O mundo sinistro de irregularidades no Comitê Nacional de Coordenadores de Concursos de Beleza


Band considerou entidade “ilegal, imoral e gorda demais” para seus parâmetros

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Katie Yu/ABC/Divulgação/03.10.2014


Contos de Elsa para a ópera de malandros de passarela

A queda da cearense Melissa Gurgel na segunda fase classificatória do concurso Miss Universo 2014, realizado no último domingo (25), na Arena da Florida International University, na zona oeste de Miami (Flórida), expõe as vísceras de um dos maiores antros de incompetência, burocracia, amadorismo e irresponsabilidade que já se formaram em 60 anos de concurso de Miss Brasil. Formado em 2012 para congregar todas as 27 coordenações estaduais da representação brasileira do concurso de Miss Universo, o Comitê Nacional de Coordenadores de Concursos de Beleza (CNCCB) não passa de uma entidade de fachada, sem estatuto e cuja única reunião ocorreu durante o concurso Miss Brasil 2012, em 29 de setembro do ano em questão, na cidade de Fortaleza.
Indignados, ex-funcionários da coordenação do concurso de Miss Amazonas procuraram a redação do TV em Análise Críticas para denunciar o óbvio uluante: o CNCCB não existe, nem nunca existiu. Nem em cartório, tampouco nos contos de fadas da Disney retratados pela série Once Upon A Time (ABC/Sony/Record). De acordo com os registros constantes, o presidente do CNCCB é o coordenador do certame amazonense, Lucius Gonçalves, que não presta as contas da entidade desde outubro de 2013. A reunião anual do CNCCB que deveria acontecer em Belo Horiozonte, à época do Miss Brasil 2013, terminou cancelada por desentendimento entre as coordenações. Diretores da Enter, empresa de eventos da Band que detém a concessão do Miss Universo para o Brasil, consideraram o CNCCB “ilegal, imoral e gordo demais para a já complexa estrutura de produção que abraça o Miss Brasil”, teria dito uma fonte do Comitê, que pediu para não ser identificada.
Aterrada com o descaso do CNCCB, a coordenadora do concurso Miss Mato Grosso do Sul, Melissa Tamaciro, ameaçou denunciar Lucius por má fé e estelionato, ao não repassar-lhe as verbas que lhe eram necessárias para a realização do concurso Miss Mato Grosso do Sul 2013, que acabou cancelado. Numa conversa telefônica, Tamaciro ameaçou processar Gonçalves e a Enter caso não pagasse a comissão que lhe era devida. “Ou você me paga os R$ 30 mil para eu fazer o concurso ou eu indico candidata”, teria dito Tamaciro aos berros. Procurada, a empresa Arena Models, que representava o Miss Brasil no Estado até 2014 e presidida por Tamaciro, nega a história e esclarece que a indicação de Patrícia Machry para o Miss Brasil 2013 “se fez necessária para suprir necessidades da Enter”.
Até mesmo a coordenação do concurso Miss Ceará já foi vítima dos trambiques do tal “Comitê”: no cargo desde 2013, Gláucia Tavares informou a produtores do Críticas que Lucius prometera uma bolsa-benefício caso sua candidata vencesse o Miss Brasil 2013. Não deu: Mariana Vasconcelos caiu na última fase classificatória do certame nacional.
De acordo com fontes da Band Manaus, o CNCCB sequer registrou ata em cartório, condição essencial para sua existência legal. “Um convescote de coordenadores não vai resolver em nada os problemas de estrutura que o Miss Brasil já enfrenta na Band nacional desde 2003”, teria dito uma fonte, insatisfeita com o trabalho desempenhado tanto por Lucius quanto pelo coordenador técnico nacional do certame, o gaúcho Evadro Hazzy, apontado por muitos franqueados estaduais como responsável direto pela “implosão” jurídica do CNCCB, em março de 2014, atendendo ordens de Johnny Saad, presidente do Grupo Bandeirantes de Comunicação, de Caio Luiz de Carvalho, responsável pela Enter, e de Marcelo Meira,. vice-presidente do Grupo Band. “Conselho existe CRM (de Medicina), CRF (de Farmácia), Creci (de corretor de imóvel), mas conselho de coordenador de concurso de miss? Isso é uma aberração, Isso tem que parar”, teria dito uma assessora direta de Saad a Lucius Gonçalves, já decepcionado com as poucas parcerias que conseguira para seu certame.
Em Estados que não contam com afiliadas da Band, como é o caso do Piauí, por exemplo, a situação só piora. Nelito Marques, que cuida do Miss Piauí desde 1991, jamais recebeu uma bolsa sequer do CNCCB. O Comitê das Misses, na forma como está, se revela uma farsa, um engodo aos cada vez mais escassos torcedores e admiradores de concursos de beleza no país. País esse que já deu Martha Rocha, Ieda Vargas e Martha Vasconcellos e que agora só dá vergonha nos aspectos educacional, de infraestrutura, regulamentação da mídia, combate à corrupção, combate ao analfabetismo e erradicação da miséria. Triste ver que num país que teve 80% de aproveitamento nas semis do Miss Universo na primeira metade dos anos 2010, ainda sobrevivam métodos tacanhos e arcaicos de promoção de concursos de beleza como esse.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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