Octávio Muniz: Clássicos nacionais em Pernambuco, a polêmica


“A platinada aprendeu a lição e nunca mais deixou que ninguém chegasse perto dos regionais, nacionais, internacionais sem que ela tivesse o controle”

Do R7

Quero debater com você hoje este tema proposto no título.
E quero debater com conhecimento de causa, profundo conhecimento, diga-se de passagem.
Eu morei em Pernambuco por dois anos e mantenho laços na terrinha até hoje.
Quando cheguei em 1999 para assumir a Direção da TV Pernambuco, convidado pelo Luciano do Valle, me deparei com uma situação inusitada nos estádios.
Nós, Costa Dourada (empresa que arrendou a TV Pernambuco), éramos os proprietários dos direitos do Campeonato Pernambucano, e logo no primeiro jogo, narrado pelo Luciano e reportado por mim, em Vitória de Santo Antão, demos de cara com uma torcida desfigurada.
Havia mais camisas de times daqui do Sudeste do que da capital, Recife.
Era um fenômeno, mas com explicação.
Essa explicação começa lá nos anos 80.
A Globo sempre foi detentora dos regionais de futebol, como também do Brasileiro e demais torneios.
Essa verte ela herdou do que aprendeu com a Record e com a Tupi.
Só que a desclassificação da Copa da Itália em 90, sofrida pela Seleção Brasileira, pesou demais para a empresa que resolveu deixar de lado o futebol, aconselhada por alguns internos que detestavam esporte.
E se deu mal!
No mesmo ano, 1990, a final do Brasileiro teve o Corinthians Campeão (pela 1ª vez) em decisão contra o São Paulo.
Naquele dia, como já contei para vocês, a Bandeirantes (em transmissão exclusiva) bateria seu recorde histórico de audiência registrando incríveis 53 pontos no IBOPE (recorde somente igualado, não batido, pela final do Mundial Interclubes de 2000) comandados pelo Luciano, com Juarez Soares, Datenão e eu.
Pois bem, este fato, somado ao crescimento do Show do Esporte (programa da Bandeirantes aos domingos) foi a senha que faltava para aqueles que, dentro da Globo, defendiam o retorno, com tudo do futebol – inclusive com a criação de uma empresa específica para aquisição de direitos – a Globo Esporte.
E assim se deu…de lá prá cá, a empresa foi adquirindo TUDO que era/é importante relacionado à bola.
Três percalços tem que ser lembrados e que balançaram esta estrutura – a saída de Galvão em 92 para a OM (junto com a Libertadores), a Copa do Brasil 1995 (era do SBT) e a não aquisição do Mundial de Clubes 2000 (exclusivo da Band).
Mas voltemos ao tema – então, Globo adquire e vira dona de tudo no futebol brasileiro e detecta um problema, a paixão/a resistência do nordestino que ama os seus times locais.
Como combater isso, já que era humanamente impossível, principalmente do ponto de vista técnico (falta de geradores para os eventos, por exemplo) cobrir todos os campeonatos?
Simples, bastava dividir a rede em duas (às vezes três, raramente) e “enfiar” goela abaixo os jogos dos times cariocas/paulistas para o público nordestino ver (não havia tv por assinatura na época, ok).
Consolidou-se assim (fato que se iniciou lá na década de 80) a progressão em massa das torcidas regionais pelos clubes cariocas/paulistas, vide o Flamengo/Corinthians, que são em muitas cidades nordestinas, a maior torcida, mesmo a frente das equipes locais.
Isso foi obra da TV aberta que incutiu na cabeça de grande parte da população essa cultura de “aqui torço para … mas no/em RJ/SP sou …”
Explicado isso voltemos à 1999 – sabedor de que a televisão tinha que mudar suas regras de geração, tinha que ter um pólo gerador fora do eixo, Luciano resolveu inovar e mostrar sim, com destaque de grande atração, um campeonato regional para a própria região.
E foi isso que fizemos com o PE99 inclusive colocando jogos às segundas-feiras, 20h30, em cima do Jornal Nacional só prá ver no que dava.
Foi um sucesso…cansamos de bater a concorrência com as partidas nesta data/horário.
Só que a TV PE acabou e ficamos com o “mico” na mão de ter um campeonato até 2005 (seis anos de contrato) e não ter televisão para exibir.
Fui então, como gestor do negócio que eu era, obrigado a vender os 5 anos restantes para a Globo por quase dois milhões.
A platinada aprendeu a lição e nunca mais deixou que ninguém chegasse perto dos regionais, nacionais, internacionais sem que ela tivesse o controle.
Tá mais do que explicado, né!
PE ainda resiste hoje – mas se nada for feito pela cultura televisiva (esportiva) local, como nós fizemos nos anos 90, creiam, em 10/15 anos teremos mais torcedores de “sofá” apaixonados pelos times do sudeste do que por Náutico, Santa Cruz e Sport.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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