História de Mindy McCready renderia um bom Lifetime movie. Não para a Globo Filmes


Romeu e Julieta por letras tortas

João Eduardo Lima
Editor e criador dos blogs TV em Análise

Getty Images

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Na foto, uma produção de Kleber Mendonça Filho

O suicídio da cantora country Mindy McCready, no feriado do Dia dos Presidentes americanos da última segunda-feira (18), acenderia a esta altura do campeonato o interesse de estúdios para a produção de um telefilme sobre a sua dramática e tormentosa história de amor. Uma espécie de Romeu e Julieta ianque contado por linhas tortas e mórbidas.
Como Lifetime movie, o drama de McCreary fatalmente atrairia tanta atenção quanto sua obscura carreira musical. Ninguém lembra, mas não é o Brasil. São os Estados Unidos da América do Norte, estúpido. Se fosse em Pindorama, não passaria pelo filtro ideológico da Globo Filmes – vide artigo do Conversa Afiada sobre O Som Ao Redor, do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho.
Abaixo, a íntegra do artigo de Paulo Henrique Amorim:

“O filme O Som ao Redor, do cineasta pernambucano Kléber Mendonça Filho, é o melhor filme sobre o Brasil desde tempos imemoriais.
Uma produção de R$ 2 milhões, rodada no apartamento do diretor, na rua Setúbal, na praia de Boa Viagem, em Recife, só tem um ator conhecido: o excelente Irandhir Santos, do malfadado Tropa de Elite – II (tão sinistro quando o I).
O melhor é o Kléber.
Sutil, delicado, inteligente, mordaz, mortal como um golpe de peixeira.
Diretor e autor de um roteiro tão bem feito que lembra o melhor do cinema argentino.
O Som ao Redor é verdadeiro.
É tudo verdade.
Ninguém é falso, nenhuma situação fica fora de propósito.
Ajuda a imprimir a incômoda verossimilhança a fotografia limpa de Pedro Sotero.
Não tem concessões medíocres: não foi feito para um video-show vespertino.
O que é o melhor do Som ao redor?
É que foi feito em Pernambuco.
Que saiu barato.
Que não tem nada a ver com esse círculo de ferro Globo-diretores publicitários que tanto pode fazer um filme em Toronto quanto em Hollywood ou em Adis-Abeba.
Fica tudo lindo! E igual! E falso!
Uma homogeinização – que o Vladimir Safatle já denunciou – e que a Lei Rouanet e o Ministerio da Cultura reproduzem como cúmplices.
Kléber é a prova da vitalidade desse movimento de fuga do centro.
É a nova fronteira da cultura brasileira.
Em que os filhos vingadores se encontram com o usineiro de Fogo Morto.
Em que a classe média racista não resiste a 15′ de uma reunião de condomínio.
A Globo sufocou a cultura brasileira.
Cadê a dramaturgia? Cadê o Plínio Marcos?
Cadê a cinematografia? Cadê o Nelson?
Fernanda Montenegro faz uma ponta em novela.
Adriana Esteves, que podia ser uma das filhas do rei Lear, torna-se uma histérica rodriguiana.
Com Kléber, a cinematografia genuinamente brasileira deu uma banana para a rua Lopes Quintas e se instalou na rua Setúbal.
Onde se recomenda não cair no mar, por causa dos tubarões.”

Sobre João Lima

Crítico de entretenimento desde 2001, João Eduardo Lima escreve no Jornal Meio Norte. Foi repórter de Regional, Polícia e Nacional. Em 2005, entrou no mundo da blogosfera independente com o pioneiro TV em Análise. Suas postagens sobre os bastidores do Miss Brasil-Miss Universo mostraram ao público um lado dos concursos de beleza que os organizadores não querem que você saiba. E, ainda por cima, querem, na base da mordaça, impedir você, leitor, contribuinte e pagador de impostos, de saber o que está por trás do manto vermelho da missologia nacional.
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