Reporter do E! que foi câmera do funeral de Whitney Houston como jurada do Miss Universo 2013: ética jornalística a perigo


Empreiteiras da Arena Pantanal querem subornar Alicia Quarles para classificar Jakeline Oliveira entre as nove semifinalistas a serem escolhidas pelo júri preliminar

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Reprodução/Twitter/Alicia Quarles


Quarles: ratoeira pantaneira à vista no Miss Universo 2013

Sábado de Carnaval, 17 de fevereiro de 2012, igreja Nova Esperança, Newark, Nova Jérsei. Dia de luto para a comunidade musical e cinematográfica norte-americanas. Uma jornalista que tinha sido pautada pela Associated Press para uma entrevista com a cantora Whitney Houston no sábado anterior ao Grammy, ao invés de conseguir falar com sua fonte, acabou pegando dos representantes da atriz e cantora uma informação trágica: a intérprete de hits comerciais da segunda metade da década de 1980, como I Wanna Dance with Somebody, Saying All My Love For You, The Greatest Love of All e outros, fora encontrada morta, aos 48 anos de idade, em uma banheira do Beverly Hilton, sede da festa anual que o produtor Clive Davis concede às vésperas de cada edição do Grammy. Alicia Quarles, repórter da AP, tinha nas mãos a informação que os órgãos de imprensa do resto do mundo só teriam conhecimento às 22h55 (horário de Brasília).
Casada, Alicia recebeu a única permissão jornalística para operar equipamentos de vídeo dentro da New Hope. A inexperiência aparente no manuseio de câmeras de vídeo fizeram Quarles, nova-iorquina de nascença formada pela USC (Universidade do Sul da Califórnia), chamou a atenção dos pouquíssimos canais de notícias que se arriscaram a fazer a cobertura das exéquias de Whitney, ao som de nomes da cepa de Alicia Keys, Stevie Wonder, R. Kelly e outros. A mão que manuseou o registro do momento em que Kevin Costner relembrava o trabalho em O Guarda-Costas (1992), ganharia no mês seguinte um emprego no canal E!, como repórter de entretenimento para a costa leste americana, sobretudo o teatro da Broadway.
Quatro meses depois do adeus a Whitney, afogada em drogas e outros escândalos pessoais, Alicia entrevistara um advogado para detonar Sheena Monnin, candidata da Pensilvânia que denunciou um suposto esquema para classificar as 16 semifinalistas do Miss USA 2012, realizado havia poucos dias em Las Vegas. Monnin caiu fora do título estadual e perdeu o processo movido por Donald Trump, parceiro da NBCUniversal (proprietária do E!) desde 2003 nas transmissões domésticas deste certame e também do Miss Universo.
***
Pouco mais de um ano e oito meses depois de ter achado a descoberta da pólvora que chocou o mundo das artes e espetáculos, Alicia L. Quarles (assim identificada em sua conta de Twitter) arrisca a reputação jornalística que conquistou com esse importante furo ao se meter no terreno pantanoso dos júris de concursos de beleza. Como ocorreu no Miss Universo 2012, Alicia agora passa de repórter a pauta. De predicado a sujeito. Jornalista sujeita a receber as mais sórdidas propinas de coordenadores nacionais interessados no “meu pirão, primeiro” na preliminar da próxima terça-feira (5/11), no Crocus City Hall. No caso da coordenação do Miss Brasil, que monitora à distância a matogrossense Jakeline Oliveira, o perigo vem das empreiteiras Mendes Júnior e Santa Bárbara, que já teriam sinalizado com US$ 480 mil de adiantamento para cada jurado que votasse a favor de Jakeline.
Louca, Alicia Quarles (que já recebeu os passaportes do governo russo e vai se encaminhar para Moscou ainda nesta semana) não é. Não vai deixar sua reputação ser destruída por empreiteiros gananciosos em tirar vantagens criminosas com o elefante branco que se ergueu em Cuiabá, capital do Mato Grosso, para abrigar concertos do tipo Live at Pompeii, do Pink Floyd, para ninguém assistir após o mundial da FIFA, em junho (vídeo abaixo). Muito menos por aqueles que se locupetam do desperdício de dinheiro público para ambicionarem projetos políticos.

***
For the record, no dia da etapa brasileira do Miss Universo 1985 (8 de junho), a Folha de S. Paulo noticiou que uma provável vitória da carioca Márcia Canavezes de Oliveira, vulgo Márcia Gabrielle, serviria para beneficiar o esquema político do então governador Júlio Campos (à época no PDS, partido de sustentação do regime militar que saíra do poder três meses antes do certame, para ceder espaço a um presidente civil, eleito por Colégio Eleitoral, que morreu sem tomar posse). Como consequência da tramoia, jamais comprovada ou documentada, Júlio Campos não conseguiu eleger seu sucessor. Frederico Campos (PFL), que não é seu parente apesar de carregar o sobrenome, perdeu para Carlos Bezerra a disputa em turno único de 1986, na qual o PMDB levou na xepa 22 dos 23 governos estaduais.
A denúncia, feita por uma pessoa que se passava por produtor do Miss Brasil no SBT (emissora de então), está registrada na página 41 do caderno Ilustrada, com o título “Miss Brasil acusado de fraude”.

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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