Que legado o concurso Miss Universo 2011 deixou para o Brasil?


Realização do evento em São Paulo em nada beneficiou a indústria de certames no país; apesar de lucros, Band perdeu telespectadores com o evento

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Fabiano Sétimo/Fotoarena/12.09.2011


Após a eleição de Leila Lopes, Brasil só regrediu nos concursos de misses

A recente classificação da cearense Melissa Gurgel apenas entre as 15 semifinalistas do concurso Miss Universo 2014, realizado há uma semana em Miami, reacende um importante debate: que legado foi deixado pelo concurso Miss Universo 2011 para o Brasil? Como país-sede, nenhum. Que legado foi deixado por este mesmo concurso, em sua festa de 60 anos, para a cidade e para o Estado de São Paulo? Em quatro anos, São Paulo decaiu da condição de “terra da garoa” propagandeada até pela Miss Universe Organization para um paraíso árido, semelhante ao do filme Vidas Secas (1953), dirigido por Nelson Pereira dos Santos, a partir do romance do alagoano Graciliano Ramos. Tudo resultado de uma propaganda enganosa feita pela Sabesp, empresa estadual de abastecimento de água, na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE, na sigla em inglês) e, pasmem, até mesmo na tela da NBC, que gerou o concurso ao lado da Band para 120 países.

O vídeo acima, feito no final de 2012, mostra uma diretoria da Sabesp feliz não apenas por ter emplacado sua marca aos 5,3 milhões de telespectadores da NBC, mas principalmente pelos 10 anos de inclusão na lista da NYSE. Enquanto isso, moradores de cidades como Itu, Mogi das Cruzes e Franco da Rocha sofrem com a pior estiagem em 80 anos, que atinge os sistemas Cantareira, Alto Tietê e Guarapiranga. Como se nota, Juazeiro (do Norte e da Bahia), tu mudaste de endereço. Alagoas agora se chama Cumbica, Moema, Higienópolis. E o Serrado da canção do Djavan em 1979 passou a ser o centro financeiro da capital paulista.
Segundo fontes de mercado, a Band teria lucrado R$ 50 milhões com o certame. Mas tal faturamento não teria sido repassado às coordenações estaduais, para fortalecer ainda mais a estrutura do Miss Brasil. Pelo contrário: a Band fez cerca de 100 demissões na sua empresa de eventos, a Enter-Entertainment Experience, constituída exatamente para dar o suporte logístico principal à MUO. Suporte esse que se traduziu em aborrecimentos na alfândega de cargas do Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, onde os equipamentos chave da NBC, entre material de transmissão e peças cênicas ficou retido. Depois do Miss Universo 2011, as coordenações estaduais do Miss Brasil foram enfraquecidas. Alguns coordenadores simplesmente abandonaram o ramo de promoção de eventos porque não viam mais razão para fazer um evento combalido e sem nenhum retorno financeiro ou de mídia. Os poucos que continuaram tiveram que se submeter às vontades da Enter: ou obedece o que a cartilha da MUO manda ou perde a franquia. Para o Miss Universo 2014, fontes de mercado estimam que a Band tenha perdido em torno de R$ 30 milhões, com cotas não vendidas e cobertura não realizada além da transmissão oficial.
Os registros que indicavam comprovação do patrocínio da Sabesp e também do Governo do Estado de São Paulo e do Governo do Distrito Federal ao concurso Miss Universo 2011 foram apagados do Youtube por questões de direitos autorais, mas a informação persiste. E fica perene. Empresas e entidades estatais injetaram nos cofres da MUO e da NBC cerca de US$ 12 milhões (R$ 32,26 milhões, na cotação desta segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015), rateados entre a emissora de televisão e a entidade que promove o certame. Na transmissão da Band, o Banco do Brasil (pertencente ao Ministério da Fazenda) bancou uma das quatro cotas nacionais de patrocínio, cujo valor não foi divulgado por questões de confidencialidade. Fica a pergunta: quanto de dinheiro público (federal, estadual ou dos municípios que receberam as atividades das 89 candidatas) foi empregado para o Miss Universo 2011? Líquido e certo, é que os R$ 8 milhões empregados na construção do Credicard Hall, casa de espetáculos que sediou a festinha de 60 anos do certame, não saíram do bolso do contribuinte.
No quesito de audiência televisiva, enquanto a NBC teve crescimento de 2,3 milhões do Miss Universo 2011 (SP) para o Miss Universo 2014 (Miami), a Band foi na mão oposta: perdeu 969.827 telespectadores logo na cidade que recebeu o concurso pela única vez no país até agora, praça das decisões mais importantes do mercado publicitário. As quais não favoreceram em nada Melissa Gurgel: só ajudaram a queimar o seu filme e o filme da empresa que detém a concessão do concurso de Miss Universo para o Brasil. Os dados são da Nielsen Media e do Ibope, respectivamente. Para os livros de história, a coroação da angolana Leila Lopes em terras brasileiras não deixou nenhum ensinamento à indústria de concursos de misses e de moda no Brasil. Foi apenas um tiro no escuro.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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