjado em meio a uma das mais antigas oligarquias nordestinas. Eleito vice-presidente na chapa de Tancredo, o maranhense José Sarney assumiu o Palácio do Planalto para desgosto de um general Figueiredo que desejara sucesso a Tancredo após sua eleição. Com Tancredo doente, Figueiredo saiu do Palácio do Planalto direto para o Rio de Janeiro e encerrar ali, de forma melancólica, 21 anos de ciclo militar autoritário que afundou o país na mais profunda recessão e descrédito internacional. Descrédito esse que foi da Seleção Nacional de Futebol até à concorrente brasileira no título de Miss Universo. Naquele 1985 conturbado para a democracia brasileira, uma loira carioca descobriria, depois dos militares, o desconhecido Estado do Mato Grosso (capital Cuiabá), depois da separação com o sul (capital Campo Grande), iniciada em 1979. Na capital mato-grossense para uma campanha publicitária, Márcia Giagio Canavezes de Oliveira chamou a atenção de um olheiro de agência de modelo que a queria como candidata a Miss Cuiabá. Márcia Gabrielle, como já assinava artisticamente, perdeu a disputa municipal, mas dias depois, acabou chamada pela coordenação estadual para concorrer pela inexpressiva cidade de Barão de Melgaço. Acabou ganhando.
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Reprodução/Miss Memorábilia


Márcia como Miss Mato Grosso 1985

Passado o luto pela morte de Tancredo, na noite de 21 de abril e a dolorosa transição para o regime democrático, mais a fúria da natureza contra o Nordeste, Márcia Gabrielle ganhou as manchetes de jornais de forma indesejada no dia 8 de junho, quando a Folha de S. Paulo publicou uma extensa reportagem denunciando um esquema de compra de votos para a carioca ser eleita Miss Brasil 1985 por Mato Grosso. Após Márcia Gabrielle, Mato Grosso levaria o título de Miss Brasil outras duas vezes. Na segunda delas, em 2000, venceu a paranaense Josiane Kruliskoski. A única mato-grossense de origem a levar a faixa de Miss Brasil válida pelo título de Miss Universo até agora foi a rondonopolitana Jakelyne Oliveiram em 2013. Ao contrário de Gabrielle, que ficara entre as 10 semifinalistas do Miss Universo 1985, Jake, como é conhecida, teve um papel melhor em Moscou 2013 do que a carioca tivera em Miami 1985: trouxe para o país a melhor colocação de uma representante do Estado no Miss Universo – um honroso quinto lugar, a despeito da burrada na resposta final. Até agora, a única vitória do Mato Grosso do Sul no Miss Brasil ocorreu em 1998, ano em que Michela Machri ficou na mesma condição de Márcia Gabrielle no Miss Universo, desta feita em Honolulu.
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SF Notícias/27.10.2014

Entre tantas efemérides, 2015 marca também os 30 anos da primeira transmissão da Fórmula Indy por uma emissora brasileira (no caso, a Rede Bandeirantes). Em 2015, também se completam 30 anos da primeira adaptação televisiva de O Tempo e o Vento, da obra literária de Érico Veríssimo (1905-1975). 2015 marca também os 30 anos da primeira morte de ator de Hollywood em decorrência da Aids (neste caso, Rocky Hudson). E, como já dito no início, da implantação dos primeiros people meters no Brasil, pelo Ibope (que tinha como concorrente direto a Audi-TV). Enfim, 2015 marcará 30 anos de muita coisa. E de muita história ainda a ser contada.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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