Para a imprensa do eixo Rio-São Paulo, Reginaldo Rossi era um lixo. Em Pernambuco, ele é um santo


Para ouvidos acostumados a Bebel Gilberto, Quarteto em Cy, Joyce, Rita Lee, João Gilberto, Nara Leão (R.I.P.), Beethoven, Bach e Villa-Lobos nas rádios Globo FM (Rio), Bandeirantes FM (São Paulo), JB FM (Rio), Tupi FM (Rio) e Tamoio AM (Rio), o rei do brega pernambucano era um estróina

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Reprodução/Diário de Pernambuco


O que é ArtPop?

Quando me mudei do Rio de Janeiro para Teresina, na virada de 1979 para 1980, perdi muito da noção de bom gosto que campeava nas emissoras de rádio de uma cidade para outra. Saí de uma cultura acostumada a tocar MPB na Rádio MEC FM, Globo FM, sucessos internacionais na agora extinta rádio Cidade FM e comunicadores de ponta nas rádios Globo AM e Tupi AM. E sucessos de novelas na Rádio Globo AM. Nessa época, minha mãe usava um radinho de pilha que só pegava as AMs e ondas curtas. Na casa em que vivia, só entrava música do que os disc-jockeys da época chamavam de “boa qualidade”. Globelezados industrializados, envasados e amestrados tucanos como Nelson Motta faziam questão de dizer em entrevista que “cada pedido que o Mestre Cartola [da escola de samba Mangueira] faz é uma ordem”.
Gentinhas reducionistas educadas em faculdades de comunicação de grifes como Hélio Alonso, Estácio de Sá, SUAM, PUC (para não citar os jornalistas que saíam do campus da Ilha do Fundão, da UFRJ) gostavam de escrever que bom mesmo era Cartola, Paulinho da Viola, Nara Leão, Lady Zu, Rita Lee, Gloria Gaynor, Quarteto em Cy, João Bosco e sua incompatibilidade de gênios, Sidney Magal e sua Sandra Rosa Madalena, os clássicos de Beethoven, Debussy e Bach e a competência artística de um cabra-da-peste denominado Raimundo Fagner (que, em 8 de dezembro, ganhara o único Festival de MPB que a extinta Rede Tupi promovera, com composição de um futuro miliciano neolibelês, Dominguinhos).
Depois que a mudança chegou completa da capital fluminense, com o aparelho de som e o radinho incluídos, um choque: em Teresina, não havia emissora de rádio que tocasse música clássica (tampouco educativa, como a MEC FM). Para piorar, não havia uma única rádio FM sequer. Do Volver a Los 17 da chilena Violeta Parra que conseguimos manter conservados em disco (Geraes, 1976, EMI, dueto entre Milton Nascimento e a saudosa Mercedes Sosa imortalizado numa época em que o Fantástico não era uma revista eletrônica de jornalismo de desespero e entretenimento sofrível subliminar para derrubar governos trabalhistas) regredi, ainda na estrada, para os bregas de Márcio Greyck (em Petrolina) e Reginaldo Rossi (já nas quatro rádios AM de Teresina à época – a extinta Poti, a Clube 700, a Pioneira e a Difusora).
Durante toda a extensão de sua carreira, Reginaldo Rossi foi tratado como um estorvo pelas tchurminhas que saíam das Fachas, PUCs e SUAMs da vida carioca e da plebe rude da poluição industrial de São Paulo (a começar do prédio-sede da Editora Abril, na Marginal Tietê). No início dos anos 1980, Reginaldo Rei era um alien para a cultura mauricinha/patricinha que ditava moda em reportagens de cultura no telejornal Hoje, à época apresentado por Leda Nagle e Lígia Maria. Do filtro global, do pente-fino que a Globo Rio fazia nas matérias da Globo Nordeste, sediada no Recife, só saíam matérias policiais e políticas, para retratar escândalos de corrupção (caso da Mandioca, 1982) e cenas de miséria (saques e flagelados da seca, entre 1979 e 1983).
Quando o ensemble cast da mídia sulista “descobriu” Rossi ao acaso, no início dos anos 1990, já era tarde: Reginaldo Rossi, para os pernambucanos e o resto dos nordestinos já era um Deus do pop, do sub-pop. Do ArtPop retratado na capa do Diário de Pernambuco deste sábado, 21 de dezembro de 2013, a qual o Críticas tomou a liberdade de reproduzir acima.
Desde às 9h40 da sexta-feira (20/12), Reginaldo Rossi pertence ao Panteão dos Deuses da sub-cultura pop, do underground (na definição de retardados mentais de redação do eixo RJ-SP), da música brega (segundo a voz rouca dos bares de Recife e de todo o Nordeste) e dos “originais” (na acepção de Naná Vasconcelos, pernambucano da gema como Rossi).
Agora pergunto: o que é brega para o sr, ou para a sra.?:

a)Lady Antebellum;
b)Clay Aiken;
c)Tim Tebow;
d)ACM Neto;
e)O vestuário questionável da Paula Abdul;
f)Os palavrões censurados da Chelsea Handler;
g)As aulas de cuspe da Andressa Urach;
h)O torquemada do Joaquim Barbosa (nos casos dos mensaleiros e do IPTU da loja da Kourtney Kardashian);
i)Claire Danes;
j)A trairagem da brasilo-americana Morena Baccarin em se recusar a ser atriz de novelas adultas da Globo, Record ou de novela infantil do SBT;
k)Rita Cadillac e o veículo automotor da Ford em questão;
l)Barbas ZZTop dos Reis dos Patos ao molho A&E;
m)A boçalidade de Kanye West ao constranger Mike Myers em teleton pró desabrigados do furacão Katrina e importunar a Taylor Swift em uma edição do VMA da MTV americana;
n)Rotular a ex-assessora parlamentar Denise Leitão “Quero minha vida de volta” Rocha de “perturbação atmosférica da CPI [do Carlinhos Cachoeira]”;
o)Celso Russomanno;
p)O ibope de Alex & Sierra na final do The X-Factor americano;
q)Qualquer atuação da Julia Roberts em filme pós-Uma Linda Mulher (com o Richard Gere);
r)Qualquer atuação da Sandra Bullock em filme pós-Miss Simpatia 1 e 2;
s)A coleção repetida de ternos Burberry usada pelo Ryan Seacrest nos tapetes vermelhos do E! e nas finais do American Idol e lavados na lavanderia do E!;
t)O Fiuk do Fábio Jr. servir de VJ na nova MTV Brasil;
u)O cachorro da Sucam e o cãozinho dos teclados;
v)Homeland;
w)As piadinhas do Marcelo Rezende no Cidade Alerta;
x)As roupas e a maquiagem da Kerry Washington em Scandal;
y)Os Sunabões;
z)Lady GaGa.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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Uma resposta para Para a imprensa do eixo Rio-São Paulo, Reginaldo Rossi era um lixo. Em Pernambuco, ele é um santo

  1. Ralfon Toledo Filho disse:

    Lixo-Lixo-Lixo mesmo, reforçando o vocabulário, Possilga e a vergonha que os brasileiros no exterior tem que engolir sobre o Brasil. Reginaldo Rossi para os nordestinos foi um idolo.

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